Depois de três meses registrando saldo negativo no fluxo de capital estrangeiro, a Bolsa de São Paulo, a B3, voltou a fechar um mês com aporte positivo do investidor internacional.
O ingresso da classe terminou julho em R$ 2,1 bilhões no mês, enquanto, no ano, o investidor internacional já aportou R$ 36 bilhões.
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Para analistas, três são os fatores que podem elevar o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, até o fim do ano, com forte influência do investidor estrangeiro:
a diminuição de exposição a papéis de tecnologia no exterior após um período investimentos maciços nesses papéis a partir de abril;
o recuo do temor das consequências do conflito no Oriente Médio com sinais de entendimento;
e a perspectiva de que as ações brasileiras voltaram a ser “baratas”
Mas, de qualquer forma, o período eleitoral deve sacudir a Bolsa até dezembro, com a expectativa de altos e baixos, eles dizem.
A indefinição do cenário eleitoral também impacta na previsão dos juros futuros, decisivos para dar rumo à precificação das ações.
Ativos 'descontados'
Depois de uma forte realocação de portfólio em tecnologia, os investidores internacionais começam a se voltar novamente para empresas da economia real, como as ligadas a commodities, abundantes no Brasil.
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Isso porque os ativos voltaram a estar ”descontados”, avalia Daniel Gewher, estrategista-chefe do Itaú BBA.
Ou seja, as ações brasileiras voltam a ser vistas como baratas.
O movimento, avalia, é um atrativo para o retorno do ingresso do capital internacional:
— O valuation (valor de mercado) está positivo, em 8,3 vezes o lucro (o que indica que, em oito anos e quatro meses, o investidor teria, com lucros e dividendos, o retorno do investimento inicial).
A média brasileira é 10,5 vezes, 11 vezes — compara ele.
Do pico registrado em abril até hoje, o estrangeiro diminuiu sua exposição ao mercado acionário do Brasil em R$ 30 bilhões, promovendo esse “barateamento”.
— O mundo está negociando com prêmio pelo seu histórico.
O Brasil negocia a 18% de desconto, enquanto o restante do mundo negocia com 10% (de prêmio) — diz Gewehr.
— Alguns investidores internacionais reduziram exposição em inteligência artificial na Ásia e voltaram a adquirir Índia e Brasil, que tinham “ficado para trás”.
Estamos com uma reversão média.
Eleição é elemento complicador
Um dos elementos que comprovam a visão de que os ativos brasileiros estão baratos são as recompras de ações pelas próprias empresas, que se aceleraram nos últimos meses, saindo de R$ 1 bilhão em recompras em abril para R$ 3,2 bilhões em junho, aponta o estrategista do BBA.
Aumenta a atratividade a perspectiva de queda de juros ligeiramente maior do que a prevista durante o auge da guerra no Oriente Médio, para abaixo dos 14% ano ano.
Mas nem tudo são flores.
A aproximação do período eleitoral tende a deixar o mar mais revolto.
O banco americano JP Morgan, por exemplo, avalia que o momento deve ser de volatilidade, assim como os pleitos anteriores.
“Um aspecto que permanece constante é que o Brasil costuma apresentar desempenho inferior nos meses que antecedem as eleições, algo observado em todas as disputas presidenciais deste século.
Acreditamos que essa dinâmica continuará prevalecendo nos próximos meses, diante das incertezas e da crescente volatilidade”, escreveu Emy Shayo, da equipe de estratégia de América Latina e Brasil do banco de investimento americano.
Juro deve determinar o futuro
Não só o período eleitoral embute volatilidade, mas a falta de um direcionamento mais claro sobre a condução do juro tende a penalizar os ativos.
Na avaliação da equipe de Carlos Bautista, gestor de pesquisa para América Latina da Principal Asset Management, o rumo da Selic segue indefinido.
“O balanço de riscos no curto prazo ainda pode dar suporte a um ou dois cortes adicionais de juros.
No entanto, o espaço para a continuidade do ciclo de afrouxamento está se tornando cada vez mais limitado, já que, além da persistente desancoragem das expectativas de inflação, o estímulo fiscal e o mercado de trabalho aquecido continuam sustentando um crescimento econômico acima de seu potencial”, afirmaram os analistas em relatório.
Diante do alto nível de rejeição dos dois candidatos que lideram a corrida eleitoral no Brasil — o presidente Lula (PT), que busca a reeleição, e o senador Flavio Bolsonaro (PL) — a disputa será, na visão dos analistas da Principal, “potencialmente acirrada e volátil” até outubro.
Para o JP Morgan, ainda que a Selic possa cair aos 13,75% até dezembro, a expectativa de queda mais intensa dos juros “praticamente desapareceu” para este ano.
O fator era um dos “principais catalisadores para o mercado neste ano”, escreveram os analistas do banco americano.
Para Gewher, do BBA — casa que tem estimativa de 185 mil pontos para o Ibovespa no fim do ano, espaço de cerca de 4% de valorização —, o Ibovespa poderia alcançar os 250 mil pontos caso haja um ajuste fiscal crível por parte do vencedor do pleito.
Hoje, ele diz, o mercado “precifica um cenário não fiscalista”:
— Se o vencedor (da eleição) falar: “farei um ajuste”, as curvas (de juros) podem devolver isso, o que ajudaria o mercado de equities (ações).
Para uma revisão estrutural da avaliação das companhias, tem que juntar cenário fiscalista e tendência de revisão de lucro positiva.
Não temos isso no curto prazo.
O mercado está precificando um cenário não-fiscalista, pois estamos no momento de maior juro real da história — diz.
