Morte trágica de Geraldo, o "Assoviador", ídolo do Flamengo, completa 50 anos - QTU Questões do Universo

Morte trágica de Geraldo, o "Assoviador", ídolo do Flamengo, completa 50 anos

Fonte: Bandeira da fonte

Há exatos 50 anos, o Flamengo e a seleção brasileira perdiam repentinamente uma grande promessa: o meia Geraldo.
Com apenas 22 anos, o “Assoviador” morreu após sofrer um choque anafilático, provocado por uma anestesia local, durante a realização de uma cirurgia para a retirada das amígdalas.
A tragédia pôs um abrupto ponto final na trajetória do armador, que despontava como um dos grandes talentos do Flamengo nos anos 1970.
Mineiro de Barão dos Cocais, Geraldo foi o atleta mais bem-sucedido de uma família que produziu outros cinco jogadores profissionais: Washington, Lincoln, Júlio César e Wilson, todos filhos do ex-meio-campista Oswaldo Boi.
Cria do antigo Morro da Viúva, Geraldo chegou ao Flamengo em 1970 e rapidamente chamou atenção.
De personalidade forte e muito recurso técnico, tinha o costume de cantarolar enquanto jogava, o que lhe rendeu a alcunha de Assoviador.
Júnior, ídolo rubro-negro e seu companheiro no clube, recorda um jogador alegre, extrovertido e dono de um estilo particular:
— Nós tínhamos uma admiração muito grande por ele, pela bola que ele jogava, com estilo diferente, que olhava sempre para frente.
Dificilmente ele olhava para a bola enquanto corria, enquanto driblava, enquanto fazia lançamento.
Era um craque.
A habilidade de Geraldo também impressionou o atacante Júlio César.
O “Uri Geller” conta que conheceu Geraldo ainda nos juvenis do Flamengo e foi colega de quarto do meia:
— Ontem mesmo, recordando do Geraldo, eu perguntei a amigos em que posição daquela equipe campeã nacional e mundial ele entraria.
Certamente iria jogar.
Jogamos juntos, desde a Escolinha do José Nogueira até chegar aos profissionais.
Sempre foi perceptível o talento na forma como ele batia na bola, era uma coisa impressionante.
Chegamos a morar juntos num apartamento que o Flamengo destinava a jogadores que vinham de fora, localizado na Praia do Flamengo.
Além de ressaltar a qualidade técnica do “Assoviador”, o ex-ponta-esquerda, que defendeu o Flamengo entre 1975 e 1981, também destacou a generosidade de Geraldo:
— Era uma pessoa especial demais, um grande homem, dono de um coração gigantesco.
Ajudava todo mundo.
Quando subiu para a equipe principal, dos profissionais, continuou ajudando quem estava nos juvenis.
Ele me ajudou muito no meu começo de carreira.
Entre os profissionais, Geraldo integrou um plantel rubro-negro que reunia nomes que se tornariam figuras centrais do futebol brasileiro nos anos seguintes, como Zico, Júnior e Rondinelli.
Ele rapidamente conquistou espaço e formou, com Zico, uma dupla de sucesso, sendo apontado pela imprensa da época como parceiro ideal do Galinho de Quintino.
Vestindo o manto sagrado, conquistou a Taça Guanabara de 1973 e o Campeonato Carioca de 1974, além de ter sido herói do bicampeonato estadual de juvenis.
Ao todo, o camisa 8 marcou 13 gols em 169 partidas pelo Mais Querido.
Geraldo também disputou sete partidas pela seleção brasileira, estreando na Copa América de 1975 e vencendo a Copa Roca, antigo Superclássico das Américas, em 1976.
Durante a curta carreira, Geraldo Assoviador lutou contra o rótulo de “indisciplinado”, fruto de seu jeito desbocado e de comportamentos malvistos por figuras conservadoras do futebol dos anos 1970.
Ele desabafou sobre a questão ao GLOBO poucas semanas antes da fatídica operação:
— Eu precisei lutar e abrir o meu caminho.
Ninguém se lembra que, até pouco tempo, eu era um menino do interior, afastado da família e dos amigos (...) Vou começar a cortar o cabelo mais curto e parar de jogar com meião arreado, para ver se pegam menos no meu pé.
Mostrarei a eles que sou apenas um jogador que deseja vencer no futebol porque tem uma família para sustentar.
Em 26 de agosto de 1976, Geraldo foi submetido a uma operação para retirar as amígdalas no Hospital Rio Cor, em Ipanema.
O Flamengo havia recomendado a cirurgia para evitar inflamações na área.
Tal procedimento já havia sido realizado em outros atletas, e o risco da operação era considerado baixo.
A cirurgia, realizada pelo médico otorrinolaringologista Wilson Junqueira, começou às 7h da manhã.
Durante o procedimento, Geraldo sentiu-se mal e precisou ser socorrido pela equipe médica, que tentou reanimá-lo.
Após sofrer duas paradas cardíacas, morreu por volta de 10h30.
Sua namorada na época, Mônica Azevedo, contou ao GLOBO que Geraldo não estava se sentindo à vontade com a operação pelo fato de ter tomado “um bolo” na data original do procedimento, inicialmente marcado para a manhã do dia 25.
Acompanhado de seu melhor amigo, Serginho, enfermeiro do Flamengo, ele parou na Igreja de Nossa Senhora da Paz para rezar antes da cirurgia.
Zico relatou posteriormente que Geraldo “morria de medo” de cirurgias.
A tragédia aconteceu quando o restante do elenco do Flamengo estava longe do Rio de Janeiro, numa excursão a Fortaleza para enfrentar o Ceará.
No dia seguinte à vitória sobre o alvinegro cearense por 2 a 0, os atletas receberam a notícia da morte enquanto descansavam no hotel:
— Eu e Jayme (de Almeida) fizemos a operação das amígdalas oito meses antes.
Ele faria a operação conosco, porém, no dia marcado, Geraldo não apareceu.
Por isso, só fez depois.
Quando soubemos do ocorrido, estávamos na beira da piscina do hotel: eu, Zico, Cantarelli, Vanderlei (Luxemburgo).
De repente, escutamos pelo alto-falante do hotel a notícia de que Geraldo tinha acabado de falecer.
Para todos nós, aquilo foi um desespero total.
Saímos correndo para confirmar a notícia com os dirigentes.
O ex-lateral-direito, atualmente comentarista de futebol nos canais Globo, classifica o episódio como um “choque muito grande” para aquela geração de ídolos do Flamengo:
— A gente tinha a completa certeza de que ele teria uma grande carreira e de que iríamos participar de toda a sua trajetória.
A comoção pela morte de Geraldo tomou conta do futebol brasileiro.
Seu enterro, em Barão dos Cocais, comoveu uma multidão de 3 mil pessoas, o que motivou a prefeitura a decretar feriado municipal.
Para homenageá-lo.
Flamengo e CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antiga CBF) decidiram realizar a Taça Geraldo Cleofas Dias Alves, um amistoso beneficente cuja renda arrecadada foi revertida para a família de Geraldo.
Os 142 mil torcedores que se fizeram presentes no Maracanã na noite do dia 6 de outubro de 1976 viram o Flamengo vencer a seleção brasileira por 2 a 0.
Os gols foram marcados por Paulinho e Luís Paulo.
A partida contou com a participação de Pelé, que estava aposentado da canarinha desde 1971, e a presença de autoridades como o ex-presidente Eurico Gaspar Dutra e Ernesto Geisel, chefe de Estado da ditadura militar entre 1974 e 1979.
Aquele jogo também ficou marcado pela decisão do Flamengo de usar calções pretos no seu uniforme principal, em vez dos tradicionais shorts brancos.
A última vez que o Flamengo havia entrado em campo com calções negros ocorrera em 1955, 21 anos antes.
A escolha foi uma demonstração de luto pela morte trágica de um ídolo recente do clube.
Cinquenta anos depois, Geraldo segue vivo na memória daqueles que conviveram com ele, eternizado para sempre no imaginário do torcedor do Flamengo como um dos maiores talentos que passaram pela Gávea.
*Jornalista participante do Curso Jornalismo do Futuro, sob supervisão de João Pedro Fonseca