Subir dois lances de escada sem perder o fôlego, acompanhar uma conversa em um restaurante barulhento, manter a concentração no fim de um dia de trabalho.
Aprender uma nova habilidade, carregar as compras, tomar decisões.
Raramente pensamos nessas ações como indicadores de saúde.
Enquanto tudo funciona, elas parecem simplesmente fazer parte do cotidiano.
Mas essa percepção começa a mudar.
Em vez de olhar apenas para doenças e fatores de risco, a medicina amplia o foco para as capacidades físicas e mentais que permitem preservar a autonomia e participar da vida cotidiana.
A nova perspectiva já aparece nas pesquisas.
Um estudo publicado no Journals of Gerontology mostrou que avaliar em conjunto capacidades como locomoção, cognição, saúde psicológica, sentidos e vitalidade ajuda a prever a perda futura de funcionalidade, mesmo quando são considerados fatores como idade e número de doenças crônicas.
Ou seja, ter ou não uma doença não conta toda a história sobre a saúde de uma pessoa.
— Qualidade de vida tem muito a ver com a manutenção das funções.
Não basta olhar apenas para os anos ou para os diagnósticos, mas para como a pessoa consegue viver — explica a geriatra e gerontóloga Andrea Prates.
Esse cuidado começa antes de qualquer limitação aparecer.
Uma pessoa pode se sentir saudável e, ainda assim, perder condicionamento ou força muscular.
— Quanto mais cedo a gente começar a investir nessas capacidades, maiores serão os ganhos ao longo da vida — diz a especialista.
O mesmo raciocínio vale para capacidades menos visíveis.
Aprender, estudar e experimentar tarefas diferentes contribui para a chamada reserva cognitiva, que ajuda o cérebro a lidar com as mudanças que o tempo traz e a encontrar caminhos alternativos diante delas.
A audição também entra nessa conta.
A perda auditiva na meia-idade está entre os fatores modificáveis associados ao risco de demência.
Ouvir pior pode favorecer o isolamento e reduzir a interação com outras pessoas.
Preservar essas funções está diretamente ligado à autonomia.
E ela não depende apenas da capacidade física.
Compreender situações, fazer escolhas e tomar decisões permite continuar no comando da própria vida mesmo quando alguma limitação aparece.
Outras mudanças são mais fáceis de perceber no cotidiano.
A força vai muito além da aparência ou do desempenho esportivo.
Os músculos sustentam movimentos básicos, como sentar, levantar e caminhar.
Por isso, exercícios de força ganham importância ao lado das atividades aeróbicas.
Rotina como aliada
Preservar essas capacidades passa ainda por hábitos conhecidos: alimentação diversificada, sono adequado e cuidado com a saúde mental.
Em uma rotina cada vez mais dominada pelas telas, Andrea recomenda pausas ao longo do dia e atividades como leitura, trabalhos manuais, hobbies e contato com a natureza.
O sono merece atenção especial por participar de processos de restauração do organismo e de consolidação das memórias.
Deixar o smartphone longe da cama e reduzir seu uso à noite são medidas simples que podem contribuir para uma noite mais bem dormida.
As relações também precisam ser cultivadas.
Manter vínculos, conviver e construir uma rede de apoio faz parte de uma rotina funcional tanto quanto preservar força ou cognição.
— A gente não precisa dedicar nosso tempo inteiro a se cuidar.
É preciso viver.
Os amigos e a família fazem parte disso — afirma a médica.
A proposta é olhar para a saúde de maneira mais ampla, e não apenas quando um problema aparece.
Para Andrea, essas capacidades merecem o mesmo tipo de atenção que hoje se dá a exames e diagnósticos.
— A gente precisa pensar no que pode fazer hoje.
As coisas mudam totalmente de perspectiva quando entendemos que teremos muitas décadas pela frente — afirma.
A régua da saúde passa a considerar não só doenças, sintomas ou limitações, mas também aquilo que conseguimos fazer.
Preservar capacidades como trabalhar, aprender, criar, escolher, encontrar pessoas e cuidar de si é uma maneira de continuar vivendo bem no presente.
E de manter abertas, para o futuro, as possibilidades de uma vida ativa e autônoma.
O que vale a pena cultivar
Algumas dimensões do cotidiano ajudam a sustentar autonomia e qualidade de vida.
Fortaleça os músculos: inclua exercícios de força na rotina.
Estimule o cérebro: aprenda coisas novas e experimente atividades diferentes.
Cuide da audição: investigue mudanças na capacidade de ouvir.
Mantenha-se em movimento: caminhe e preserve sua independência nas tarefas cotidianas.
Cuide da saúde emocional: reserve tempo para hobbies, interesses e atividades prazerosas.
Cultive os vínculos: encontre pessoas, mantenha amizades e construa uma rede de apoio.
Priorize o sono: reduza o uso de telas à noite e crie condições para descansar bem.
Andrea Prates, geriatra e gerontóloga
Arquivo pessoal
Qualidade de vida tem muito a ver com a manutenção das funções.
Não basta olhar apenas para os anos ou para os diagnósticos, mas para como a pessoa consegue viver
O novo objetivo da saúde: cuidar das capacidades
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