O dia em que o "churrasqueiro do bar aqui de trás" carregou a tocha olímpica - QTU Questões do Universo

O dia em que o "churrasqueiro do bar aqui de trás" carregou a tocha olímpica

Fonte: Bandeira da fonte

Há dez anos, um segurança da Rio 2016 tentou entender por que um homem baixinho, rechonchudo e rigorosamente comum provocava mais alvoroço em Copacabana do que as celebridades que carregavam a tocha olímpica antes dele.
Agnaldo Rodrigues acabara de percorrer o bairro com o fogo oficial, na véspera da abertura dos Jogos, cercado por uma multidão que gritava seu nome.
O segurança perguntou quem ele era.
“Sou só o churrasqueiro do bar aqui de trás.”
Naquela mesa estão faltando eles: No miolo do Maracanã, em uma encruzilhada etílica, existe um lugar que me arrepia toda vez que visito
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A frase atravessou a década melhor do que boa parte das obras olímpicas.
E resume uma história que começou com a ambição moderada de alguns amigos numa mesa de bar: convencer o comitê a entregar a Agnaldo, churrasqueiro do Galeto Sat’s, a missão de acender a pira no Maracanã.
Eu estava entre os culpados.
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Marcelo Moutinho
A campanha Agnaldo Olímpico nasceu na fronteira entre homenagem e ironia.
Agnaldo dominava o fogo, resistia bravamente às madrugadas e alimentava atletas de modalidades não reconhecidas pelo COI.
Parecia mais qualificado do que muito candidato oficial.
Como o convite não veio, resolvemos fazer nossa própria cerimônia.
Surgiu assim o Tour Boêmio da Tocha, um revezamento alternativo por 12 bares de Copacabana.
A chama sairia do Bip Bip e seguiria de balcão em balcão até o Sat’s, onde Agnaldo acenderia a churrasqueira.
As tochas, compradas na Saara, eram daquelas usadas em festas e abastecidas com querosene.
O plano tinha a precisão logística de uma conversa que já ultrapassara o sétimo chope.
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No dia marcado, a cidade fez o resto.
O cortejo cresceu a cada parada, porque poucas modalidades mobilizam tanto o carioca quanto avistar uma aglomeração e aderir antes de perguntar o motivo.
Houve escolta da PM, imprensa estrangeira, gente nas janelas e centenas de vozes cantando “Agnaldo, guerreiro, do povo cachaceiro” para um churrasqueiro cuja torcida organizada cabia, horas antes, numa mesa.
A notícia pegou o garçom Agnaldo Rodrigues de surpresa, quando estava trabalhando no restaurante Galeto Sat's: ao ser comunicado do convite pelo Comitê Rio-2016, disse se tratar do momento mais importante de sua vida: — Nunca imaginei isso.
Nem no meu melhor sonho.
Só posso agradecer.
Será uma honra poder viver essa que é a maior festa do esporte.
Estou muito emocionado.
Marcelo Moutinho
A brincadeira constrangeu a realidade.
Dias depois, o comitê organizador convidou Agnaldo a conduzir a tocha verdadeira.
O olimpismo oficial, com protocolos, patrocinadores e credenciais, abriu espaço para um personagem inventado entre chopes e pães de alho.
A campanha ficou longe da pira do Maracanã e encontrou um triunfo mais carioca: enfiou Agnaldo nos Jogos pela lateral, como a cidade costuma entrar nas festas para as quais não recebeu convite.
Agnaldo pertencia à madrugada.
Ficava diante do fogo quando a noite já tinha gasto suas melhores desculpas e Copacabana ainda procurava galeto, coração de galinha e mais meia hora.
Tinha o tipo de fama que dispensa sobrenome.
Bastava dizer Agnaldo.
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Divulgação
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A vida, menos habilidosa com finais, seguiu depois da cerimônia e do fim da chama.
Agnaldo deixou o Sat’s meses depois, enfrentou problemas pelo caminho, passou por outras churrasqueiras e empregos.
A última notícia que tivemos era a de que trabalhava como segurança num Bob’s, a poucos metros de onde vivera seu momento mais épico.
O herói olímpico inventado pela noite voltou à escala comum do dia a dia.
Dez anos mais tarde, o legado dos Jogos ainda é discutido em arenas, transportes, dívidas e ruínas.
O Agnaldo Olímpico pertence a outra contabilidade.
Foi uma pequena vitória do Rio sobre a solenidade e a prova de que uma cidade também escolhe quem a representa.
Agnaldo saiu do Sat’s.
O Agnaldo Olímpico continua lá, diante da churrasqueira, cercado por um coro, enquanto alguém tenta descobrir quem era aquele homem.
O churrasqueiro do bar aqui de trás.
Naquela noite, isso bastava.