Antes de comandar uma caravana de 2,5 mil pessoas por milhares de quilômetros pelo interior do Brasil, Leonora Guedes conheceu o Sertões do outro lado da mesa.
Era 2002, tinha começado como estagiária na Secretaria de Turismo de Goiás e participou da operação para receber o rali em Goiânia.
Vinte e quatro anos depois, é ela quem está no topo da estrutura que coloca a competição na estrada.
CEO do Sertões desde janeiro de 2024, Leonora é a única mulher entre os oito sócios da companhia.
Formada em Turismo e com mestrado em Políticas Públicas, entrou definitivamente na empresa em 2018, tornou-se COO e sócia em 2021 e, três anos depois, assumiu o comando executivo.
Hoje, sua função passa muito além da competição que o público acompanha entre carros, motos e UTVs.
É preciso negociar com governos, prefeituras, proprietários de terras, planejar hospedagem, energia, água, atendimento médico, segurança, infraestrutura e prever como pequenas cidades receberão, de uma hora para outra, uma população flutuante de milhares de pessoas.
— É uma loucura — resume.
Na edição de 2026, são 248 competidores.
Mas o número ajuda pouco a dimensionar o evento que Leonora precisa administrar.
A Caravana Sertões reúne aproximadamente 2,5 mil pessoas.
Só a estrutura de staff tem cerca de 350 profissionais.
— Existe a competição, que é o maior rali das Américas, e tem um olhar muito atento para os competidores e para a prova em si.
Mas o que está em torno da competição é enorme.
Por trás de quase 300 competidores existem equipes enormes e, no final, você tem essa caravana de quase 2,5 mil pessoas — explicou ao GLOBO.
Leonora Guedes, CEO do Sertões
Divulgação
Para que ela possa se deslocar, é necessário encontrar em cada parada áreas de aproximadamente 60 mil a 70 mil metros quadrados, além de pontos de energia, água, atendimento médico e estrutura capaz de receber equipes e veículos.
É justamente aí que surge uma das contradições operacionais do Sertões.
Quanto mais isolada e selvagem é uma região, melhor tende a ser para o rali.
Quanto mais isolada, porém, mais difícil é abrigar tudo o que acompanha a prova.
— Quando você fala da nossa modalidade, quanto mais inóspito o local, melhor para fazer um rali de velocidade.
Mas, quando você fala em local inóspito, geralmente não tem estrutura.
A prova mesmo, 80%, 90%, está no que a gente chama de Brasil profundo.
Em alguns municípios, simplesmente não existem quartos suficientes.
Neste ano, há locais em que a competição termina uma etapa, mas parte da caravana dormirá na cidade seguinte por falta de hospedagem.
Antes da chegada, a organização chega ao ponto de alertar supermercados, restaurantes, padarias e postos de combustível.
Uma concentração repentina de milhares de pessoas pode esgotar produtos básicos.
Leonora conta que, mesmo em Goiânia, houve relato de um atacadista que ficou sem água depois da chegada das equipes.
— Todo mundo chegou e comprou fardos e fardos.
Então temos esse cuidado de avisar a padaria, avisar o posto para não acabar combustível.
Vai chegar uma cidade móvel de 2,5 mil pessoas que vai utilizar toda a cadeia produtiva do turismo.
Chega uma hora em que alguém precisa lavar roupa e vai usar a lavanderia da cidade.
350 dias pensando em nove
Nada disso começa na semana da largada.
Leonora e o diretor técnico Edgar Fabre iniciam a preparação da edição seguinte com mais de um ano de antecedência.
Assim que uma edição começa a chegar ao fim, equipes de produção, comercial e comunicação já passam a trabalhar sobre a próxima.
— É um planejamento de um ano para um evento de nove dias.
A gente passa 350 dias pensando na execução de um evento de nove dias.
Há situações que nenhum planejamento consegue controlar: incêndios, interdições inesperadas, condições climáticas ou algum impedimento surgido no percurso.
Todo o restante, afirma, precisa estar previamente calculado.
Hospitais são mapeados ao longo das especiais.
Geradores e abastecimento de água são dimensionados.
Estradas precisam ser interditadas.
Equipes de segurança e limpeza são contratadas também nas cidades por onde a caravana passa.
— Para aquilo que conseguimos prever, tudo vai estar planejado.
Não dá para ter uma surpresa.
Leonora já levou essa lógica a uma escala ainda maior.
Em 2022, na edição comemorativa de 30 anos, foram 14 etapas.
Ela participou das negociações com oito estados e 14 prefeituras.
— Às vezes eu me pergunto como a gente dá conta disso.
São muitas variáveis envolvidas.
O olhar para a prova tem que ser muito amplo e, ao mesmo tempo, muito detalhista.
Não apenas ‘levantar poeira’
Administrar o Sertões, para Leonora, também significa decidir o que acontece depois que a última equipe deixa uma cidade.
É um tema que aparece repetidamente em sua fala.
A executiva diz não querer que o rali simplesmente atravesse municípios, movimente hotéis e restaurantes e desapareça.
— A gente reforça muito que não quer só levantar poeira por onde passa.
O Instituto Sertões concentra projetos sociais e ambientais associados ao evento.
Há ações de saúde, educação, saneamento e educação financeira, além de iniciativas dentro das escolas.
Uma das maiores é a SAS Brasil, que acompanha o Sertões e leva atendimento médico especializado a municípios escolhidos a partir de indicadores e das demandas apresentadas pelas redes locais de saúde.
Segundo Leonora, em algumas cidades a iniciativa conseguiu zerar filas do SUS para determinadas especialidades.
Neste ano, uma das novidades é uma carreta destinada à realização de mamografias.
A expectativa da organização é alcançar até 10 mil atendimentos médicos.
— A nossa principal corrida não é a corrida de velocidade.
É a corrida pelo legado.
Ela conta a história de um projeto surgido justamente de uma ocorrência durante o rali.
Depois de quebrar o veículo e ficar esperando o resgate em uma região isolada, um competidor ficou sem água e pediu ajuda em uma casa próxima.
Ao perceber as condições da comunidade, voltou para sua empresa, do setor de saneamento, e pediu a criação de um filtro barato e simples de operar.
Desde então, comunidades vulneráveis mapeadas ao longo dos trajetos recebem os equipamentos.
— Ele não ficou apenas sentido com aquela situação.
Fez alguma coisa diferente.
Uma mulher no topo
Ser a única mulher entre os sócios acrescenta outra dimensão à trajetória de Leonora.
O automobilismo permanece majoritariamente masculino.
No Sertões de 2026, apenas 11 dos 248 competidores são mulheres, ou 4,4% do total.
Mas ela argumenta que a mudança precisa ser observada também fora do cockpit.
Durante mais de três décadas, conta, áreas como as equipes médica e de fotografia foram formadas exclusivamente por homens.
Nos últimos anos, mulheres começaram a ocupar essas estruturas.
O Sertões também apoia o FIA Girls on Track, que participa da competição pelo segundo ano seguido com uma equipe formada inteiramente por mulheres: da pilota e navegadora à chefia, engenharia e mecânica.
Leonora acredita que sua própria presença no comando pode ajudar a reduzir uma barreira que nem sempre é técnica.
— Não tenho a menor dúvida.
Acho que existe talvez um papel de acolhimento que eu tento passar.
Ela cita o caso da estreante Bárbara Neves.
Antes mesmo de a motociclista entrar no Rally Raid, Leonora diz que cobrava da equipe que houvesse espaço para ela quando estivesse preparada.
— Eu falava: “Vamos trazer a Bárbara para o Sertões”.
Quando chegou o momento, eles trouxeram.
O que tento fazer é dar protagonismo para elas.
Melhor do que eu ser inspiração é elas serem inspiração.
Para a CEO, a predominância masculina pode fazer uma mulher questionar se aquele espaço também lhe pertence.
— Tem o receio de ser julgada, de ser aceita, de ser bem recebida.
E o que queremos mostrar é: sim, você é bem-vinda.
Pode vir.
Tem espaço para você onde quiser.
Pilotando, navegando, como engenheira, como chefe de equipe.
O próximo desafio
Mesmo depois de mais de duas décadas acompanhando o evento, Leonora ainda identifica problemas antigos que quer resolver.
Um deles é aparentemente básico: mostrar a competição.
Diferentemente de esportes disputados em estádio, arena ou praia, o Rally Raid percorre centenas de quilômetros por dia.
O espectador não consegue simplesmente sentar e assistir à prova.
Em 2026, a aposta é uma cobertura com mais de 60 horas de transmissão, mais de 20 pontos de câmera e cerca de 30 câmeras embarcadas.
A intenção é permitir acompanhar ultrapassagens, disputas e os principais pilotos durante as especiais.
— O Sertões é uma prova maravilhosa, mas só via aquela emoção quem estava pilotando, participando ou a comunidade daquela cidadezinha por onde a prova passou.
Ela considera a transmissão uma transformação que pode extrapolar o próprio evento brasileiro.
— É uma dor de todos, não é só minha.
É do Dakar, do Rally de Portugal, do Marrocos.
Somos um evento esportivo, mas, mais do que isso, somos uma plataforma de conteúdo.
Do estágio em uma secretaria estadual à cadeira de CEO, Leonora passou de uma das pessoas que recebiam o Sertões para aquela que precisa imaginar para onde ele irá depois.
E mal há tempo para comemorar a largada.
Enquanto os competidores começam a percorrer os 4.020 quilômetros da edição deste ano, parte de sua cabeça já está na próxima.
— A hora que virar este aqui, meu time já começa a pensar na edição do ano que vem.
O nome por trás do Sertões: Leonora Guedes comanda uma ‘cidade’ de 2,5 mil pessoas pelos 4 mil quilômetros de prova
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