Mokyr: humanidade ainda não viu os benefícios da inteligência artificial
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Com base em uma visão relativamente otimista, que contrasta com os prognósticos catastrofistas a respeito do avanço da inteligência artificial (IA), o historiador econômico Joel Mokyr, ganhador do prêmio Nobel de Economia de 2025, considera que essa tecnologia ainda pode render muitos benefícios.
“A humanidade ainda não viu nada em termos de tecnologia, acredito que o melhor ainda está por vir”, disse durante conferência na Febraban Tech 2026, realizada no fim de agosto em São Paulo.
Mokyr é professor de economia e história da Northwestern University, nos Estados Unidos, e pesquisador sênior na Universidade de Tel Aviv, em Israel.
O perigo, observou Mokyr, está menos nas máquinas e mais na própria organização social: sem um entendimento adequado do que a IA pode oferecer em benefícios para as pessoas, o risco é esse progresso ser atravancado por questões meramente institucionais.
Citando uma ideia de Sigmund Freud, Mokyr ressaltou o risco de a incapacidade humana de gerir suas próprias estruturas sociais funcionar como um grande entrave no caminho de tecnologias como a IA.
Traçando uma linha do tempo do desenvolvimento de tecnologias disruptivas (mesmo nos séculos que precederam a era digital), Mokyr mostrou como essa evolução permitiu avanços essenciais para a ciência, por exemplo.
De acordo com o professor, a história mostra que a ciência e a tecnologia operam em uma dinâmica de retroalimentação mútua.
Ele explicou que cada avanço científico gera novas ferramentas tecnológicas que, por sua vez, expandem a capacidade de investigação.
Exemplos não faltam na história da ciência.
Evoluções técnico-científicas pavimentaram o caminho da revolução industrial, e a medicina evoluiu de maneira análoga.
Na análise de Mokyr, que ganhou o Nobel por estudos sobre como o progresso tecnológico permitiu um crescimento econômico sustentado, a IA torna exponencial a escala dessa engrenagem, funcionando como um catalisador.
Para ele, são três as principais frentes de avanço da ciência calcada em IA.
Na fusão nuclear e na ciência dos materiais, a tecnologia pode otimizar simulações complexas para produção de energia limpa.
No campo do rejuvenescimento celular, a IA acelera as pesquisas de longevidade e, na biologia molecular, potencializa a expansão das plataformas de RNA mensageiro para tratamento de doenças crônicas, com impacto comparável à descoberta dos antibióticos.
O professor divide em algumas categorias as ameaças ao avanço de tecnologias como a IA.
Em primeiro lugar ele cita o que chama de descompasso institucional.
Na avaliação dele, impactos disruptivos causam choques sistêmicos (nas relações de trabalho, por exemplo), o que requer das instituições uma capacidade de adaptação e resposta que muitas vezes elas não têm.
Nesse sentido, a governança e a regulação tradicionais podem não conseguir alcançar o ritmo da tecnologia disruptiva.
Outro problema está na fragmentação geopolítica.
Para Mokyr, a competição desmedida entre potências pode desencadear guerras frias ou conflitos declarados - como exemplo, ele mencionou a tensão global de 1962 com a crise dos mísseis de Cuba.
Um terceiro aspecto relevante, na visão do professor, é o recrudescimento do nacionalismo econômico, que normalmente vem acompanhado de xenofobia, cenário hoje facilmente visto mundo afora.
Mokyr destacou que o progresso científico historicamente depende de livre circulação de capitais financeiro e humano; isso significa que restrições à migração de talentos pode comprometer seriamente a inovação.
Por último vem o populismo político patrocinador de desinformação, que provoca erosão de confiança das pessoas nas instituições governamentais e acadêmicas.
Como consequência dessa dinâmica, ganham tração as narrativas negacionistas e ficam ameaçados os avanços científicos e o próprio desenvolvimento econômico sustentado de longo prazo, que no fim das contas é o que garante uma vida melhor para as pessoas.
E a inteligência artificial, por si só, não tem nada a ver com isso, concluiu Mokyr.
Nobel de Economia Joel Mokyr diz que ritmo da IA desafia regulação
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