Nos últimos meses, as chamadas canetas de emagrecimento passaram a ocupar um espaço frequente nas conversas sobre corpo, saúde e estética.
O assunto ganhou ainda mais visibilidade nas redes sociais, entre celebridades e influenciadoras que compartilharam suas experiências com medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy.
Com a popularização desses tratamentos, também surgiram dúvidas entre mulheres com lipedema, condição que provoca o acúmulo desproporcional de gordura em regiões como pernas e, em alguns casos, braços: afinal, essas medicações também podem atuar sobre a doença?
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A resposta, segundo especialistas, ainda exige cautela.
O lipedema não é simplesmente um excesso de gordura relacionado ao ganho de peso, mas uma alteração crônica do tecido adiposo que pode envolver dor, sensibilidade, inchaço e mudanças no contorno corporal.
Por isso, emagrecer nem sempre significa reduzir as áreas afetadas.
"Embora pessoas com lipedema também possam apresentar obesidade, perder peso nem sempre reduz de forma significativa o tecido acometido pela doença, o que explica por que algumas pacientes continuam com dor e desproporção corporal mesmo após emagrecer", explica a endocrinologista Deborah Beranger.
Segundo a médica nutróloga Marcella Garcez, os estudos disponíveis mostram que medicamentos como semaglutida e tirzepatida são eficazes no controle da obesidade, mas ainda não comprovam uma ação específica sobre o tecido característico do lipedema.
"As evidências disponíveis mostram que semaglutida e tirzepatida são altamente eficazes no tratamento da obesidade, promovendo redução significativa do peso corporal.
Entretanto, não existem estudos robustos demonstrando que essas medicações eliminem seletivamente a gordura característica do lipedema ou modifiquem sua fisiopatologia", afirma.
O que as canetas podem fazer no lipedema?
A relação entre esses medicamentos e a condição ainda está sendo estudada.
De acordo com a cirurgiã plástica Heloise Manfim, é importante diferenciar a perda de gordura associada à obesidade daquela afetada pelo lipedema.
"As canetas vão atuar principalmente na perda de peso, reduzindo gordura relacionada à obesidade e também gordura visceral.
A gordura do lipedema costuma ter um comportamento bem diferente; até o momento, a gente não tem nenhuma evidência tão clara de que ela vai ser eliminada pelas canetas", explica.
Entre os medicamentos, a tirzepatida tem despertado interesse de pesquisadores por apresentar uma ação diferente.
Enquanto alguns remédios atuam sobre o hormônio GLP-1, ela combina mecanismos relacionados ao GLP-1 e ao GIP, o que pode gerar efeitos além da perda de peso.
Segundo o cirurgião plástico Rafael Erthal, especialista em lipedema, estudos iniciais levantam a possibilidade de que a substância tenha efeitos anti-inflamatórios e antifibróticos, aspectos que despertam atenção porque inflamação e fibrose estão entre as características da doença.
"O que existe hoje são hipóteses e observações que precisam ser confirmadas.
Ainda não temos estudos feitos diretamente com pacientes de lipedema que comprovem uma ação da tirzepatida sobre a doença", esclarece.
Apesar das limitações, a perda de peso pode trazer benefícios indiretos para algumas pacientes.
A redução da sobrecarga nas articulações, a melhora da mobilidade e o controle de alterações metabólicas associadas ao excesso de peso podem contribuir para uma melhor qualidade de vida.
"Perder de 10% a 20% do peso alivia a sobrecarga sobre joelhos e quadris, melhora a mobilidade e ajuda no controle de problemas metabólicos, como pré-diabetes e pressão alta.
Então, mesmo que a doença em si não desapareça, a qualidade de vida costuma melhorar", diz Rafael.
Por isso, o acompanhamento precisa considerar cada caso individualmente.
A endocrinologista Deborah destaca que o cuidado com o lipedema costuma envolver diferentes estratégias, como mudanças no estilo de vida, terapias conservadoras e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos.
Canetas de emagrecimento e cirurgia para lipedema
Quando a cirurgia redutora do lipedema é indicada, o controle do peso antes do procedimento costuma ser um dos pontos avaliados pelos especialistas.
A técnica, uma lipoaspiração específica para remoção do tecido afetado, tende a ser planejada quando o corpo está mais estável.
"Operar enquanto a paciente ainda está emagrecendo é como mirar em alvo móvel, porque o corpo ainda está mudando de forma.
Isso pode atrapalhar o planejamento e a simetria", observa Rafael.
O uso das medicações também precisa ser informado à equipe médica antes de qualquer procedimento.
Isso acontece porque os medicamentos podem retardar o esvaziamento do estômago, aumentando alguns riscos durante a anestesia, além de provocar sintomas como náuseas e vômitos.
"As medicações podem dificultar uma boa hidratação antes da cirurgia.
Por isso, todo esse planejamento é importante para garantir um procedimento seguro", enfatiza Heloise.
No período após a cirurgia, a retomada do medicamento deve ser avaliada pelo médico responsável, considerando fatores como recuperação, alimentação, hidratação e funcionamento gastrointestinal.
Para os especialistas, o principal ponto é evitar a ideia de que existe uma única solução para o lipedema.
A condição exige uma abordagem ampla, que pode envolver alimentação equilibrada, atividade física, fortalecimento muscular, acompanhamento médico e, quando necessário, cirurgia.
"O maior erro é acreditar que existe uma solução única para o lipedema.
É uma doença que precisa ser tratada em várias frentes ao mesmo tempo", conclui Heloise.
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