Nasce um bairro: moradores contam como tem sido desbravar a Zona Portuária do Rio - QTU Questões do Universo

Nasce um bairro: moradores contam como tem sido desbravar a Zona Portuária do Rio

Fonte: Bandeira da fonte

Há dois anos, os primeiros moradores chegavam ao Porto Maravilha — região à beira da Baía de Guanabara que passou por um longo processo de renovação urbana.
Era o início da reocupação de uma área esquecida por décadas.
O edifício Praia Formosa, um dos três que compõem o Condomínio Rio Wonder, no Santo Cristo, começou a ter suas chaves entregues em julho de 2024.
O empreendimento é um dos 30 residenciais licenciados pela prefeitura naquele trecho da cidade nos últimos cinco anos, que, juntos, têm 12 mil unidades habitacionais.
Dessas, 3.385 já foram entregues, segundo o município.
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Quando todos os projetos estiverem concluídos, a estimativa é que o Porto receba entre 20 mil e 30 mil novos habitantes, dobrando a população do lugar.
Os pioneiros encontraram um bairro que foi transformado a partir da derrubada do Elevado da Perimetral, em uma tentativa de integrar a cidade ainda mais à baía.
Surgiram ali novos túneis, o Boulevard Olímpico e os museus do Amanhã e de Arte do Rio, além do AquaRio e, mais recentemente, a roda-gigante Yup Star.
Após a ideia inicial de atrair empresas, que não vingou, o foco mudou para as moradias, dentro da proposta da prefeitura de levar de volta a vida para o Centro, esvaziado após a pandemia.
Como todo começo, essa chegada tem sido um desafio para os primeiros moradores.
Uma parte deles vem de longe e optou por morar perto do trabalho, numa região que conta com uma boa infraestrutura de transportes públicos.
O vizinho Terminal Intermodal Gentileza garante acesso a 26 serviços de ônibus municipais e sete do corredor Transbrasil do BRT, além da integração com o VLT, que corta a região.
A Rodoviária do Rio também fica ao lado.
Mas quem gosta de um pão quentinho de manhã se ressente de não ter mais padarias por perto.
Também faltam bancos, escolas, salões de beleza, academias.
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Um único supermercado, que já existia muito antes da chegada dos novos moradores, tem se mostrado insuficiente para atender à demanda.
Um minimercado aberto há dois anos, de olho na nova clientela, também ficou pequeno para tanta gente.
O pouco comércio existente no local não está dando conta.
A maioria dos estabelecimentos está concentrada nos cerca de 300 metros da Rua Santo Cristo, entre a praça do bairro e a Rua Pedro Alves.
O trecho tem farmácia, pet shop, salão de beleza, papelaria, restaurantes e botequins, além de lojas de material de construção e oficinas mecânicas, estas em maior quantidade.
Há, ainda, um posto de combustíveis, uma garagem de ônibus e uma escola particular.
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A Escola Municipal Benjamim Constant, na Praça Marechal Hermes, é a mais próxima.
As outras unidades ficam na Praça Mauá, na Saúde, na Gamboa e no Santo Cristo e já atendiam aos antigos moradores.
O mesmo ocorre com dois postos de saúde, na Gamboa e no Santo Cristo.
Nenhum novo equipamento foi construído.
Márcio Leitão leva pães aos condomínios: Anderson Gomes é freguês
Márcia Foletto/Agência O Globo
A falta de opções faz com que a vida em condomínio seja característica forte nesse momento de ocupação da região.
Alguns serviços ainda são improvisados, como a feirinha interna do Rio Wonder, onde uma vez por semana é possível comprar verduras, frutas e legumes trazidos da Ceasa.
O padeiro Márcio Leitão aproveita a fragilidade de oferta para circular entre os prédios em uma moto com um cesto vendendo pães.
— Sem padaria perto, acaba sendo a solução — diz, enquanto serve o morador Anderson Urbano.
Professora está feliz com opções de lazer, mas traz trancista de longe
A professora Marcilene Castro Costa, a Nena, de 65 anos, morava em um apartamento amplo em São Cristóvão, na companhia do marido Gregório Souza Costa, o Greg, de 68.
Depois que o casal de filhos cresceu, adquiriu vida própria e foi morar fora do Rio — nos estados de São Paulo e de Santa Catarina —, o imóvel ficou grande demais para os dois, que passaram a buscar um espaço mais compacto para viver, que, ao mesmo tempo, tivesse boa infraestrutura de lazer, com piscina e outras opções.
Outro desejo dos dois era morar em um andar alto.
Encontraram tudo isso no quarto e sala para onde se mudaram em março do ano passado, no edifício Mauá, do condomínio Rio Wonder.
Nena chegou ao endereço no dia do seu aniversário.
Antes, passou um ano se desapegando dos pertences que enchiam o antigo apartamento.
Marcilene Costa é atendida pela trancista Valeska, que vem da Baixada: sala no condomínio
Marcelo Theobald/Agência O Globo
Aposentada da rede privada, ela trabalha hoje com educação infantil em uma escola municipal de Duque de Caxias.
Para se deslocar até a Baixada, pega o ônibus num ponto perto da Rodoviária do Rio, a poucos minutos de caminhada.
A vizinha Fábrica Bhering está entre seus passeios favoritos, que incluem ainda visitas aos museus do Amanhã, de Arte do Rio e da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab), além do samba no Bar do Omar, no Morro do Pinto.
Mas, para fazer o cabelo, ela precisa recorrer à trancista Valeska Pinheiro, de 31 anos, que sai da Baixada especialmente para atendê-la no Espaço Mulher, onde as moradoras do condomínio recebem os profissionais de beleza, na falta de um salão nas redondezas.
— Além da mão de obra, pago o carro de aplicativo dela, ida e volta.
No meu caso compensa, porque prefiro recorrer a uma profissional que conheço e de confiança.
Mas encarece o serviço — diz Nena.
Mineiro escolhe região como seu porto seguro no Rio
Nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, Pedro Henrique Almeida, de 28 anos, conheceu a Zona Portuária do Rio pelo Google Maps.
Quando passou em um concurso público e soube que trabalharia na cidade, em uma repartição na Rua do Acre, começou a procurar moradia pela internet.
Ao se deparar com a imagem da região e seus prédios em construção, buscou ajuda de sites de locação para garantir um apartamento no bairro, para onde se mudou em janeiro do ano passado.
— Quando cheguei só tinha as bancadas e a privada.
Os móveis, comprei num shopping — disse.
A namorada Daniela, de 30, que logo virou esposa, veio depois.
O casal jovem e sem filhos se divide entre a Zona Sul — para as atividades de lazer, como frequentar bares e praias — e a Tijuca, onde faz as compras do dia a dia.
O Porto ainda é pouco explorado pelo servidor público, que só neste fim de semana pretendia conhecer o Bar do Omar, no Morro do Pinto, onde acontecem animadas rodas de de samba de quinta a domingo — o lugar é um sucesso, mas o barulho já começa a incomodar os novos moradores da região.
Daniela, adepta do turismo de museus, aproveita mais as opções da vizinhança.
— A gente curte as opções de lazer, mas meus programas ainda são meio de turista — contou o rapaz, que na região já frequenta a Pedra do Sal e o Beco das Sardinhas.
Sobre o lugar que escolheu para morar, ele avalia que a infraestrutura está em expansão, mas que ainda há muito a evoluir na oferta de serviços.
Para fazer compras, por exemplo, precisa se deslocar até supermercados em outros bairros.
Almeida não descarta se mudar para a Zona Sul, mas, no momento, considera o bom custo-benefício de pagar um aluguel de R$ 2,4 mil num apartamento de primeira locação perto do trabalho.
O incômodo de viver em um condomínio em construção
A professora Carol Silva, de 41 anos, é uma das primeiras moradoras do residencial Porto Carioca, na Rua Geógrafo Milton Santos.
Ela chegou ao novo endereço em março com o marido Júlio e os filhos Nina e Akin, de 6 e 9 anos, respectivamente.
A família veio de Bangu.
O empreendimento tem 1.472 unidades, das quais 548 já foram entregues.
A construtora Emccamp prevê a chegada de uma nova leva de moradores até julho do ano que vem, quando ficam prontos outros 368 apartamentos.
Com isso, a família enfrenta o desconforto de conviver com o som de serras e marteladas.
Por conta do barulho feito pelos operários, não é raro a moradora ter que trocar o home office pelo escritório da empresa em alguns dias da semana.
Viver num canteiro de obras impacta até na rotina das crianças.
— Ainda estão faltando a área kids, o play, o salão de festas e, principalmente, a piscina, que a gente já consegue ver (da janela do apartamento).
É horrível, porque as crianças estão de férias, e isso acaba com o nosso esquema — ela desabafa.
Espaço para trabalhar
Na última semana, foi inaugurado um espaço de coworking que Carol pretende usar nos dias de trabalho à distância, assim como um pub, com direito a área de jogos para adultos, como mesa de sinuca, cuja gestão ainda não foi definida.
A construtora informou que é responsável por três dos cinco módulos.
Um ainda não tem previsão de entrega.
Os demais são de investidores parceiros.
Falta de escola mais perto para os filhos
A rotina do casal Pedro Henrique Brandão, de 42 anos, e Kelly Cozini, de 43, que se mudou em setembro passado para um apartamento no 16º andar do edifício Formosa, no Condomínio Rio Wonder, inclui levar os gêmeos João Pedro e Maria Luiz, de 2 anos e meio, ao maternal de uma escola no Maracanã.
Falta opção perto de casa.
Para o lazer, as crianças contam com brinquedos na área interna dos prédios.
Fora, há um parquinho na praça vizinha.
Além disso, a família aproveita bem a infraestrutura de lazer da região, com passeios dominicais pelo Boulevard Olímpico, visitas aos museus e à roda-gigante.
Brandão, que é técnico de administração e trabalha na Candelária, também não tem queixas sobre transporte público.
A principal opção é o VLT, que passa na porta de casa, mas a região conta também com linhas de ônibus e a proximidade com o Terminal Gentileza, que faz integração com o BRT, e a Rodoviária do Rio.
— A localização geográfica é ótima.
Estamos a 15 minutos da praia (de carro) e a um quilômetro da Quinta da Boa Vista.
Temos uma ampla oferta de opções de lazer — elogia Brandão.
Dependência do carro
Os problemas começam quando surge a necessidade de recorrer a alguns serviços que ainda não chegaram à região.
Para fazer as compras de mês, por exemplo, o casal busca supermercados na Praça da Bandeira e em outros bairros próximos.
— A gente acaba dependendo de carro para coisas rotineiras, como comprar um brinquedo, uma roupa ou ir ao supermercado — cita o ex-morador do Estácio, do Méier e de Copacabana, antes acostumado a uma grande oferta de serviços.
Kelly diz sentir falta de coisas corriqueiras, como se sentar numa boa padaria para tomar café e bater papo sem pressa.
Também queria ter por perto uma farmácia — até um simples frasco de soro fisiológico precisa ser pedido por aplicativo.
Ela sonha ainda com uma academia mais equipada, já que a do condomínio não dá vazão para atender a todos os moradores e a outra opção fica um pouco mais distante, perto do AquaRio.
— Tenho esperança em uma transformação do lugar.
A entrega dos empreendimentos vai gerar demanda, mas ainda está meio lento — afirma a contadora, que trabalha em home office.
Isso não significa que o casal esteja arrependido da opção pelo local que escolheu para viver e criar os filhos.
Pelo contrário.
Ao optar pela Zona Portuária, onde se conheceram, eles buscavam um lugar que fosse perto de tudo que gostavam — praia, museus e parques públicos — e cujo preço coubesse no orçamento da família.
— Foi uma realização e ao mesmo tempo uma aposta.
A gente está feliz vendo o bairro crescer com a chegada dos moradores — aprova Brandão.
Condomínio com mercadinho e rooftop
Diferentemente de outros novos moradores da região, o designer gráfico Marcelo Benevides, de 30 anos, já tem à sua disposição toda a infraestrutura proporcionada pelo Rio Energy, onde mora desde o fim do ano passado.
Além de rooftop, atendido por uma miniloja de conveniência, o condomínio dispõe de academia, piscina, salão de festas e mercadinho no segundo andar.
De sua janela, no 21º piso, ele contempla o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e o relógio da Central do Brasil.
O designer gráfico Marcelo Benevides: varanda é a opção nos intervalos do trabalho
Márcia Foletto/Agência O Globo
— Acho a minha vista muito bonita.
A gente fica lá fora (na varanda) às vezes.
Trabalho de casa e fico no computador direto.
Então, às vezes, isso sufoca.
Aí paro, faço um café e sento ali para variar a rotina — conta o morador, que corre risco de ter a vista para o Corcovado comprometida por um novo prédio que está subindo na vizinhança.
Benevides vive no imóvel com o marido, o psicólogo Rodrigo Gouvea.
O casal deu entrada no apartamento há cerca de três anos.
Na época, os dois moravam no Centro.
Foi a oportunidade de terem um cantinho próprio e formar família: eles pretendem adotar uma criança.
‘É só pegar o vlt’
Quando namorados, os dois, oriundos da Baixada Fluminense, mudaram-se para a capital em 2016 e instalaram-se próximos à Cinelândia, onde Gouvea atende.
Hoje, vivendo na Zona Portuária, eles nem pensam em ter carro, já que consideram a região bem servida de transporte público.
— Qualquer coisa, é só pegar o VLT — explica Benevides.
— Aqui ainda é uma região em desenvolvimento.
Tem facilidade de transporte.
Mas falta a estrutura que existe na outra parte do Centro, por exemplo, onde eu tinha muitas opções de restaurantes e de farmácias.
O designer admite que recorre com frequência à região de seu antigo endereço para resolver pendências do cotidiano, como cortar o cabelo e ir ao cinema ou ao teatro.
No Santo Cristo, no entanto, a distância para o supermercado é menor do que a percorrida para chegar à Rua do Riachuelo nos tempos em que morava na Cinelândia, o que vê como vantagem.
Mesmo assim, boa parte das compras é feita por aplicativo.