Revi algumas vezes a cena em que Dora descobre, pela imprensa, que o marido é um predador, um assediador.
Está num restaurante, cercada de gente, e a novela não lhe concede uma única linha para o desespero.
Mariana Ximenes resolve tudo com a mão que hesita sobre o copo, o queixo que trava, o gole que desce errado.
A voz sai contida, e é exatamente por sair contida que o corpo grita.
Não existe close que salve um ator nessa hora.
Ou ele sabe, ou não sabe.
Mariana sabe.
E sabe há muito tempo.
Em “Quem ama cuida”, a novela das nove, a personagem tinha tudo para ser colateral.
É a mulher de um dos vilões, a régua que a trama usa para medir o tamanho do estrago alheio, o papel que costuma render duas cenas fortes e um bom vestido.
Mariana está acostumada ao centro: foi mocinha e vilã em várias novelas e sabe o peso de carregar uma trama das nove nas costas.
Aceitar Dora era, em tese, aceitar a margem.
Só que, quando uma atriz é boa, não existe papel secundário.
Ela pega um texto e a mágica acontece sem barganha, sem birra, sem o mau humor de quem acha que merecia mais.
Desconfio de que isso tenha a ver com uma coisa que quase ninguém comenta: Mariana é público.
Está em vernissage, em estreia de teatro, em exposição, em concerto.
Não para posar no tapete vermelho ou para a foto, mas como espectadora.
Senta-se na plateia, fica até o fim, comenta depois, e tudo que é culturalmente relevante lhe interessa.
Quase 30 anos de carreira, e ela continua indo ver o trabalho dos outros com a curiosidade de quem ainda não sabe tudo.
Artista que é público acumula repertório.
Não é coincidência que ela tenha se tornado o que se tornou.
Com Mariana não existe tangente.
Não há missão que ela recuse, não há tarefa em que não seja excelente — inclusive quando o trabalho é uma bucha, o que, definitivamente, não é o caso aqui.
Sua Dora dá à novela uma camada adulta.
É a mulher que descobre, já madura, que a vida inteira que construiu era uma ficção e que agora precisa decidir se recomeça ou se administra os escombros.
Não é fácil sustentar isso sem cair na autocomiseração, que é a armadilha à espreita de toda personagem traída.
Mariana não chega nem perto.
A Dora dela tem humor, tem vaidade, tem crueldade quando é preciso.
Os autores Walcyr Carrasco e Claudia Souto lhe deram matéria de sobra, e a diretora Amora Mautner sabe onde colocar a câmera.
Mas o que faz de Dora o assunto do dia seguinte é uma decisão de atriz.
Os soluços na confrontação com o ex-marido (Ademir, vivido pelo grande Dan Stulbach) não são choro de novela, são construídos na base de engasgos feios e involuntários, de um autovelório.
E há o olhar represado.
Dora está apaixonada pelo sobrinho do marido e só agora se deu permissão para viver o romance mais aguardado da trama, que finalmente entrou em erupção.
É aí que Mariana faz o que pouquíssimos fazem: transforma silêncio em barulho.
Nas cenas com André (Henrique Barreira), mantém o rosto quieto e deixa vazar exatamente o suficiente.
Meio segundo a mais no olhar, uma respiração que trava antes da frase.
A gente entende tudo, e ela não disse nada.
Isso não se aprende em Instagram.
Conquista-se com estrada e com uma vigilância feroz sobre o próprio trabalho.
“Quem ama cuida” vai bem por vários motivos.
Um deles é o show diário dado por atrizes excepcionais.
Outro atende por Mariana Ximenes, aos 45 anos, num momento em que a maturidade lhe deu o que a juventude não podia antes dar: autoridade.
Ela está um deslumbre, e que sorte, a nossa, poder assistir a ela toda, a tudo isso.
Não existe papel secundário para uma boa atriz e Mariana Ximenes é a prova disso
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