A redução de cerca de 180 milímetros no índice anual de chuvas ao longo dos últimos anos, com perda de até 7 metros cúbicos (m3) de madeira por hectare a cada 12 meses, é um dos desafios no foco da inovação da Suzano.
A ameaça é enfrentada com avanços genéticos, manejo de precisão, monitoramento e capacidade de antecipar decisões: com cerca de 25 mil clones e 133 bancos genéticos, genômica, fenotipagem, cruzamento acelerado em ambientes controlados (speed breeding), modelos ecofisiológicos e aprendizado de máquina (ML) ajudam a acelerar o desenvolvimento e a recomendar material genético e manejo mais adequado para cada combinação de clima, solo e relevo, em busca de produtividade e resiliência.
“O objetivo é ganhar de 7% a 13% na produtividade até 2034”, diz Carlos Aníbal, vice-presidente executivo para Novos Negócios na Europa, FuturaGene e Suprimentos da companhia – cada aumento de cerca de 3% vale perto de R$ 1 bilhão.
A meta é apoiada por iniciativas como gestão de risco de pragas em larga escala nos 1,7 milhão de hectares plantados para fins industriais, que identificou pontos de concentração (hotspots) e gatilhos climáticos favoráveis a surtos de cada uma, bem como inimigos naturais, criados para controle biológico.
O exemplo reflete o papel da inovação para ampliar competitividade, diferenciação e resultados, preparando o negócio para transformações que alteram a cadeia do setor.
“A inovação deixou de ser resposta defensiva.
Hoje é capacidade para manter relevância, antecipar necessidades e construir vantagens competitivas”, detalha Aníbal.
A empresa destina cerca de 1% de sua receita à inovação e busca equilibrar projetos estruturantes de longo prazo com iniciativas de retorno mais rápido – a redução de custos associados a inovações nos últimos três anos superou 30%.
Cerca de 60% do orçamento é destinado à área florestal, com inovações como a plataforma Manda Chuva, ecossistema interno de previsão de tempo e clima que integra modelos globais e regionais para traduzir cenários de médio e longo prazo em decisões operacionais, e Anomal-IA, que combina inteligência artificial (IA) e imagens de satélite para acompanhar toda a base, identificar irregularidades como incêndios ou geadas e estimar o volume de madeira já aos 12 meses.
Outros 20% a 25% dos investimentos são direcionados à frente fiber-to-fiber, para desenvolver aplicações de celulose e promover a substituição de fibras longas por fibras curtas de eucalipto.
Na frente de bens de consumo, um dos destaques é o papel higiênico Neve Toque de Ondas, primeiro papel-base texturizado produzido integralmente com fibra curta de eucalipto.
Na indústria, a prova de conceito de gêmeo digital aplicada a forno de cal reduziu em 15,8% o consumo de gás e em 56,6% o carbonato residual na cal, resultando em mais de 540 dias sem obstrução do queimador, antes registrada a cada 20 dias.
A inovação também se apoia em parcerias.
Exemplos recentes envolvem as startups EasyTelling, que analisa publicações e informações técnicas para apoiar pesquisas, e Marvin Blue, de inteligência geoespacial, além do Instituto Senai de Inovação.
“A velocidade das mudanças hoje exige mais das empresas em relação à inovação, com cultura disseminada para todos estarem aptos a capturar sinais fracos capazes de gerar oportunidades de negócios”, avalia o CEO da Irani, Odivan Cargnin.
A empresa se apoia em capacitação, com reforço de áreas como pesquisa e desenvolvimento (P&D) e fábricas de embalagem e papel, e inovação aberta, conectada a startups por meio do Irani Labs.
Cargnin, da Irani: cultura de inovação deve permear toda a empresa
LUAN RAMBO / DIVULGAÇÃO
Um dos destaques da estratégia em curso é a sensorização das fábricas para capturar dados dos equipamentos.
A iniciativa compõe o pacote de investimentos Gaia, com R$ 1,8 bilhão definidos em 2020 para expansão de capacidade e otimização de plantas.
O próximo ciclo de investimentos, Neos, prevê mais plantas de embalagem, bem como expansão da capacidade de conversão e uso de papel reciclado, com fortes características de inovação.
Outros resultados incluem desde desenvolvimento de papel com o cliente – como os saquinhos para coletar cápsulas do café Nespresso – até a mudança de layout da planta de reciclagem de plástico, promovida em 2023, que permitiu maior absorção do plástico retirado do equipamento que separa o plástico de aparas (desagregador).
Este ano, o contexto de inovação foi reforçado com capacitação de diretores e gerentes em IA – hoje o CEO é um dos usuários do Brain, gêmeo digital pessoal que apoia atividades relacionadas a planejamento estratégico.
“A IA também será aliada no desenvolvimento de papeis e embalagens”, adianta Cargnin.
Na CMPC, a criação de diretoria específica há quatro anos ampliou a equipe dedicada à área de 17 para uma centena de pessoas, entre funcionários e terceiros – uma delas fica na China, outras duas na Europa.
Um dos projetos que começa a gerar resultados este ano é a maior integração entre floresta e indústria, com informações sobre o tipo de madeira destinado à produção a partir do mapeamento do que será colhido ao longo do ano, o que ajuda a preparar a fábrica e alcançar maior precisão nas formulações.
“O planejamento de 2027 já é o terceiro”, conta a diretora de inovação, Bibiana Rubini.
A nova estratégia da CMPC também mirou ajuste em inovação aberta.
Depois de investimentos de venture capital (VC) em startups mais disruptivas, mirando novos negócios a partir da biomassa, agora o foco é o core business, com desafios propostos em áreas como predição e redução de falhas, de olho em soluções já prontas de outros mercados.
Os próximos passos incluem projetos como o desenvolvimento de uma “vacina” para plantas.
Na Smurfit Westrock, o centro de experiência da marca em São Paulo (SP), antes praticamente uma exposição de soluções, foi transformado em hub de inovação que inclui área de cocriação com clientes e parceiros, apoiado por laboratório com equipamentos para simular condições como queda de embalagem dentro de um caminhão.
“Com o novo espaço e metodologia design to market, o prazo para a entrega de um projeto completo caiu de três meses para 15 dias”, conta a diretora de inovação Rafaella Rufino.
Premiações internas destacam projetos como a substituição de embalagens de frutas de EPS por papelão ondulado – como é entregue desmontada, o número de caminhões envolvidos no transporte da embalagem caiu de 52 para três – e adaptação de máquina de um cliente para uso de energia solar.
Além disso, metodologias ágeis e padronização do processo de desenvolvimento ajudaram a aumentar em 30% as conversões das inovações em negócios, com cerca de 60% delas adquiridas pelo cliente após o processo de consultoria.
Já na Cenibra a inovação é um elemento transversal incorporado à estratégia de longo prazo.
Um programa de melhoria contínua e inovação seleciona anualmente uma centena de problemas a serem tratados pelas equipes, com finalistas selecionados para ir adiante.
Surgem daí soluções como uma maneira de descascar a parte de baixo de árvores queimadas para reaproveitamento da madeira para celulose, proposta por um trabalhador florestal.
Como os incêndios estão entre as grandes ameaças, a empresa mantém sistema com torres e câmeras com alcance de até 60 quilômetros para monitorar as florestas em tempo real.
Os destaques da inovação em 2025 incluem a ampliação da capacidade de experimentação, com casa de vegetação exclusiva para mudas da pesquisa florestal, e modernização de rotinas analíticas na pesquisa industrial.
A Cenibra também é pioneira na implementação de sistema de certificação de origem da celulose por georreferenciamento, o SAP Green Token, e firmou parceria com a Vale para a criação da Bionow, voltada a biocarbono de alta densidade a partir de biomassa certificada, alternativa ao carvão mineral e ao gás natural.
“Teoricamente, qualquer produto de base petróleo pode ser feito de celulose”, destaca o diretor-presidente da Cenibra, Júlio Ribeiro.
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