Vendedores ambulantes com produtos falsificados em Copacabana, no Rio Marcos Furtado/O Globo A convivência com o mercado ilegal e a normalização do comércio irregular são nítidas nas ruas das principais metrópoles do país. Na cidade do Rio de Janeiro, uma caminhada por Copacabana, na zona sul, revela uma vasta oferta de produtos piratas e falsificações. Na rua Siqueira Campos, no espaço de apenas uma quadra entre a Barata Ribeiro e a Edmundo Lins, foram identificados pontos de venda a poucos metros um do outro, em plena calçada. É um trecho movimentado, ao lado de uma estação do metrô, de três supermercados e de várias lojas, lanchonetes, restaurantes e bares. Todos, até prova em contrário, seguindo as regras. Em uma banca com centenas de armações de óculos, um homem que se identificou como Ramiro, de 32 anos, disse faturar cerca de R$ 500 em um dia de boas vendas de modelos falsos das marcas Dolce&Gabbana, Prada, Dior e Ray-Ban. Sobre a procedência, foi evasivo: “Talvez sejam da China, do Vietnã ou aqui pertinho, do Paraguai, mas saber, eu não sei". Outro vendedor, que não quis se identificar, mantinha bolsas e carteiras femininas “de marca” no chão da calçada. Ele ficava afastado da mercadoria e só se aproximava quando alguém demonstrava interesse. Pesquisa da Fecomércio RJ mostra que 78,3% dos consumidores já compraram no mercado informal Mais adiante, Sérgio, de 45 anos, vendia guarda-chuvas, pilhas e tomadas, mas o carro-chefe eram as camisas oficiais da seleção brasileira, com estampas dos patrocinadores. Ele conta ter faturado muito durante a Copa do Mundo e que o volume caiu depois da eliminação do Brasil, mas “sempre vende, porque os turistas gostam muito”. No país, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) calcula que o varejo ilegal movimentou R$ 179,2 bilhões em 2025, o equivalente a 13,8% das vendas de quatro segmentos: combustíveis, vestuário, eletroeletrônicos e produtos farmacêuticos e cosméticos. Em 2010, o percentual era de 7,5%. A maior parte (R$ 100 bilhões) do faturamento do mercado ilegal vem de combustíveis e lubrificantes. Segundo a CNC, esse valor corresponde a 18% de tudo o que o setor vende. Óculos falsificados rendem até R$ 500 por dia, segundo o vendedor Marcos Furtado/O Globo Para o economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, a maior proporção do setor é explicada pela dificuldade do consumidor saber o que, de fato, está comprando. “É muito difícil, quando você vai abastecer o seu carro, ser garantido que aquele combustível não tenha procedência ilegal. Não é uma questão nem de campanha educativa, é uma questão de fiscalização”, diz Bentes. Como a economia subterrânea não aparece nas estatísticas oficiais, a CNC estima quanto o varejo deveria ter vendido a partir do comportamento do mercado de trabalho, do crédito e dos preços, e compara com o que o IBGE aponta de faturamento. A diferença é atribuída ao comércio ilegal. “A economia subterrânea é o que a gente chama de uma variável latente, não observada. Você não consegue enxergar isso no dia a dia. Mas ela deixa rastros em outras variáveis econômicas”, explica o economista da CNC. Do outro lado do balcão, o cliente costuma saber de onde compra. Sondagem do Instituto Fecomércio RJ, com 1.012 consumidores da região metropolitana do Rio, feita em novembro de 2025, mostra que 78,3% dos que já compraram no mercado informal apontam o preço mais baixo como atrativo. Para 70,6%, os produtos são mais baratos porque não pagam impostos. Outros 21,3% atribuem o preço menor à origem ilegal da mercadoria, ligada à carga roubada. Segundo a Fecomércio RJ, o gasto anual com o mercado informal na região metropolitana foi estimado em R$ 4,5 bilhões. “A nossa pesquisa é no mercado informal, quando não se comprou dentro de uma loja. Não posso dizer se é um produto de origem ilegal ou se é um produto que só não tem nota fiscal. Ele pode ser fruto de roubo de carga, mas não posso dizer que é ou não”, afirma João Gomes, diretor-executivo de pesquisas e análises do Instituto Fecomércio RJ. Entre quem vende no mercado formal, a percepção é de piora. Outra sondagem do instituto, feita com empresários do Centro do Rio, mediu como os comerciantes enxergam o avanço da informalidade na região. “Quase 37% dos empresários disseram que perceberam aumento na informalidade. Em 2025, esse percentual tinha sido próximo de 32%”, afirma Gomes. Para 60,9% desses comerciantes, segundo o Instituto Fecomércio RJ, o problema está disseminado por toda a área central da cidade. No centro, a escala é outra. O Polo Saara reúne cerca de 1.200 estabelecimentos e recebe em torno de 100 mil pessoas em um dia comum. Esse número, de acordo com estimativas da associação, pode ficar cinco vezes maior em períodos de Natal e Carnaval. “A Saara compreende o universo apenas de lojas, não tem boxes. Não temos nenhum estabelecimento informal associado”, afirma André Haddad, presidente da Saara. Dono de uma loja de uniformes profissionais em frente ao camelódromo da Uruguaiana, ele conta que convive com o comércio ilegal ao lado. “O impacto é diário. Nós convivemos com os informais como vizinhos. Você tem ali os ambulantes legalizados pela prefeitura e tem os ilegais, que ocupam espaço público, de passagem dos pedestres.” Sandálias falsificadas já são fabricadas no Brasil, afirma ambulante Marcos Furtado/O Globo Ele descreve a poluição visual e sonora, os produtos sem procedência competindo com quem paga imposto e o consumidor obrigado a desviar para a rua. Para a associação, a saída passa por dar um lugar de trabalho a quem hoje trabalha na calçada. Depois de um incêndio destruir parte dos boxes do camelódromo, a prefeitura prometeu aos comerciantes, em janeiro de 2025, um novo centro comercial. O projeto do Novo Mercado Popular da Uruguaiana, lançado em março deste ano, foi orçado em R$ 74,2 milhões, com licitação já realizada e entrega prevista para o início de 2028. O presidente da Saara diz não ver movimento. “Até agora eu não vi execução de nada. Se realmente a prefeitura quer solucionar, não basta vir apenas com a ordem pública e tirar esses trabalhadores informais da rua. Você tem que dar condições para eles se instalarem”, diz Haddad. Questionada sobre o atual andamento da obra, a prefeitura não respondeu até a conclusão desta reportagem. Bem ao lado da Saara, o Mercado Popular da Uruguaiana é um dos principais polos de atuação da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). Comércios populares de Madureira, Nova Iguaçu, São Gonçalo e Petrópolis também encabeçam a lista. Apenas no primeiro semestre deste ano, a DRCPIM apreendeu 222.325 produtos irregulares. O número é 397% maior que as 44.778 apreensões feitas em 2024. Em relação ao ano passado, quando foram retirados de circulação 154.534 itens, o aumento foi de 44%. Em valores, no entanto, o ano passado lidera, com R$ 3,4 milhões. No primeiro semestre de 2026, foram R$ 2,1 milhões. Só neste ano, foram apreendidas 189 mil figurinhas falsificadas, item de baixo valor unitário que responde pela maior parte do volume do ano. Aparecem ainda mais de 9 mil capas de celular, 7.828 peças de vestuário, 2.860 óculos e mais de 2 mil dispositivos de cigarro eletrônico. Nos dois anos anteriores, quem liderava era o vestuário, com azeite e bebida alcoólica na sequência. Já a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) informa ter apreendido 31.322 itens na cidade neste ano, quase metade (48,95%) deles em Copacabana. Na sequência, aparecem Ipanema (9,55%) e o Centro (3,35%). A maioria das apreensões é de alimentos perecíveis (33,1%), seguidos por bebidas e roupas. Vale frisar que o trabalho da Seop é de ordenamento urbano, o que não representa necessariamente repressão à falsificação. Em julho, o município lançou o Programa Tolerância Zero na orla do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, e informa ter investido R$ 7,5 milhões na renovação das 1.500 barracas legalizadas. No recorte nacional, a Receita Federal apreendeu R$ 4,19 bilhões em mercadorias em 2025, o que representa um aumento de 11,4% sobre os R$ 3,76 bilhões de 2024. O próprio órgão classifica a alta como "ligeira e em valores nominais", ou seja, sem desconto da inflação. No Rio, o crescimento foi de 72,2%, partindo de R$ 181,8 milhões para R$ 313,1 milhões no mesmo período. “Existe uma estrutura de logística que vem conectando cada vez mais camadas, se consolidando e crescendo para fazer com que produtos que entram ilegalmente no país possam ser vendidos em diferentes locais, sob a gerência de uma mesma organização”, diz Leonardo Silva, coordenador de Estado e Crime Organizado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na ponta dessa cadeia, o vendedor percebe a mudança sem saber explicá-la. Em um espaço entre prédios de Copacabana, o porta-malas de um carro escorava uma grade de falsas sandálias da marca Havaianas. Ao ser questionado sobre a procedência, o comerciante Antônio, de 56 anos, arriscou na resposta: “Antes vinha tudo lá de fora, acho que da Ásia, mas agora já tem gente fazendo aqui dentro mesmo”.
Notícias
Nas ruas, produto pirata faz parte do cenário
Fonte da notícia:
Valor
Valor
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site Valor