'Morte política' ou perspectiva de futuro? Bolsonarismo reedita tática de concentrar artilharia em 'traidores'

Fonte: Bandeira da fonte

Nos últimos meses, críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) feitas pelos presidenciáveis Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além da crise pública que precedeu as pazes com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, colocaram o trio como alvo do bolsonarismo nas redes, em uma reciclagem da estratégia que classifica antigos aliados como "traidores".
Nem sempre, porém, o movimento significa a "morte política" de quem entra na mira dessa artilharia, apontam especialistas ouvidos pelo GLOBO.
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, membros da base como a ex-deputada federal Joice Hasselmann (Podemos) romperam com o clã e nunca mais se recuperaram politicamente.
Por outro lado, houve também quem brigou e depois se reconciliou com o grupo, como o senador Sergio Moro (PL).

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Os ataques à Zema ganharam fôlego quando o mineiro subiu o tom nas críticas à Flávio após a divulgação de áudios e mensagens nos quais o senador cobra dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiamento do filme “Dark Horse”.
O ex-governador definiu o episódio como um “tapa na cara dos brasileiros do bem” e logo virou alvo do bolsonarismo.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), por exemplo, disse que Zema teve “uma postura vagabunda” e que criticava Flávio porque queria “estar no lugar” dele.
Já o pré-candidato ao Senado Carlos Bolsonaro (PL) afirmou que Zema estaria “passando de todos os limites” e questionou onde estavam os parlamentares bolsonaristas “para defender a verdade”.

Veja o que disse Eduardo sobre Zema em junho:

Caiado, por sua vez, tornou-se alvo após ampliar críticas a candidatura de Flávio e à postura do bolsonarismo sobre o tarifaço americano.
A estratégia que, como revelou a newsletter do GLOBO Jogo Político, ocorreu à revelia do que pensava o próprio marqueteiro de Caiado, incomodou o núcleo duro do bolsonarismo.
Carlos foi um dos membros do segmento que reagiu às provocações, compartilhando uma publicação que destacava a presença do PSD, partido de Caiado, na Esplanada dos Ministérios do governo Lula.
No ano passado, ele já havia sido ofendido pelo filho de Jair Bolsonaro, que disse que os governadores de direita que se lançavam como presidenciáveis “se comportam como ratos”.

Veja o que disse Carlos sobre Caiado e Zema em agosto de 2025:

Cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Murilo Medeiros avalia que a acusação de traição pesa contra bolsonaristas que disputam cargos este ano porque a “fidelidade é um critério primordial em movimentos personalistas”.
O pesquisador ressalta também que, “como o bolsonarismo nasceu e se fortaleceu no ambiente digital, a depredação da reputação de ex-aliados acontece primeiro nas redes e só depois nas urnas”.

— O bolsonarismo nasceu muito em torno de uma liderança pessoal.
A pecha de "traidor" não representa o fim da carreira política, mas significa perder acesso ao eleitor mais fiel do segmento — afirma Medeiros, que completa: — O bolsonarismo está entrando numa fase em que diferentes lideranças vão testar sua capacidade de falar em nome desse eleitor.
Até aqui existia um centro de gravidade muito claro.
Agora o campo começa a ser disputado.

A cientista política Carolina Botelho, do INCT/SANI, discorda e avalia que ser classificado como “traidor” do bolsonarismo representa uma “forma de morte política”.

— O bolsonarismo tem pouca tolerância a qualquer político do campo que questione a maneira deles agirem politicamente.
Qualquer um que tente aparecer mais que a família Bolsonaro é colocado de lado.
Mas, como essas pessoas permaneceram, por algum tempo, em uma aliança que se opõe à conduta democrática, também não encontram adesão entre os progressistas.
Ficam em um limbo político no qual não têm apoio de quase ninguém — avalia a pesquisadora.

No caso de Michelle, a avaliação é mais complexa, uma vez que, como frisa Medeiros, a ex-primeira-dama disputa protagonismo dentro do bolsonarismo, não fora dele:
— Michelle não rompeu com Jair Bolsonaro nem com as principais bandeiras do bolsonarismo.
A despeito da reconciliação pública com Flávio, o que existe hoje parece muito mais uma disputa sobre quem representa esse legado do que um abandono desse legado — diz o pesquisador da UnB.
Após o rompimento com Flávio, Michelle aceitou o pedido de desculpas do presidenciável e chegou a gravar materiais de campanha do enteado.
O cientista político Marcos Paulo Campos, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), entende que, embora parte do bolsonarismo já a considere como alguém com postura inadequada, a habilidade de Michelle na formulação de discursos faz com que a acusação de traição não cole em sua imagem com facilidade.

— Michelle cumpre publicamente a imagem de uma esposa devotada, que é muito bem-vista no campo que o bolsonarismo se organiza.

Disputa interna
A contra Zé Trovão tomaram forma após o deputado afirmar que o ex-presidente Bolsonaro errou ao não admitir a derrota nas eleições de 2022.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, então, entrou em campo e acusou o parlamentar de agir contra o ex-mandatário.
Tambémúblicos pelas redes sociais, vão desde críticas à família Bolsonaro até a disputa por candidaturas na direita.

A ofensiva contra Zé Trovão tomou forma após o deputado afirmar que o ex-presidente Jair Bolsonaro errou ao não admitir a derrota nas eleições de 2022.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, então, entrou em campo e acusou o parlamentar de agir contra o ex-mandatário.
Também se referiu a Zé Trovão como “bosta” e usou o comportamento dele para justificar a necessidade da candidatura do irmão Jair Renan à Câmara.

O conflito com Salles, por sua vez, teve como estopim uma disputa para a definição das candidaturas da direita ao Senado em São Paulo.
O ex-ministro do Meio Ambiente buscava consolidar a postulação própria, mas a insistência de Eduardo pela candidatura do deputado estadual André do Prado (PL) dificultou o cenário no estado.
Os dois bateram boca em maio após Salles acusar o filho de Bolsonaro de vender apoio a Prado.
Eduardo, que pretendia ser suplente na chapa, rebateu, acusando o antigo aliado de “calúnia”.

No fim das contas, Salles manteve a candidatura e a direita terá três nomes na disputa pelo Senado.
Além do ex-ministro e Prado, o ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP) também terá o nome nas urnas
Já os ataques contra Damares e Mourão ocorreram após críticas públicas dos senadores a dois principais obstáculos da campanha de Flávio Bolsonaro ao Planalto: o tratamento dos enteados com Michelle Bolsonaro e a ausência de prestação de contas sobre o financiamento feito pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse”, respectivamente.

Veja o que disse Carlos sobre Mourão no mês passado:

Caminhos opostos
Ao longo da estadia no Planalto, a família Bolsonaro colecionou conflitos que abalaram a trajetória política de membros da base governista.
Tornaram-se alvo do núcleo duro do movimento, por exemplo, os ex-deputados federais Alexandre Frota (PDT) e Joice Hasselmann, que não retornaram ao Congresso Nacional após o rompimento com o movimento.
Também foi o caso do ex-governador de São Paulo João Dória (sem partido), que abandonou a política.

Veja o que disse Eduardo sobre Joice em 2019:

Já uma outra parcela dos antigos desafetos da família fez o caminho de volta e buscou reaproximação com o bolsonarismo.
Um caso emblemático é o do senador Sergio Moro, que deixou o Ministério da Justiça em 2020 sob a justificativa de que teria que “preservar a biografia”.
Houve, à época, a acusação de falta de autonomia à frente da pasta em meio à queda de braço pela direção da Polícia Federal (PF).

Veja o que Eduardo falou sobre Moro em 2021:

Às vésperas da eleição de 2022, o ex-juiz se reconciliou com o bolsonarismo, tática repetida em 2026, quando disputa o governo do Paraná em chapa conjunta com Flávio.
Parceiro de Moro na Lava-Jato, Deltan Dallagnol (Novo) também sobe no palanque do PL neste ano após críticas públicas ao segmento.
Na mesma linha, o empresário Pablo Marçal (PRTB) — que, mesmo inelegível, se lançou ao Planalto — voltou a associar-se a membros da família Bolsonaro após sair derrotado na eleição pela prefeitura de São Paulo.

Para Marcos Paulo Campos, a busca por reaproximação parte de cenários diferentes:
— Moro e Deltan são anteriores ao bolsonarismo e lideraram uma força muito grande de aversão ao PT.
Eles se associaram ao bolsonarismo depois e se achavam sócios-majoritários, mas foram relegados à condição de minoritários.
Ambos passaram a ser dependentes dos Bolsonaro — pontua o pesquisador.
— Já Marçal cresceu no mesmo campo do bolsonarismo, mas com autonomia.