Morre Gloria Steinem: conheça a trajetória da ativista que se tornou um dos maiores nomes do feminismo nos EUA - QTU Questões do Universo

Morre Gloria Steinem: conheça a trajetória da ativista que se tornou um dos maiores nomes do feminismo nos EUA

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Escritora, editora e ativista, Gloria Steinem tornou-se um dos principais nomes do feminismo nos Estados Unidos ao longo de décadas de atuação pelos direitos das mulheres, pelos direitos civis e contra diferentes formas de violência e desigualdade.
Ela morreu nesta quinta-feira, aos 92 anos.
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Nascida em Ohio e radicada posteriormente em Nova York, Gloria construiu uma trajetória que atravessou alguns dos principais movimentos sociais e políticos dos Estados Unidos.

Em 1963, esteve na Marcha sobre Washington, onde testemunhou o mais célebre discurso de Martin Luther King.
Nos anos 1960, protestou contra a Guerra do Vietnã.
Na década de 1990, participou de manifestações contra a Guerra do Golfo.
A experiência acumulada nesses movimentos ajudou a moldar sua visão sobre as relações entre raça, gênero, poder e desigualdade.
Em 2017, aos 83 anos, ela afirmou que nenhuma das mobilizações que havia acompanhado ao longo da vida se comparava aos protestos contra o presidente Donald Trump, que havia sido eleito recentemente em sua primeira gestão.
— Nunca, nunca, nunca na minha vida vi tanto ativismo.
Mil vezes mais do que durante a Guerra do Vietnã, do que na luta pelos direitos civis.
Hoje a mobilização é enorme — afirmou.
Morre Gloria Steinem, ícone do feminismo e jornalista, aos 92 anos
AFP
Uma vida dedicada ao ativismo
A atuação de Gloria Steinem pelos direitos das mulheres ganhou força a partir de suas experiências no movimento pelos direitos civis.
Em seu livro “Minha vida na estrada”, publicado originalmente nos Estados Unidos em 2015 e lançado no Brasil pela Bertrand Brasil, ela relatou como a Marcha sobre Washington, em 1963, ampliou sua percepção sobre a relação entre raça, gênero e controle sobre o corpo feminino.
"Os paralelos entre raça e casta — e como o corpo das mulheres era usado para perpetuar as duas coisas.
Prisões diferentes, a mesma chave", escreveu.
Depois daquela experiência, passou a viajar pelos Estados Unidos fazendo discursos em defesa dos direitos civis, especialmente dos direitos das mulheres.
Em 1972, fundou a revista feminista “Ms.”, da qual foi editora durante 15 anos.
A violência contra as mulheres tornou-se uma das questões centrais de sua atuação.
Para Gloria, o combate à violência doméstica e ao feminicídio era uma das principais causas do feminismo.
Ela comparava o número de mulheres assassinadas por companheiros ao de americanos mortos nos ataques de 11 de Setembro de 2001 e nas guerras do Iraque e do Afeganistão.
— Estatisticamente, desde o 11 de Setembro (de 2001), mais mulheres foram assassinadas por seus maridos e namorados do que americanos morreram nos ataques às torres e em duas guerras no Iraque e no Afeganistão, então obviamente a violência doméstica é uma prioridade alta — afirmou.
Ela também chamava atenção para a dimensão mundial da violência contra as mulheres.
— Sabemos que a violência doméstica está no mundo todo, as Nações Unidas podem nos dizer isso, da violência do feminicídio à violência sexual, e pela primeira vez há menos mulheres do que homens no mundo.
A estrada como símbolo de liberdade
As viagens pelos Estados Unidos também se transformaram em matéria-prima para a reflexão de Gloria sobre a sociedade.
Em “Minha vida na estrada”, ela usou a própria experiência para falar sobre diversidade, movimentos sociais e a condição das mulheres.
A autora defendia que viajar ajudava a construir uma visão mais igualitária do mundo, compreender a diversidade e reconhecer a importância das histórias individuais.
Mas também enxergava a estrada como um território historicamente associado aos homens.
"Até agora ela tem sido um território esmagadoramente masculino.
Os homens personificam a aventura, as mulheres personificam o lar e a família, e tem sido basicamente assim", escreveu em um trecho do livro.
Gloria recorreu a personagens como Dorothy, de “O Mágico de Oz”, e Alice, de “Alice no País das Maravilhas”, para exemplificar essa associação entre mulheres, casa e família.
"Mesmo quando criança, percebi que Dorothy, de ‘O Mágico de Oz’, passa o tempo todo tentando voltar para casa, no Kansas, e que Alice, de ‘Alice no País das Maravilhas’, sonhou sua longa aventura e então acordou bem a tempo do chá", publicou.

Para Gloria, as limitações impostas às mulheres não estavam restritas a uma única sociedade.
Ela descreveu situações em diferentes partes do mundo nas quais uma mulher poderia ser punida ou até morta caso deixasse a própria casa sem a companhia de um parente homem ou saísse do país sem autorização escrita de um guardião homem.
"Em muitas partes do mundo, até nos dias atuais, uma mulher pode ser punida ou até mesmo morta por desonrar sua família se sair de casa sem a companhia de um parente homem, ou se sair do seu país sem a permissão por escrito de um guardião homem", disse em sua publicação.
A própria ideia de que a casa seria um lugar seguro para as mulheres também era questionada por ela.
"Os números mostram que as mulheres têm maior probabilidade de serem agredidas e mortas em casa e por homens que elas conhecem.
Estatisticamente falando, a casa é um lugar ainda mais perigoso para uma mulher do que a estrada", refletiu.
Crítica às estruturas de poder
A relação de Gloria com a política americana permaneceu marcada pela crítica às estruturas de poder.
Em 2017, após a vitória de Donald Trump sobre a democrata Hillary Clinton, ela criticou o sistema eleitoral americano por permitir, em sua avaliação, que uma parcela minoritária da população tivesse influência desproporcional sobre o país.
— A maior parte do país não acredita que uma pessoa seja superior a outra, mas um terço acredita.
Estamos representados por esse pedaço do país, graças a um sistema em que um estado tem muito mais poder do que o outro — disse.
Naquele momento, Gloria avaliava que os Estados Unidos atravessavam uma situação de risco, mas defendia que o cenário não deveria eliminar a esperança.
— Agora, os EUA estão numa situação muito perigosa.
Mas não sei se o perigo deveria acabar com a esperança.
Não conseguiremos derrotar o colégio eleitoral, mas talvez consigamos tirar o presidente.
Ela também considerava que a eleição de Trump havia tornado mais evidente o racismo nos Estados Unidos.
Segundo Gloria, antes daquele momento muitas pessoas não acreditavam quando ela falava sobre a existência de grupos radicais de direita em diferentes estados que defendiam a chamada “nação branca”.
Depois de protestos e contraprotestos protagonizados por grupos extremistas na Virgínia, afirmou:
— Agora, elas acreditam.
Gloria também classificava Trump como perigoso e criticava seu comportamento.
— Não preciso te explicar o quão perigoso é o presidente, como indivíduo, ser não só um racista, uma pessoa que semeia a discórdia, um homem de negócios que já seria rico se apenas investisse o dinheiro que herdou, mas também um narcisista que claramente não tolera críticas.
Mesmo diante das críticas ao cenário político, Gloria Steinem preservava uma relação de esperança com os Estados Unidos.
Durante a entrevista em que divulgou “Minha vida na estrada” no Brasil, falou sobre os prazeres que encontrava no país e sobre o sentimento de pertencimento que mantinha.
"Há muitos prazeres incomparáveis nos Estados Unidos", escreveu em seu livro.
Em seguida, completou: "um deles é que os norte-americanos parecem superar qualquer país no quesito esperança (...).
É o que faz com que me sinta feliz por voltar para casa".