O decreto de Getúlio Vargas que entregou Olga Prestes para Adolf Hitler, há 90 anos - QTU Questões do Universo

O decreto de Getúlio Vargas que entregou Olga Prestes para Adolf Hitler, há 90 anos

Fonte: Bandeira da fonte

Olga Benário Prestes foi presa em um imóvel no Cachambi, Zona Norte do Rio, junto ao marido, o líder comunista Luiz Carlos Prestes, em março de 1936, numa operação que mobilizou mais de 90 policiais.
Imediatamente, o governo Getúlio Vargas deixou clara a sua vontade de deportar a ativista alemã de família judia para o pais europeu, então governado pelo Partido Nazista.
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Adolf Hitler pregava o ódio contra judeus havia anos.
Em 1936, o III Reich ainda não tinha dado início ao extermínio daquele povo, mas a etnia já sofria dura perseguição na Alemanha.
Editadas no ano anterior, as Leis de Nuremberg haviam tirado diversos direitos das famílias judaicas.
Vargas sabia disso.
E de nada adiantou Olga afirmar que era esposa legítima de Prestes e estava grávida dele.
No dia 28 de agosto de 1936, há 90 anos, Getúlio assinou um decreto classificando Olga como um elemento "perigoso" para a ordem pública e a expulsou do Brasil, entregando a mulher de Prestes de bandeja para Hitler.
A decisão selou o destino da militante comunista, assassinada em uma câmara de gás no campo de concentração de Ravensbruck com outras centenas de mulheres.
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Olga Benário Prestes nasceu em Munique e entrou jovem para o movimento comunista na Alemanha durante um período conturbado do país que ficou conhecido como a República de Weimar.
Ela começou a namorar o também militante Otto Braun, e os dois se mudaram para Berlim, onde o casal organizou várias manifestações e foi preso acusado de traição à pátria, isso em 1928.
Páginas dos passaportes falsos de Olga e Luiz Carlos Prestes
Reprodução
Olga foi liberada, mas Otto seguiu encarcerado, então a ativista planejou e liderou um ataque à prisão de Moabit, conseguindo libertar o companheiro.
Os dois fugiram para a União Soviética, onde Olga se destacou na Seção Juvenil da Internacional Comunista.
A alemã recebeu treinamento militar, era muito inteligente e tinha disciplina.
Falava várias línguas e mostrava determinação pela causa comunista.
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Olga conheceu Luiz Carlos Prestes em 1931, quando ela se separou de Otto Braun e o brasileiro se mudou para Moscou a convite da Internacional Comunista.
Prestes era respeitado na capital soviética por causa da Coluna Prestes, o movimento de oposição à República Velha que circulou pelo interior do Brasil liderado por tenentes e capitães do Exército, nos anos 1920.
Depois de ser aceito no Partido Comunista do Brasil (PCB), o militante apelidado de Cavaleiro da Esperança voltou ao seu país com a missão de dirigir uma revolução armada com o auxilio da Olga, designada para garantir a segurança dele.
Os dois amantes se casaram na viagem ao Brasil, que levou meses e passou por vários países.
Eles entraram no país com documentos falsos.
Quando chegaram, em abril de 1935, O líder comunista foi declarado presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma organização antifascista que se opunha à Ação Integralista Brasileira (AIB).
Sempre na clandestinidade, Prestes e os aliados ainda estavam planejando a revolução quando, em novembro de 1935, militares de baixa patente tomaram um quartel no Rio Grande do Norte,
Imóvel no Cachambi onde Olga e Prestes foram presos em 1936
Reprodução
A ANL tentou expandir a revolta, mas o governo Vargas sufocou a mobilização, que ficou conhecida como a Intentona Comunista, e Prestes virou o homem mais procurado do país.
Ele e Olga passaram meses escondidos em diferentes endereços do Rio até que foram encontrados em um imóvel na Rua Honório, no Cachambi, no dia 5 de março de 1936.
Mais de 90 policiais foram mobilizados na operação e, quando um deles bateu na porta do casal, por volta das 7h30, armado com uma pistola Luger, de fabricação alemã, Prestes estava de pijama e nem resistiu à prisão.
Por que STF autorizou expulsão de Olga?
Desde o início, os jornais comunicavam a intenção de Vargas de expulsar a estrangeira, apesar de ela estar casada com um brasileiro e grávida dele ("se encontra em estado interessante há quatro meses", informou O GLOBO na época).
A defesa da mulher de Prestes levou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de habeas corpus, mas o tribunal alegou que esse direito havia sido suspenso por decreto do próprio governo Vargas, devido à Intentona Comunista.
A expulsão foi oficializada em decreto de 28 de agosto de 1936.
No documento, Vargas cita os nomes usados pela militante no Brasil e classifica a alemã como "elemento nocivo aos interesses do país e perigoso à ordem pública".
Deportada de navio em outubro, ela foi levada a uma prisão da Gestapo, onde, no dia 27 de novembro, deu à luz à menina Anita Leocádia Prestes.
A bebê foi entregue para a vó quando fez 14 meses.
Olga, então, foi enviada a um campo de concentração.
Anita Leocádia Prestes em 1938, aos 2 anos, e em 2018
Fotos de arquivo e Guito Moreto
A alemã foi assassinada com outras centenas de mulheres na câmara de gás, no dia 23 de abril de 1942.
Em 1945, quando foram revelados os horrores do Holocausto, O GLOBO publicou um trecho do depoimento de uma mulher que ficou presa com a Olga dizendo que "ela era a mais corajosa de todas nós em Ravensbrück.
Nunca perdeu a fé e por isso foi massacrada pelos carrascos de Hitler".
Em 1984, o jornalista Fernando Morais publicou o livro "Olga", até hoje a biografia mais conhecida da ativista no Brasil.
A obra ganhou enorme projeção depois que embasou o filme de mesmo nome, com direção de Jayme Monjardim e Camila Morgado no papel principal, lançado em 2004, quando foi visto por quase três mihões de pessoas em cinemas de todo o Brasil.

Leia última carta de Olga Benário antes da morte
Anita Prestes, a bebê nascida na Alemanha Nazista, se tornou professora emérita do Departamento de História da UFRJ.
Ela é autora de vários livros sobre seus pais.
A docente é presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes, que preserva a memória do líder comunista e exibe, em sua página na internet, a última carta escrita por Olga para a filha e o marido.
Um manifesto de amor e dignidade contra a barbárie.
"Queridos,
"Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade.
Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida.
E por isso me despeço de vocês agora.
É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos.
Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças – ah, não, elas foram cortadas.
Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado.
Antes de tudo, vou fazer-te forte.
Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo.
Sua avó, em princípio, não estará muito bem.
Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como teu pai e eu fazemos.
Todas as manhãs faremos ginástica… Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha carta de despedida.
E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte.
"Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-ei, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem.
E queria ver teu sorriso.
Quero-os a ambos, tanto, tanto.
E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado ambos.
Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei.
Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz t sentes por nossa filha?
"Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível.
É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas.
Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta.
De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas.
Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.
Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão por que se envergonhar de mim.
Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue.
"Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas… Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver.
Agora vou dormir para ser mais forte.
"Beijo-os pela última vez.
Olga Benário Prestes”.