Ondas de calor, secas e incêndios florestais pressionam governos, forças militares e infraestrutura do continente europeu, segundo análise da Chatham House
A crise climática, associada à queima massiva de combustíveis fósseis, se tornou a maior ameaça sistêmica à segurança da Europa, com impactos sobre a estabilidade social, infraestrutura e capacidade de resposta dos governos europeus, aponta análise da organização independente de estudos geopolíticos britânica Chatham House.
O alerta ocorre após um dos verões mais severos já registrados no continente, marcado por ondas de calor extremo, secas prolongadas e incêndios florestais.
Segundo Patrick Schröder, pesquisador sênior do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do instituto, nenhum outro risco atual afeta simultaneamente tantos países, populações e sistemas essenciais.
Na análise, ele argumenta que a escassez de água ameaça a segurança hídrica e alimentar, prejudica o transporte fluvial e ferroviário e aumenta a pressão sobre serviços de saúde e emergência.
Em alguns casos, níveis baixos dos rios chegaram a comprometer o funcionamento de usinas nucleares por falta de água suficiente para resfriamento, observa.
Na avaliação do pesquisador, o agravamento das condições climáticas também amplia a vulnerabilidade da Europa a ataques deliberados, que podem ter impactos amplos em um ambiente de vegetação seca e temperaturas elevadas.
“Nessas condições, um único ato de incêndio criminoso pode provocar evacuações em massa, destruir infraestrutura e sobrecarregar os serviços de emergência.
Esses ataques são fáceis de realizar e difíceis de impedir pelas autoridades, o que transforma os incêndios florestais em uma possível ferramenta devastadora de terrorismo ou guerra assimétrica”, afirma Schröder.
Quase 500 pessoas foram presas na França sob suspeita de provocar incêndios florestais desde o início do verão europeu, em junho.
Além disso, conflitos militares também têm provocado queimadas.
Na Ucrânia, ataques russos causaram incêndios florestais em áreas como a zona de exclusão de Chernobyl.
Pressão sobre forças militares
A crise climática também começa a mudar o papel das forças armadas europeias.
Segundo Schröder, os militares estão sendo acionados com mais frequência para combater incêndios, apoiar evacuações, transportar suprimentos e ajudar na recuperação de infraestrutura danificada.
Esse novo tipo de operação pode reduzir recursos disponíveis para outras ameaças de segurança, como defesa territorial e tensões geopolíticas.
“O problema climático exige uma abordagem de segurança”, escreve o pesquisador, defendendo maior integração entre cientistas, governos, serviços de emergência e setores de defesa.
Schröder destaca, ainda, que sem redução das emissões de gases de efeito estufa, vilões do aquecimento global, ondas extremas de calor, secas e incêndios tendem a se intensificar e ultrapassar a capacidade de resposta dos países.
A Europa é o continente que aquece mais rapidamente no mundo e, segundo o pesquisador, suas políticas atuais ainda não seriam suficientes para lidar plenamente com os impactos esperados nas próximas décadas.
Além de preparar governos e instituições, Schröder defende maior participação da sociedade, com acesso a informações confiáveis, planos de emergência, uso consciente da água e redes locais de apoio durante crises.
“Investir em resiliência climática não deve ser visto como uma despesa ambiental, mas como um investimento necessário para a segurança”, afirma.
