Coordenador da pesquisa A Cara da Democracia, o cientista político Leonardo Avritzer avalia que os dados de tolerância nas relações pessoais apresentados pelo levantamento deste ano sinalizam que a polarização eleitoral, ainda intransigente, encontra pouca ressonância na vida social do brasileiro.
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O professor aposentado da UFMG e visitante do Iesp-Uerj afirma, ao analisar o cenário eleitoral, que a rejeição a Flávio Bolsonaro (PL) impressiona para alguém que está na primeira disputa presidencial.
Os desdobramentos das crises do filho de Jair Bolsonaro, diz, serão decisivos para determinar o placar da votação, e um desempenho positivo do presidente Lula (PT) no Sudeste pode até fazer a eleição terminar ainda no primeiro turno.
Mais da metade tolera totalmente uma relação com alguém de posição política oposta.
É um sinal de arrefecimento da polarização?
O dado me surpreendeu, mas teríamos que testar um pouco mais.
Temos muitas evidências externas da polarização, gente na rua se insultando.
Mas é um dado interessante porque permite dizer que talvez a polarização esteja num grupo muito menor, que não é majoritário na população.
Não sei se está havendo despolarização; do ponto de vista eleitoral, não está.
Mas é interessante que na vida social não esteja tão forte assim.
O percentual dos que não gostam de bolsonaristas é superior ao dos que rejeitam pessoas de direita, enquanto petistas e pessoas de esquerda têm a mesma rejeição.
O que isso diz?
A população brasileira historicamente é conservadora do ponto de vista moral e centrista do ponto de vista político.
O bolsonarismo mudou isso, tentou levar o conservadorismo moral para o campo da direita.
Mas, nos últimos anos, o bolsonarismo virou muito problemático para pessoas que são conservadoras moralmente, mas não necessariamente bolsonaristas, seja pela tentativa de golpe ou outros casos.
No campo da esquerda, existe muita convergência em torno da figura do presidente Lula.
O que explica Lula ter vantagem eleitoral maior que o saldo de aprovação ao governo?
Lula sempre foi mais popular que seus governos.
A novidade é que o Lula 3 tem poucas realizações, é mais de reconstrução.
Nesse sentido, a aprovação e a desaprovação são praticamente iguais.
A figura do Lula, no entanto, ainda se sobressai.
Além disso, a rejeição a Flávio Bolsonaro impressiona para quem está na primeira eleição presidencial.
Como avalia a manutenção da candidatura de Flávio Bolsonaro mesmo mais isolado e depois de vários baques?
Acho que Jair Bolsonaro quer dizer que os votos da direita brasileira são dele.
A direita brasileira tinha dificuldade eleitoral antes dele.
Agora, dá o recado de que não vai dar esses votos para a centro-direita; de que vão ficar em família.
Teremos de novo uma eleição vencida por margem pequena?
Lula tinha problemas há dois meses, mas um conjunto de ações tem aumentado a aprovação ao governo e a intenção de voto.
Mas o que existe, fundamentalmente, é uma piora na intenção de voto no Flávio, que pode ou não ter estancado.
Depende do que ainda aparecer em relação a Master, investigações no Rio etc.
É disso que vai depender o resultado, se será mais ou menos apertado.
Quando pensamos em clivagens do eleitorado, quais serão mais decisivas este ano?
Uma vitória de Lula no Rio, por exemplo, pode fazer a diferença para talvez não precisar de segundo turno.
Diria que a questão é menos saber quais setores, e mais o resultado eleitoral do Sudeste.
Como analisa a presença recorrente da política internacional no processo eleitoral deste ano, como vimos nas ações de Donald Trump e no caso Javier Milei?
É um fenômeno mundial.
A eleição da Hungria, há alguns meses, foi totalmente internacionalizada, com líderes europeus declarando apoios, o Putin tentando influenciar.
Tivemos também algo muito parecido na Bolívia, na Colômbia.
Existe uma tendência à internacionalização de eleições em boa parte dos países.
Devemos esperar uma eleição com muita intervenção — parte dela legal, outra até ilegal, via redes sociais.
Temos que ver como o TSE vai regular esse assunto.
