Aos 61 anos, Nany People segue em ritmo acelerado de produção artística.
Com cinco espetáculos solos em circulação e novos projetos no radar, a atriz, cantora, repórter e humorista agora se prepara para estrear Segunda Chance, seu novo espetáculo, no Teatro Fernando Torres, em São Paulo.
A temporada começa nesta quinta-feira (3) e terá sessões todas as quintas-feiras do mês, às 20h.
Com texto de Bruno Motta, direção de Dan Rosseto e participação em voz de Fabio Porchat, a peça acompanha Yvone, uma mulher que acredita ter respostas para tudo e tenta manter o controle absoluto da própria vida.
Até que uma pausa inesperada a obriga a olhar para questões que sempre deixou de lado.
Nany descreve a história como um convite para prestarmos atenção ao presente.
"Curiosamente, eu acho que existem grandes mudanças na vida da gente, que às vezes estão acontecendo e a gente não se dá conta.
A gente tem a ideia equivocada de achar que o melhor da vida vai começar quando… E aí para de prestar atenção no agora", afirma.
É justamente esse exercício de olhar para o presente que está no centro da montagem.
"Então a peça, na verdade, é um convite a isso que a vida é agora.
A vida é o momento, é já.
Então não dá para protelar muita coisa mais", argumenta.
Nnay People em cena do espetáculo 'Segunda Chance'
Divulgação
Sobrevivente da própria escolha
Nany completou 60 anos em 2025, quando também celebrou cinco décadas de carreira e 30 anos de televisão.
Ao refletir sobre o momento profissional, ela rejeita a ideia de que a idade represente uma limitação.
"Antes de mais nada, viver de arte no Brasil já é um grande desafio.
E viver só de arte, como eu fiz a vida toda, é mais desafiante.
Eu acho que o que essa fase representa é que, na verdade, eu sou uma sobrevivente", diz.
A artista lembra que muitos profissionais que chegaram a São Paulo com ela, há quatro décadas, acabaram deixando a carreira artística: "E eu continuo até hoje fazendo, acontecendo, vivendo na inquietude da criação."
A inquietação, aliás, parece ser uma das marcas de Nany.
"Você veja bem, eu estou viajando o Brasil e o mundo com cinco solos e já pensei em um novo, porque eu sou inquieta, eu me obrigo a pensar, me desafiar", afirma.
Nnay People em cena do espetáculo 'Segunda Chance'
Divulgação
Leia a entrevista completa:
A peça Segunda Chance parte da ideia de revisitar a própria vida.
Quando você acredita que as maiores transformações acontecem nas nossas vidas?
Curiosamente, eu acho que existem grandes mudanças na vida da gente, que às vezes estão acontecendo e a gente não se dá conta.
A gente tem a ideia equivocada de achar que o melhor da vida vai começar quando… E aí para de prestar atenção no agora.
E é para isso que a peça chama muita atenção.
Porque a gente deixa muito a depender, muito a quem, o agora, pensando só no que será que eu mereço viver amanhã.
Então a peça, na verdade, é um convite a isso que a vida é agora.
A vida é o momento, é já.
Então não dá para protelar muita coisa mais.
Tem muitas mudanças na vida da gente que já acontecem o tempo todo e a gente não se dá conta de observá-las, só consegue sentir depois, quando os efeitos da mudança conseguem nos rebater, que é o que acontece com a Yvone.
Ela nem se deu conta de que mudou a situação.
Quando ela se dá conta, ela está tendo que saber reagir às consequências da mudança, que ela não teve tempo de ver o que estava acontecendo.
Você completou 60 anos vivendo um momento de intensa produção artística.
Em uma sociedade que ainda associa sucesso à juventude, o que essa fase da sua vida tem representado para você?
Antes de mais nada, viver de arte no Brasil já é um grande desafio.
E viver só de arte, como eu fiz a vida toda, é mais desafiante.
Eu acho que o que essa fase representa é que, na verdade, eu sou uma sobrevivente.
Eu sou sobrevivente da escolha que eu fiz, da profissão que eu fiz, embora tenha sido uma predestinação ser artista, mas eu conheci milhões de pessoas que chegaram em São Paulo comigo há 40 anos atrás e naufragaram.
E eu continuo até hoje fazendo, acontecendo, vivendo na inquietude da criação.
Você veja bem, eu estou viajando o Brasil e o mundo com cinco solos e já pensei em um novo, porque eu sou inquieta, eu me obrigo a pensar, a me desafiar.
Essa peça, por exemplo, não é stand-up, é uma peça que fala de recomeço, de você analisar a própria vida, que você não estava a tempo de analisar.
É uma peça muito poética, divertida e necessária.
A reação das pessoas é sublime.
Então, eu acho que representa para mim, em 60 anos, criando, produzindo e, sobretudo, me mantendo no galope da atividade que eu escolhi.
Nnay People em cena do espetáculo 'Segunda Chance'
Divulgação
Ao longo da carreira, você sempre usou o humor para abordar temas delicados.
Existe algum assunto que hoje você sente que consegue tratar de forma diferente graças ao amadurecimento?
Mas existem alguns assuntos que você, às vezes, é instigado a abordar porque sabe que vai dar like para quem está te perguntando, sabe? Então as pessoas têm mania até de instigar a gente a isso, né? Fulano fez isso, o que você acha disso? Eu aprendi com o tempo uma coisa: que a gente pode, mas não deve, e se deve, não precisa.
Eu não faço nem questão mais de forçar ninguém a mudar de posição nem de opinião, tá? Porque, quando a pessoa quer pensar aquilo, ela vai enxergar aquilo de acordo com o que ela quiser.
Por mais que você dê argumento disso, daquilo, ela vai achar que você está contestando o jeito que ela escolheu para pensar.
Então, só o tempo mesmo que te mostra que você estava equivocado, mergulhando em poço raso e não se deu conta.
Então existem alguns assuntos que hoje, política, sexualidade, religião, eu não entro mais na contramão.
Sua trajetória foi marcada por muitos recomeços e pela quebra de preconceitos.
Em algum momento você precisou se dar uma segunda chance?
A gente tem que se dar a segunda chance o tempo todo, o tempo todo.
Seja por um projeto que você não pode fazer agora, tem que fazer depois.
Seja um amigo que deu uma trairagem agora e depois você encontra de novo na condição muito pior que ele tinha quando fez a trairagem com você.
Até relacionamentos também, gente que sabe que você deu o melhor de você e a pessoa blefou o tempo todo, mas parecia um jogo de pôquer do relacionamento, tanto blefe que tinha.
Então é você sobreviver a tudo isso, sabe? Você se dar a segunda chance para olhar com outros olhos.
Então, teve amigos meus que saíram da minha vida de uma maneira muito canalha, que eu encontrei logo ali adiante, de uma maneira muito caótica, muito precisada e muito, muito, muito aquém do que eu podia imaginar que eles fossem chegar.
Então, eu me dei a segunda chance de algumas pessoas em algumas situações da minha vida.
A personagem da peça parece ter resposta para tudo, até ser obrigada a encarar suas próprias dúvidas.
Você acha que aprender a conviver com as incertezas é um sinal de maturidade?
É a maior maturidade que a gente pode ter, é saber que a incerteza faz parte.
Eu costumo dizer que a gente hoje passa por um momento em que todo mundo fica se autoflagelando porque fica se autoprogramando: "Eu vou ter 30, tem que estar assim.
Nos 35, vou estar assim.
Com 40, tem que estar assim".
Aí você descobre com o tempo que a gente organiza e Deus ri.
Então, eu acho que o tempo todo a gente tem incerteza com a maior garantia.
Por isso que é importante ter humor.
Para aguentar passar pela dor de não ter conseguido, que é muito grande.
O grau de erro é muito grande.
A incidência do erro é muito maior.
Então, a gente vive na base do erro.
A gente tem que tentar acertar.
Por isso que o humor é importantíssimo.
Nnay People em cena do espetáculo 'Segunda Chance'
Divulgação
Você está no teatro, na televisão e no cinema ao mesmo tempo.
O que ainda desperta sua curiosidade artística depois de tantas décadas de carreira?
Ah, o teatro! O teatro sempre desperta curiosidade, sabe? Por exemplo, ontem eu fiz um espetáculo em Curitiba, às sete da noite, no Gairinha.
A cidade estava assim, povoada de atrações e tudo.
Quando eu vi aquelas pessoas que se arrumaram, saíram de casa, foram para o teatro me ver.
Gente que pegou estrada, que andou duzentos quilômetros para me assistir.
Isso me comove muito, sabe? Vi gente que saiu do interior de São Paulo, de Assis, e foi para Londrina me ver.
Saiu de cidade do interior, bem remota, e foi me assistir.
Queria me ver de pertinho.
Isso é mágico, o teatro faz isso, o teatro agrega.
Eu tenho o hábito de receber as pessoas depois do espetáculo, e fico tendo a constatação disso, desse carinho, desse vínculo, dessa conexão.
A fama costuma fazer com que o público conheça apenas uma versão do artista.
Qual é a maior diferença entre a Nany que todos veem e a Nany que existe quando as luzes se apagam?
Ah, eu acho que não tem nenhuma diferença nesse sentido.
É o seguinte, quando acaba o espetáculo, eu quero ir para casa curtir meus bichos, não é? Eu fiz, há muito tempo, uma entrevista com a Marília Gabriela, e ela perguntou: "um hobby?".
Eu falei: "ficar em casa".
Ela falou: "isso é hobby?" Eu falei: "tenho ficado tão pouco".
E tenho mesmo.
Então, eu acho que ficar em casa é isso.
As pessoas, realmente, acham que eu sou baladeira, que eu sou da pá virada, que eu sou do...
"Ai, qual que é a boa de hoje?" Não, sou caseira, sou muito caseira, amo ficar em casa.
E essa é a Nany pessoal, pouca gente imagina que eu seja.
Caseira, comedida, tranquila.
Por isso que eu cheguei aos 61 com a pele boa, animada, para até ter lobby de produção, que eu tenho também.
Tem que ter um tempo de descanso, né? Tem que ter.
Nnay People em cena do espetáculo 'Segunda Chance'
Divulgação
A peça deixa no ar questões sobre vida, morte e espiritualidade.
Esses temas ficaram mais presentes para você com o passar dos anos ou sempre fizeram parte da sua forma de enxergar o mundo?
A espiritualidade sempre fez parte da minha vida, da minha formação, acho que eu não perdi de mim mesma por isso.
A fé serve para isso, para você passar por situações que, aparentemente, aos olhos dos outros, você não vai conseguir passar.
Então acho que a fé, a espiritualidade sempre foi muito importante para mim, para o meu jeito de pensar, de agir, até de reagir às situações que a vida manda.
O tempo só fez eu ficar mais certa disso.
Você se tornou uma referência para muitas pessoas por viver sua verdade de forma muito aberta.
Esse papel inspira, mas também traz responsabilidades.
Como lida com essa expectativa do público?
A coisa que eu aprendi com o tempo é assim: se eu sei que a consciência que eu tenho, para muita gente eu sou inspiração, para outros eu sou transgressão.
Cada um vai me ler e me entender de acordo com os seus modus operandi.
Se vocês quiserem me ver como inspiração, ótimo, maravilhoso.
Como transgressão, melhor ainda.
Uma coisa que eu aprendi é não ficar refém disso.
Eu não fico lá: "não vou fazer isso, não vai ficar bem".
Não, uma coisa que eu mais ouvi quando fiz 60 anos é assim: "olha só, Nany, agora você não pode mais isso, que não fica bem".
Aí eu respondo com uma coisa que eu coloquei no espetáculo, foi: "meu amor, eu desafio o mundo desde que eu saí da barriga da minha mãe.
Você acha que agora, com 61 anos, você vai ser alguém que vai me dizer que isso pode ou não pode fazer?" Sou eu com a minha consciência e com o meu modus operandi de achar que é certo ou errado.
Pronto, é isso.
Claro que você sabe que a tua liberdade vai terminar onde começa o direito do outro.
Não vou sair fazendo a desnorteada de fazer coisas que eu sei que vão além da capacidade que nos é possível.
É a psicologia do "posso, mas não devo", ou "se devo, não preciso".
E é libertador não precisar nem provar.
Segunda Chance
De 3 a 24 de setembro de 2026
Teatro Fernando Torres - R.
Padre Estevão Pernet, 588 - Tatuapé, São Paulo
Quintas-feiras, às 20h
Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
Onde comprar: aqui.
Nnay People em cena do espetáculo 'Segunda Chance'
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