Em uma propriedade de apenas nove hectares, em Sorriso, no médio-norte de Mato Grosso, 11 vacas da raça Jersey estão na origem de uma produção de queijos artesanais premiados em concursos estaduais, nacionais e até no Mundial do Queijo.
À frente do negócio está a produtora rural e queijeira Rita Hachiya, que aposta em uma combinação de práticas de manejo, genética, bem-estar animal, sustentabilidade e rastreabilidade para agregar valor ao processo.
O planejamento minucioso começa muito antes da ordenha.
Os animais permanecem no pasto durante todo o ano e são criados em um sistema silvipastoril, que integra a pecuária a uma floresta de eucalipto plantada na propriedade.
Rita conta que adquiriu o sítio em 2009 e, dois anos depois, iniciou a implantação da floresta.
A decisão, segundo ela, não teve como objetivo a exploração comercial da madeira, mas a criação de um ambiente mais adequado para os animais e a conservação ambiental.
“Como queremos criar os animais da forma mais natural possível, plantamos os eucaliptos não com a finalidade de comercializar a madeira, mas de proporcionar conforto térmico, reduzir o carbono, promover o bem-estar animal e preservar o meio ambiente”, afirma.
Para garantir alimento ao rebanho também durante o período de estiagem, a produtora investiu em um sistema de irrigação.
As vacas são mantidas em piquetes rotacionados e têm acesso ao pasto durante todo o ano.
O manejo, de acordo com Rita, também contribui para as características sensoriais dos queijos.
“Com isso, eu consigo um sabor diferenciado nesse queijo artesanal”, explica.
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O cuidado com o rebanho vai além da alimentação.
Para reduzir o estresse dos animais, a propriedade adota práticas como música clássica durante a ordenha, bolas para entretenimento e escovas que permitem às vacas se coçar.
Outra aposta da família foi a produção de leite proveniente exclusivamente de animais com genótipo A2A2.
A estratégia começou em 2015.
“Vendemos tudo e ficamos apenas com as que eram do genótipo A2A2.
Não compramos animais.
Todas as vacas nasceram aqui na propriedade.
Eu gosto de ter esse primeiro contato com o animal, desde o nascimento”, conta.
Além da seleção genética, o rebanho é certificado como livre de brucelose e tuberculose desde 2014.
O controle sanitário e os cuidados adotados na produção foram fundamentais para que o queijo artesanal autoral da propriedade, batizado de “Poranga”, obtivesse autorização para comercialização em todo o território nacional.
Em 2023, o produto recebeu o Selo Arte, concedido pelo Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT).
A certificação reconhece produtos alimentícios elaborados de forma artesanal, desde que atendam às exigências sanitárias e preservem características tradicionais, regionais ou culturais.
“A finalidade foi mostrar que, mesmo sendo uma pequena propriedade, conseguimos alcançar o nível de qualidade de um produtor maior”, afirma Rita.
Atualmente, o Sítio Vila Láctea mantém 11 animais, dos quais seis estão em lactação.
A produção diária chega a aproximadamente 70 litros de leite, destinados à fabricação de queijos, manteigas e iogurtes.
O investimento em qualidade e agregação de valor vêm sendo reconhecidos nos concursos do setor.
Rita já acumula medalhas em competições estaduais e nacionais e também no Mundial do Queijo, realizado em São Paulo, em maio de 2026.
Recentemente ela foi convidada a inscrever o queijo em concurso que acontecerá na Itália, em setembro, mas a participação está pendente por falta de recursos.
Algumas das premiações já conquistadas
Divulgação
Selo amplia rastreabilidade
A propriedade também integra um grupo de 18 agricultores familiares que participam do Selo de Identificação de Origem da Agricultura Familiar no Coração de Mato Grosso, criado pela Associação Clube Amigos da Terra (CAT Sorriso).
A iniciativa foi reconhecida, em julho de 2026, pelo Ministério da Agricultura e Pecuária como um Programa de Boas Práticas Agropecuárias.
O objetivo é ampliar a visibilidade da agricultura familiar da região, agregar valor à produção e oferecer ao consumidor informações sobre a origem dos alimentos.
O selo possui um QR Code que direciona para uma plataforma digital com fotos e informações sobre a propriedade, o produtor e os produtos comercializados.
“Com esse selo, as pessoas que compram o meu produto conseguem identificar que eu sou de Sorriso, como é feita a produção, quem produz e o trabalho que realizamos aqui no sítio.
É uma forma segura de adquirir esse produto”, destaca Rita.
Para a diretora executiva do CAT Sorriso, Cristina Delicato, o reconhecimento do Ministério da Agricultura representa um avanço para o programa e reforça uma estratégia que vai além da certificação.
“Nosso objetivo é ampliar o número de famílias participantes, fortalecer a governança e os mercados locais e institucionais no médio-norte de Mato Grosso e criar oportunidades para que a agricultura familiar tenha cada vez mais acesso a mercados, agregue valor à produção, contribua para a segurança alimentar e gere mais renda no campo”, afirma.
Pesquisa e sustentabilidade
A parceria entre o CAT Sorriso e a Embrapa Agrossilvipastoril também abre espaço para a pesquisa e a adoção de sistemas produtivos mais sustentáveis na região.
Uma das unidades do projeto de Sistema Agroflorestal (SAF) foi instalada justamente na propriedade de Rita, no Assentamento Jonas Pinheiro.
A iniciativa reforça a integração entre produção, pesquisa e conservação ambiental.
“Isso demonstra a integração da produtora com a nossa associação e o compromisso que ela tem com a sustentabilidade do negócio, com o meio ambiente e com a produção”, afirma Cristina.
Na propriedade, a floresta plantada, o manejo a pasto, a seleção genética, o cuidado com os animais, o controle sanitário e a rastreabilidade fazem parte de uma mesma estratégia: transformar uma pequena produção de leite em um negócio de maior valor agregado.
O resultado aparece não apenas nas medalhas conquistadas pelos queijos, mas também na possibilidade de contar ao consumidor a história por trás de cada produto, desde o nascimento das vacas até a chegada do queijo à mesa.
Sítio Vila Láctea mantém 11 animais da raça Jersey, dos quais seis estão em lactação
Divulgação/CAT Sorriso
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