Nos 50 anos de álbum de estreia, Ramones ganham homenagens de fãs célebres, como Billie Joe Armstrong, do Green Day, e tributo de João Gordo no Rock in Rio - QTU Questões do Universo

Nos 50 anos de álbum de estreia, Ramones ganham homenagens de fãs célebres, como Billie Joe Armstrong, do Green Day, e tributo de João Gordo no Rock in Rio

Fonte: Bandeira da fonte

Há 50 anos, em abril de 1976, o mundo conhecia “Blitzkrieg bop”, música de abertura do disco “Ramones”, estreia do quarteto punk nova-iorquino — e que se tornaria uma de suas canções mais conhecidas.
“Ninguém vai gostar de vocês, mas eu banco”, garantiu na época Hilly Kristal, dono do CBGB’s, casa de shows que se tornaria lendária por receber nomes como os próprios Ramones, os Talking Heads e o grupo para quem eles abriram em seu primeiro show, Angel and the Snake, que logo passaria a se chamar Blondie.
No ano seguinte, por aqui, os Ramones chamaram a atenção do jovem João Francisco Benedan, de 13 anos, que se iniciava no rock em São Paulo.
João Gordo, como passou a ser conhecido, conheceu a banda em uma coletânea, “A revista Pop apresenta o punk rock”, de 1977, uma espécie de aula magna do gênero no Brasil.
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— O disco tinha “Now I wanna sniff some glue” (“Agora eu quero cheirar um pouco de cola”), que me iniciou nos Ramones, e “Loudmouth” — conta João Gordo, que fará um tributo à banda nova-iorquina no Palco Supernova, no Rock in Rio, no dia 6 de setembro (que tem o DJ escocês Calvin Harris como atração principal).
— Eu e os meus amigos do Asteroides Trio vamos tocar o primeiro disco na íntegra em versão psychobilly.
Meio século depois de “Blitzkrieg bop”, com a quantidade de camisetas com o logotipo e os nomes Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy arredondados no meio, além da águia, que se vê pelo mundo, criou-se a falsa impressão de uma banda de grande sucesso no rock mundial.
Mas não foi bem assim.
João Gordo & Asteróides Trio, que farão tributo aos Ramones no Rock in Rio
Divulgação
Aquela primeira apresentação, em agosto de 1974, reuniu, segundo o cantor Joey Ramone contou em entrevistas, seis pessoas, “se o cachorro do barman for incluído”.
A banda ainda tocariia no CBGB’s cerca de 70 vezes, ajudando a fazer do lugar uma lenda.
A vida breve (apenas 22 anos de atividades, de 1974 a 1996) é uma alegoria dos Ramones: músicas rápidas (geralmente por volta dos dois minutos), shows curtos e pouco mais de duas décadas de carreira.
Quando encerraram suas atividades, os quatro, ainda quarentões, estavam no auge de seu sucesso — que, mesmo assim, era modesto: a banda nunca chegou ao tamanho de alguns de seus fãs, como The Offspring, Pearl Jam e Green Day, cujo cantor e líder, Billie Joe Armstrong, lidera uma banda estrelada que lembrará os 50 anos do disco de estreia em uma apresentação no cemitério Hollywood Forever (onde estão sepultados dois Ramones, o baixista Dee Dee e o guitarrista Johnny), em Los Angeles, no próximo domingo, dia 30.
O show, que será beneficente para a pesquisa pela cura do câncer, terá, além de Billie Joe, o baterista Travis Barker, do Blink-182, o guitarrista Tim Armstrong, do Rancid e o baixista CJ Ramone, integrante da banda em seus últimos anos, de 1989 a 1996.
— Eles sempre fizeram mais sucesso fora dos Estados Unidos, mais ou menos como nós: bandas underground em seus próprios países — diz João Gordo.
— Na Argentina, se quisessem, eles lotavam estádios por cinco noites seguidas.
Não sei se teve a ver com a sonoridade latina do nome.
Ideia de Paul McCartney
Joey Ramone, Johnny Ramone, Dee Dee Ramone, CJ Ramone...
mas os caras eram todos primos?
Nada disso.
A ideia de todos adotarem o sobrenome artístico veio de Paul McCartney, que, ainda na época dos Silver Beatles, usava o nome Paul Ramon.
No caso do cantor Joey Ramone, nem o primeiro nome era o certo: o astro que começou na bateria (e sofria da Síndrome de Marfan, o que lhe deu o físico esguio e 1,98 de altura) era oficialmente Jeffrey Hyman.
— Aquela filosofia dos três acordes e de quantas melodias e refrãos você consegue encaixar neles me pegou ainda moleque — diz Henrique Badke, cantor e guitarrista do duo punk Morcegula, que em 1997 fundou o trio ramônico Carbona (que se reúne eventualmente até hoje).
— Ouvi a banda pela primeira no Banks, pista de skate em Geribá, em Búzios.
O sol se pondo, e alguém botou “Rockaway Beach”, a música perfeita.
Vocalista do Green Day, Billie Joe Armstrong: fã célebre dos Ramones
Reprodução/Instagram
Mesmo cru, com poucos solos e outros penduricalhos, o som dos Ramones sempre foi radiofônico (sabendo disso, a banda compôs “We want the air waves”, ou “Queremos as ondas do rádio”, do disco “Pleasant dreams”, de 1981), com melodias e refrãos contagiantes, como em “Pet sematary” (uma das mais conhecidas, graças ao escritor Stephen King, que a encomendou para o filme “Cemitério maldito”, de 1989) e regravações como “Do you wanna dance?”, clássico de Johnny Rivers.
Ainda assim, a banda jamais chegou à primeira divisão da popularidade no rock.
Depois do fim, em 1996, seus fundadores pouco apareceram, e, em 2004, Joey, Dee Dee e Johnny já tinham morrido.
Hoje, além das homenagens, o baterista Marky Ramone e o baixista CJ Ramone ainda tocam músicas do repertório pelo mundo.
'Dura' da polícia em São Paulo
Entre os vários projetos de João Gordo (que acabaram de chegar de mais uma turnê pela Europa com os Ratos de Porão), como o Brutal Brega (isso mesmo, clássicos do brega em versões punks, que já evoluiu para MPB e samba) e um disco com as músicas dos Ratos em versão ska, esta uma parceria com o Asteroides Trio, surgida na pandemia.
— Eles fazem um rockabilly, ou punkabilly, com baixo de pau (o tradicional contrabaixo acústico), um negócio muito legal — diz o cantor.
— O Roberto Verta (programador do Palco Supernova) me pediu algo especial para o Rock in Rio, e tivemos essa ideia.
João Gordo tem história com os Ramones: os Ratos abriram três shows da banda americana em 1991, no Dama Xoc, em São Paulo, na ocasião em que uma briga de gangues acabou com um jovem morto a facadas na porta da casa (em 1992, no Canecão, no Rio, a história quase se repetiu, com bombas de gás lacrimogêneo, mas sem vítimas).
— No segundo dia, depois da morte, a casa estava cercada pela polícia —lembra ele.
— Eu cheguei no carro de uma amiga, por trás, e os Ramones todos estavam virados para um muro, levando uma geral! Como na capa do disco “Adiós, amigos” (o derradeiro, de 1995).
Ele foi socorrer os colegas e quase se deu mal.
— Fui falar com o tenente da Rota (tropa de elite da polícia de São Paulo) que eles eram músicos americanos, que não tinha problema, que os deixasse ir — conta.
— Aí ele me falou: “Ah, é? Então encosta ali você também!”.
E eu estava cheio de coisas nos bolsos...
Por sorte, um funcionário da casa surgiu e botou todo mundo para dentro antes que a coisa se complicasse.
E João Gordo ainda foi convidado para cantar “Commando” com os Ramones.
— Eles nunca chamavam ninguém, eu fui um dos poucos! — orgulha-se o cantor, hoje saudável a ponto de quase não justificar mais o apelido.
— O disco de estreia foi o terceiro que conheci, depois do “Rocket to Russia” e do “Leave home” (ambos de 1977).
Vendi os meus LPs do Kiss na Galeria do Rock e comecei a comprar punk rock.
Esses três primeiros discos são os melhores, depois a banda fica mais “popinha”.