Nathalia Dill:

Nathalia Dill: 'Todo ator deveria ter noção de que a profissão tem instabilidade'

Fonte: Bandeira da fonte

No ar como a misteriosa Francesca na novela Quem Ama Cuida, a carioca Nathalia Dill vê seu trabalho reverberar nas redes sociais com teorias sobre a origem e os rumos da personagem.
Aos 40 anos e perto de completar duas décadas na TV, a atriz afirma que iniciou a trama sabendo que o papel traria diferentes possibilidades para a história.
"A ideia era trazer esse universo místico e de espiritualidade envolto em um mistério.
Procurei imprimir essa energia do mistério.
O grande desafio foi instigar esses questionamentos no público.
Ela está viva? Ela está morta? Quem é ela? De onde veio? Qual a ligação dela com os outros personagens? O que ela realmente quer? Qual a urgência dela? O que ela quer que o Otoniel entenda?", afirma Nathalia, que, até o momento, tem suas cenas concentradas com Tony Ramos, intérprete do Otoniel.

Depois de ser revelado que Francesca é a falecida mãe de Joel (Ricardo Teodoro), os capítulos da próxima semana vão revelar que ela foi funcionária da casa de Arthur Brandão (Antonio Fagundes) e desafeto de Diná (Rosi Campos).
Em tempos de imediatismo, Nathalia vê aspectos positivos em obras de longa duração.
"Acho tão bom trabalhar e construir aos poucos.
Nos dias de hoje, querem tudo muito rápido", afirma Nathalia, admitindo que foi uma criança noveleira e começou a apresentar o hábito para a filha, Eva, de 5 anos, da união com o músico Pedro Curvello.
Nathalia Dill
Maga Maju
Segundo a atriz, a menina ainda não acompanha as tramas em que atua -- Nathalia também está no ar com a reprise Avenida Brasil --, mas tem curtido ver A Nobreza do Amor, na faixa das 18h.
"Em casa, conseguimos ter controle do que ela assiste, então, ela ainda não vê minhas novelas.
Gostamos do hábito de um capítulo de cada vez.
Não tem essa de um capítulo atrás do outro", afirma Nathalia, contando o desejo de remontar a peça As Aventuras de Tom Sawyer, uma adaptação do livro do norte-americano Mark Twain, para que a filha possa vê-la nos palcos.
Ao refletir sobre a sociedade em que a filha cresce, Nathalia fala sobre as mudanças e acredita no poder do diálogo.
"Hoje em dia, falamos mais sobre machismo, etarismo, capacitismo… Quando a gente passa a nomear essas questões, há mais debate.
A sociedade está evoluindo, e eu também."
Quem: A Francesca tem dado o que falar em Quem Ama Cuida, afinal é uma personagem cercada de mistérios.
Como tem sido o retorno para você?
Nathalia Dill: Estou muito feliz, achando muito interessante e legal.
O diálogo com o público é a síntese da obra aberta.
Em poucas vezes, senti esse diálogo tão forte.
Talvez, o outro trabalho que eu tenha sentido um retorno assim foi Liberdade Liberdade.
Ao longo da trama, a minha personagem foi ganhando uma comicidade, uns bordões, as pessoas foram repetindo, imitando… O autor foi criando mais e mais.
Existem tramas em que a história está mais pré-definida, mas adoro a experiência em que as possibilidades estão abertas.
É uma experiência muito legal.
Tenho recebido mensagens de texto e de vídeo com as pessoas perguntando sobre a Francesca.
Outro dia, cheguei para gravar, e fiquei surpresa porque a equipe toda estava me perguntando do que ia rolar.
Nathalia Dill
Maga Maju
Quando você foi convidada para a novela, você teve um norte de como ela seria?
Eu tinha um guia.
Existiam várias ideias e me contaram uma delas, mas eu sabia que era uma personagem com várias possibilidades.
A princípio, a ideia era trazer esse universo místico e de espiritualidade envolto em um mistério.
Ela está viva? Ela está morta? Procurei imprimir essa energia do mistério.
O grande desafio foi instigar esses questionamentos no público.
Quem é ela? De onde veio? Qual a ligação dela com os personagens? O que ela realmente quer? Qual a urgência dela? O que ela quer que o Otoniel entenda? Para mim, é curioso pensar na história pregressa dela.
Acho tão bom trabalhar e construir aos poucos.
Nos dias de hoje, querem tudo muito rápido.
É bom ficar longe do imediatismo.
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Muitas das suas cenas são com o Tony Ramos e esta é a primeira vez que vocês trabalham juntos.
Como tem sido contracenar com ele?
Ele é um ícone e uma referência para a nossa geração.
A história dele caminha com a história da televisão.
O Tony entende a linguagem como ninguém e transita entre o audiovisual e o teatro.
Ele tem muito domínio do ofício.
Ao mesmo tempo, é uma pessoa muito gentil, muito acolhedor e respeita a todos.
É muito legal estar com ele porque é um cara que acolhe – não só a mim, mas a equipe inteira.
Ele acredita em um aspecto que eu também acredito: uma cena acontece a partir da energia e do acolhimento com o outro, em ter um clima agradável.
Quando a troca é gentil e amorosa, você tem uma cena melhor.
Ele é um cara inteiro, está 100% na cena.
Fora isso, ele tem uma técnica impressionante, domina cada palavra.
Cada vez que repete a cena, ele repete com ainda mais verdade.
Trabalhar com o Tony torna tudo mais fácil.
Ele consegue puxar qualquer um para dentro da cena.
Sua trajetória já é extensa e com várias protagonistas.
No início da sua carreira, você estabelecia degraus e metas?
Não, realmente não.
Não ficava projetando passo a passo.
Tive contato com a atuação e as artes desde nova, ainda na escola.
Por isso, sou tão a favor de uma educação de qualidade.
Era arteira.
Adorava as aulas de teatro.
Quando chegou a época de prestar vestibular, foi muito natural que eu fosse por esse caminho.
Prestei para Direção Teatral e passei na UFRJ.
A arte sempre foi muito pulsante na minha vida.
Pesquisava sobre grupos teatrais, inclusive de fora do país.
E, nesse processo, surgiu um teste para Malhação.
Antes disso, já tinha feito alguns trabalhos no cinema, como uma participação em Tropa de Elite, tinha vivido um fantasma no filme Feliz Natal, a primeira direção do Selton Mello.
Quando entrei para Malhação, o audiovisual ainda era uma linguagem nova para mim.
Não tinha a meta de trabalhar na TV.
Minha carreira era focada no teatro, tinha o desejo de ter minha companhia.

"Quando entrei para Malhação, o audiovisual ainda era uma linguagem nova para mim.
Não tinha a meta de trabalhar na TV.
Minha carreira era focada no teatro"
Nathalia Dill
Maga Maju
Você falou do poder da educação e sua família teve um papel significativo para isso.
Com a Eva, você também procura transmitir esses valores?
Meus pais são professores de universidades públicas.
Além de educadores, eles sempre quiseram nos criar para a vida.
Com a Eva, também busco essa base.
Por exemplo, ela é uma criança muito artística e menos ligada ao esporte.
Quis que ela também explorasse a fisicalidade e a matriculamos nas aulas de circo e na capoeira.
Buscamos atividades que sejam prazerosas para ela.
Eva tem apenas 5 anos.
Ela já entende que você trabalha no meio artístico ou você tenta dar uma blindada?
Em casa, conseguimos ter controle do que ela assiste, então, ela ainda não vê minhas novelas.
Eva já assiste A Nobreza do Amor, que é uma novela maravilhosa, passa na faixa das 18h e gostamos do hábito de um capítulo de cada vez.
Não tem essa de um capítulo atrás do outro.
Ela já consegue entender quem é legal, que age de um jeito que não é legal, sem falar em todas as referências.
A Nobreza do Amor tem uma linguagem muito boa.
E você também era uma criança noveleira?
Muito!
"Eva é uma criança muito artística.
Matriculamos em aulas de circo e na capoeira.
Buscamos atividades que sejam prazerosas.
Ela ainda não vê minhas novelas"
Nathalia Dill
Maga Maju
Embora a televisão tenha trazido uma grande projeção e já tenha feito mais de dez novelas, você não abandonou o teatro.

Comecei ali e gosto de estar nos palcos.
Nunca experimentei conciliar teatro com novela.
Afinal, a carga horária de trabalho é muito pesada quando a gente faz novela.
Por muito tempo, a dificuldade foi encontrar um espaço de tempo para o teatro.
Fiz 14 novelas em 14 anos.
Novelas chegam a durar 11 meses – entre o período no ar e a preparação – em uma escala 6 X 1.
Por isso, não pude fazer tanto teatro como eu gostaria, mas sempre tentei.
Nem sempre o projeto pode me esperar para começar a ensaiar, viajar, mas gosto de intercalar as dinâmicas entre as linguagens do palco e do audiovisual.
Uma enriquece a outra.

A escala de trabalho 6 X 1 tem sido mais discutida nos últimos tempos.
Você acha que a classe artística vai conseguir a mudança, a flexibilização das jornadas?
Estou na torcida.
Acho importante para todos os campos e setores.
É importante que exista mais tempo de lazer, de família.
E sua rotina familiar? Como mãe, você gosta de participar da rotina – levar para a escola, contar historinhas… Ou aceita que não dá para abraçar o mundo?
É uma gangorra, né? Tem períodos em que consigo participar de tudo, outros em que estarei com um outro ritmo por conta do trabalho.
Procuro ficar em paz com isso e aceitar essa dinâmica.
Há o ônus da instabilidade do mercado, mas tem a parte boa, que é a flexibilidade.
Adoro participar e estar no universo dela.
Meu marido também.
Gosto de conhecer as amigas da Eva, de conversar com os pais das amigas dela.
Quando estava no começo da minha carreira, fiz a peça As Aventuras de Tom Sawyer, que é uma adaptação teatral do livro do Mark Twain.
Eu amava atuar nessa peça, que ficou em cartaz entre 2005 e 2006, anos antes de Malhação.
Tenho vontade de retomar esse espetáculo pensando na Eva, para que ela possa me assistir.
"Fiz 14 novelas em 14 anos.
Novelas chegam a durar 11 meses, em uma escala 6 X 1.
Por isso, não pude fazer tanto teatro como eu gostaria"
Nathalia Dill
Maga Maju
Você falou das flutuações do mercado.
Essa falta de linearidade te faz pensar em algum plano B? Chegou a estabelecer cuidados financeiros para fases de escassez de oportunidades?
Acho que todo mundo se preocupa.
Todo ator deveria ter essa noção de que a profissão tem instabilidade.
Esse alerta me faz ter respeito pela profissão e pelo dia a dia.
Tenho a consciência de que não é uma profissão linear, mas é difícil.
É difícil para todos.
Não conheço uma pessoa que fale: “Estou feito na vida”.
Mas o deslumbre acontece neste meio, não?
Ah, sim.
Pode ser.
Mas eu mantenho meus pés no chão.
E como é seu tempo livre?
Adoro me reunir com amigas, encontrar com elas, conversar.
Não precisa ser um grande evento.
Pode ser uma saída para tomar um café.
Além delas, é claro, curto estar com a minha família.
Quando estou livre e a Eva está na escola, gosto de aproveitar esse tempo para estar com alguém.
"Todo ator deveria ter essa noção de que a profissão tem instabilidade"
Nathalia Dill
Maga Maju
A maioria dos seus amigos é da classe artística?
Meio a meio.
Tenho amigos dos tempos de escola.
Sempre morei no Rio de Janeiro, então conservo essas amizades bem antigas.
Quando você pensa no seu futuro, como gostaria de se ver?
Se você me encontrasse anos atrás, eu não conseguiria te dizer como estaria neste ano.
Hoje, quando penso no futuro, acabo imaginando como vai estar a minha filha.
Imagino que muita gente fale que você não aparenta ter 40.
Como é a sua relação com a idade?
A mulher começa a escutar isso muito cedo.
Ao fazer 30, já comecei a perceber reações, comentários… “Nossa, você não parece 30”.
E aí, eu me pergunto: é para parecer? Acho que os 30 foram mais impactantes.
Aos 40, eu já estava mais acostumada.
Hoje em dia, também tivemos uma mudança boa na sociedade.
Falamos mais sobre machismo, etarismo, capacitismo… Temos falado mais sobre esses temas.
Quando a gente nomeia essas questões, a sociedade passa a debater mais.
A sociedade está evoluindo, e eu também.

Algum personagem ou algum tempo de cena que você já fez e, ao olhar hoje, pensa: “isso não cabe mais”? Percebe que há uma consciência maior e melhor?
Com certeza.
Existiam piadas que a gente normalizava e, hoje, não cabem mais.
Buscamos uma sociedade mais plural e que nomeia mais as questões.
Há mais vozes.
Ainda bem.
"Existiam piadas que a gente normalizava e, hoje, não cabem mais"
Nathalia Dill
Maga Maju