Imagine a cena: você abre um aplicativo de relacionamento, arrasta algumas fotos para a direita e, de repente, a tela pisca: match! Uma onda instantânea de dopamina invade o seu cérebro.
Segue-se o flerte empolgante, a troca de mensagens espirituosas e aquele primeiro encontro onde todo mundo veste sua melhor roupa, esconde os defeitos e performa sua melhor versão.
No começo, ninguém ronca, ninguém tem chulé e nem dívidas.
Ninguém está medicado e nem sustenta os pais.
É leve, é divertido e o compromisso é zero.
Se começar a dar trabalho, basta voltar para o aplicativo e arrastar o próximo candidato.
Agora, faça um exercício honesto: troque as fotos de perfil por páginas de pitch, os usuários por grandes corporações e o aplicativo por uma plataforma de inovação aberta.
Parabéns, você acabou de mapear o comportamento da maioria das empresas hoje.
Elas sofrem de um vício crônico pelo flerte institucional.
Tornaram-se dependentes químicos do "Efeito Tinder" na inovação.
O fetiche do primeiro encontro
Nas grandes empresas, o match corporativo tem nome e sobrenome: é o hackathon de fim de semana, o pitch day com luzes coloridas, o post com fotos sorridentes no LinkedIn lotado de hashtags vibrantes.
Ou até o fundo de investimento que não investe em nada faz algum tempo.
Essa etapa é maravilhosa.
Ela gera métricas de vaidade instantâneas para o bônus do diretor e faz a empresa parecer jovem, arrojada e "disruptiva".
É o equivalente corporativo a postar a foto de um jantar romântico no Instagram: todo mundo aplaude, mas ninguém sabe quem vai pagar a conta ou lavar os pratos depois.
O pitch é só o primeiro encontro.
A inovação real acontece no "casamento".
E é aí que o romance corporativo desmorona.
Não é apenas uma impressão empírica.
Os dados desenham um cenário de solteirões convictos.
O estudo Innovation Systems Need a Reboot, realizado pelo Boston Consulting Group (BCG) com mais de mil executivos seniores globalmente, revelou que a inovação é citada como prioridade máxima para 83% dos líderes.
Em setores como tecnologia e mídia, esse índice chega a 98% e 94%.
Além disso, 86% já estão flertando e experimentando a IA generativa (GenAI).
Contudo, o encanto quebra quando o assunto é o mundo real.
Menos da metade (48%) das companhias fez algum esforço prático para alinhar suas estratégias de negócios e inovação e, entre as poucas que tentaram, reles 12% relatam que esses esforços geraram impacto real.
Fora que o que estudo não fala é o que estamos vendo com frequência na realidade que, muitas dessas inovações, que dizem terem sido feitas, é para reduzir custo de força de trabalho somente.
No Brasil, o balde de água fria é ainda maior: apenas 50% dos executivos veem a inovação como prioridade central.
Para 70% dos líderes brasileiros entrevistados, o motivo de preferirem o flerte à estabilidade é claro: uma cultura profundamente avessa ao risco, seguida por estratégias confusas (45%) e falta de governança robusta (40%).
As corporações arrastam o dedo para a direita, dão o match, mas entram em pânico na hora de assinar os papéis da execução.
Ninguém quer investir com risco, todo mundo quer investir para mitigar o risco.
E inovação não existe sem risco.
O "ghosting" na hora de implementar
Casar com uma ideia inovadora, ou seja, implementá-la, é a parte sabidamente chata, burocrática, demorada e que exige suor.
Casar significa integrar um software moderno a um sistema legado jurássico que a empresa usa há décadas.
Significa convencer a equipe da linha de frente a mudar processos consolidados, treinar pessoas, alterar o compliance, brigar por orçamento no planejamento anual e, principalmente, persistir quando os primeiros testes derem errado.
E o que a liderança faz quando o projeto exige essa maturidade e consistência? Dá ghosting.
Surgem os sumiços corporativos, os e-mails não respondidos e os projetos que entram em um "limbo de aprovação" eterno.
Ao invés de encarar a DR necessária para ajustar o projeto à realidade da operação, a liderança simplesmente cansa do brinquedo novo e volta a olhar para a tela do mercado em busca do próximo match reluzente.
As corporações preferem colecionar começos a entregar finais.
Eu mesmo já vivi muitos lançamentos que me foram apresentados, que não tiveram seus relatórios de post mortem depois.
Por que somos viciados em flertar?
Esse comportamento não é por acaso, ele é incentivado pelo próprio ecossistema interno das companhias:
A cultura do bônus trimestral: implementar e consolidar uma inovação leva tempo para gerar receita real.
O flerte (o projeto piloto), por outro lado, gera barulho e relações públicas imediatas, garantindo a foto bonita no relatório de sustentabilidade ou inovação do ano vigente.
O pânico do "divórcio": nos aplicativos, se um encontro é ruim, você deleta o contato e segue em frente.
Na empresa, se um projeto é implementado em larga escala e falha após meses de investimento, as pessoas têm pânico de serem demitidas (o que justifica os 70% de aversão ao risco apontados pelo BCG).
Para evitar o risco do fracasso real, prefere-se manter a inovação em um estágio de "eterno projeto piloto".
Afinal, um piloto nunca morre, ele só é "estendido para novas análises".
Menos matches, mais rotina
Empresas inovadoras de verdade não são aquelas que dão mil matches com startups por ano ou que colecionam post-its coloridos nas paredes de vidro de um hub de inovação isolado da realidade.
Empresas inovadoras são aquelas que possuem a maturidade de escolher dois ou três projetos, casar com eles, construir uma rotina e ter a resiliência de fazê-los funcionar no chão de fábrica, no balcão de atendimento ou no aplicativo que o cliente final usa.
A inovação é vivida todo dia a toda hora, dentro da rotina.
Vira a maneira de fazer as coisas, não um momento com holofotes.
Se a área de inovação da sua empresa passa mais tempo estourando espumante para comemorar o início de novas parcerias do que limpando a graxa da operação para implementar os projetos antigos, ligue o sinal de alerta.
Parabéns: você não tem uma estratégia de inovação.
Você só tem um caríssimo aplicativo de namoro corporativo.
E acredite, mesmo que comece um flertezinho, é muito provável que a empresa tome um fora avassalador da inovação que gera impacto.
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