No Agosto Lilás, Mariana Sena, a Elenice de

No Agosto Lilás, Mariana Sena, a Elenice de 'Quem ama cuida', conta o que mudou após ter revelado que foi vítima de relacionamento abusivo

Fonte: Bandeira da fonte

Mariana Sena sabe que o drama de alguns personagens não terminam quando a cena acaba.
Elenice, de “Quem ama cuida”, vem exigindo da atriz, de 31 anos, um mergulho especialmente profundo.
A melhor amiga da protagonista Adriana (Leticia Colin) vive uma relação com Tom (Allan Souza Lima) marcada por manipulação, dependência financeira, violência psicológica e que, agora, inclui agressões físicas.
Para o ensaio desta reportagem, Mariana posou com a cor símbolo do Agosto Lilás, campanha nacional de combate à violência contra a mulher, que, em 2026, coincide com os 20 anos da Lei Maria da Penha.
O tema não é distante da realidade da atriz.
Há um mês, ela abriu o coração ao EXTRA e revelou já ter sido vítima de um relacionamento abusivo e de violência patrimonial.
Mariana conta que, ao expor a própria vivência, temia a repercussão.
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— Fiquei com medo de expor porque sou reservada.
Mas não vi diferença no tratamento das pessoas comigo.
Tem lógica, é a realidade de muitas mulheres.
Topei fazer a personagem com temor, achando que talvez não fosse dar conta, mas entendendo que a responsabilidade da Elenice nessa trama era trazer essa discussão à tona.
Eu não poderia me isentar.
O Agosto Lilás faz todo sentido, até porque este ano a Lei Maria da Penha completa duas décadas.
É bizarro se dar conta de que, durante tantos anos com essa lei, as coisas ainda continuam como estão.
Imagina se não existisse!
Na telinha, a mulher de Tom já apareceu com o braço roxo.
Nos próximos capítulos, ela vai ter embates cada vez mais fortes com o marido.
Em cenas previstas para irem ao ar esta semana, o casal protagonizará uma briga feia, com direito a ameaças e empurrão.
Elenice enfrentará o mau-caráter pela primeira vez e acabará derrubada no chão.
— Com o passar da história, eu já esperava isso.
Quando a pessoa começa a ter um despertar, a violência física vem como a última alternativa do homem para tentar manter a mulher na relação.
A direção e os autores não quiseram de início mostrar os ataques físicos, mas agora a agressividade vai escalonando — diz ela, que completa: — O que mais me revolta é o Tom ser muito real.
Existem muitas Elenices espalhadas por aí, infelizmente.
Minha personagem não só sofre num relacionamento tóxico, como também é vítima de violência patrimonial, que é uma agressão muito sutil, mas muito comum.
Todas nós já vivemos ou conhecemos alguém que teve um marido ou namorado abusivo.
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Interpretar uma criatura submetida à tirania também cobra um preço físico e emocional:
— Nos primeiros dias, era mais difícil desligar.
Acabavam as cenas e eu ficava uma hora sozinha, em silêncio.
Às vezes eu chorava, porque o corpo não assimila que aquilo é falso.
Agora, eu e Allan já entramos no “mood” de entender.
Quando termina a gravação, a gente se abraça, brinca, dá uma risada, descontrai, respira, eu xingo...
A cena dá tanta raiva que dou uma extravasada!
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Para Mariana, perceber que uma geração mais jovem consegue identificar rapidamente o problema traz esperança.
— Outro dia, a Flávia Alessandra (a Fábia da novela) me contou que a filha dela de 16 anos, Olívia, assiste às cenas da Elenice e fala: “Nossa, que triste ver essa mulher presa nessa relação”.
Reparo que a as meninas mais novas são as que conseguem compreender mais rapidamente que aquilo está errado, que é difícil sair da situação...
Elas apoiam a Elenice.
Julgam mais o Tom — conclui Mariana que dia desses fez um desabafo em seu Instagram após ver comentários de mulheres escrevendo frases como “Queria ver se essa Elenice ia continuar defendendo esse marido depois de ele dar uma surra bem dada nela”, “Otária merece apanhar mais do Tom para aprender a parar de ser burra”, “Deixa essa Elenice apanhar, porque ela gosta”: — Há uma impaciência do público com a situação da Elenice.
As mulheres mais velhas não têm empatia por ela.
Mariana Sena, a Elenice de "Quem ama cuida", em ensaio para a CANAL EXTRA
Catarina Ribeiro
A revolta do público contra a vítima da ficção surgiu quando a personagem defendeu seu agressor das críticas da própria mãe, Rosa (Tatiana Tiburcio), e da amiga Adriana, de quem ela acaba se afastando: “Uma mulher suportar um relacionamento violento em prol da família, se sentir constrangida em se abrir com um amigo ou um parente ou se colocar em situação de isolamento porque não sabe pedir ajuda não pode indignar mais do que assistir ao homem a agredindo e a responsabilizando por isso”, denunciou Mariana num vídeo postado na rede social.
A atriz também deu muito o que falar na série “Jogada de risco” em que interpreta Cris, sócia de Maurício (Cauã Raymond) numa agência de jogadores de futebol.
Na trama, disponibilizada no Globoplay, ela é o oposto de Elenice.
Ambiciosa, bissexual, empoderada, forte...
Cris fez a temperatura da tela subir numa cena em que dá um beijão na boca de Alessia, vivida pela atriz Nabiyah Be, filha brasileira do músico jamaicano Jimmy Cliff.
— Ficou sexy, né? Repercutiu muito! A comunidade das sáficas ficou feliz! A maior dificuldade foi entender o futebol! Não assistia aos jogos nem na Copa do Mundo.
Para você ter noção, não sabia a diferença do cartão amarelo para o vermelho! (risos).

O ano de Mariana tem sido especial.
Além de novela e série, ela se prepara para estrear no cinema em “Antártida”, exibido no Festival de Gramado.
— O filme se passa numa base militar e científica no meio da Antártida.
A gente gravou exclusivamente em estúdio.
A história é bem densa, acontece um crime no meio desse isolamento — resume ela sobre seu terceiro grande trabalho de 2026.
Mariana Sena, a Elenice de "Quem ama cuida", em ensaio para a CANAL EXTRA
Catarina Ribeiro
Portanto, motivos para celebrar não faltam à atriz que, para se dedicar à atuação, deixou de lado a faculdade de Fonoaudiologia na USP:
— Era uma coisa de querer pegar o diploma da USP e dar para a minha mamãe para ela ficar muito feliz.
Mas tá tudo bem! Ela já entendeu (risos).
Se dona Samira aceitou sem traumas a falta do canudo da filha, Mariana precisou fazer “muita terapia” para aprender a dar limites à sua autocobrança por perfeição.
Ela decidiu parar de assistir aos próprios trabalhos para evitar a autocrítica.
— Eu assistia a tudo, me cobrava muito, chegava no set e era aquela atriz chata que pedia para repetir cena.
Parar de assistir me ajudou muito.
Tem uma coisa ou outra que ainda vejo por causa do Twitter ou collabs na internet.
Mas só.
Mariana Sena, a Elenice de "Quem ama cuida", em ensaio para a CANAL EXTRA
Catarina Ribeiro
A paulista também está se esforçando para equilibrar os pratinhos da vida profissional com a maternidade da filha Ayomi, de 2 anos, fruto do casamento com o também ator Elzio Vieira.
— Ao voltar a trabalhar após ser mãe, eu estava perdida.
A maternidade faz você esquecer um pouco as suas vontades.
Minha filha está crescendo e eu vou me enxergando mais como Mariana no mundo.
Aceitei ser a mãe que consigo.
Essa autocobrança, tenho desde pequena.
Meu pai falava: “Para você, nunca tá bom” — recorda a atriz, que planeja ter um segundo filho: — Amo criança.
Não gosto é da gestão da casa: limpeza, alimentação, essa rotina.
Penso em adotar, quero que minha filha tenha um irmão.
Tenho dois (Marcela, de 28, e Francisco, de 20) e eles são tudo para mim.
A maternidade também trouxe mudanças corporais, algumas delas bem-vindas.
— É muito raro eu me olhar e falar: “Caramba, sou bonita”.
Na infância e adolescência, fui a feinha da escola, sofri bullying, a autoestima nunca esteve muito presente — diz ela, que tem outra relação com o corpo hoje: — Sempre fui magrela e queria ter mais curvas.
Depois da maternidade, meu corpo mudou e gostei.
É o momento em que estou mais feliz.
Mariana Sena, a Elenice de "Quem ama cuida", em ensaio para a CANAL EXTRA
Catarina Ribeiro
Créditos
Texto Isabella Cardoso
Fotos: Catarina Ribeiro @catarinaribeir.o
Beleza Titto Vidal @tittovidal
Estilo jessica kelly @jessicakelly____