O que o relato de Cauã Reymond revela sobre pessoas que parecem bem, mas enfrentam a depressão - QTU Questões do Universo

O que o relato de Cauã Reymond revela sobre pessoas que parecem bem, mas enfrentam a depressão

Fonte: Bandeira da fonte

Depois do sucesso de "Avenida Brasil", em 2012, Cauã Reymond viveu uma fase que, aos olhos de quem acompanhava sua carreira, parecia marcada por conquistas.
A novela havia ampliado sua projeção, novos projetos surgiam e a vida profissional seguia em alta.
Ainda assim, o ator revelou ter enfrentado um período de depressão, trazendo à tona uma discussão sobre uma experiência que nem sempre é percebida por quem está ao redor: a possibilidade de alguém continuar realizando suas atividades enquanto enfrenta um sofrimento emocional profundo.
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O tema se aproxima do conceito popularmente chamado de "depressão funcional" ou "depressão sorridente", expressão usada para descrever pessoas que conseguem manter compromissos, trabalhar e cumprir suas responsabilidades, mas convivem internamente com sentimentos como vazio, falta de prazer e dificuldade de encontrar sentido na própria rotina.
"A depressão funcional conhecida como depressão atípica ou até popularmente conhecida como depressão sorridente é o tipo de depressão na qual a pessoa ela trabalha, ela performa, ela consegue fazer as coisas da vida dela e de fora ninguém percebe que essa pessoa ela tá sem sentido na vida, parece que as coisas já não tem o mesmo prazer de antes, é uma dificuldade de encontrar cor na vida, então esses são os sintomas principais, então é uma pessoa que ela performa bem, ela trabalha, ela consegue fazer as coisas dela, porém ela não tem energia, ela não tem a sensação de felicidade, ela tem a perda de prazer nas coisas quais ela gostava, além disso podem ter alterações de foco, de atenção, de memória, de sono, pode haver também alterações.
Alteração de alimentar, ou seja, mais fome ou menos fome, são alguns sintomas.
Pode também ter alterações em relação à irritabilidade, tudo isso faz parte de um quadro de depressão atípica", explica a psiquiatra Jessica Martani.
A principal característica desse quadro, segundo especialistas, está justamente no contraste entre o que aparece externamente e o que acontece internamente.
A pessoa pode manter uma rotina aparentemente estável, entregar resultados no trabalho e participar da vida social, enquanto sente uma redução significativa de energia, motivação e prazer.
O caso de Cauã Reymond chama atenção para um tipo de sofrimento que nem sempre é percebido
Reprodução Instagram
Quando produtividade não significa bem-estar
A ideia de que alguém deprimido necessariamente deixa de funcionar no dia a dia ainda é uma percepção comum, mas nem sempre corresponde à realidade.
Em muitos casos, a capacidade de cumprir tarefas pode até dificultar que o sofrimento seja identificado, tanto pela própria pessoa quanto por familiares e amigos.
"O funcionamento externo não é suficiente para avaliar a saúde mental.
Em alguns casos, justamente porque a pessoa consegue manter a rotina, o sofrimento pode passar despercebido por muito tempo", afirma o psiquiatra Ciro Jorge.
Para o psiquiatra Rafael Fabri, observar apenas a agenda cheia ou a produtividade pode esconder sinais importantes.
Mais do que aquilo que alguém consegue fazer, é preciso olhar para como essa pessoa está vivendo essas experiências.
"O fato de uma pessoa acordar cedo, trabalhar, praticar exercícios e cumprir uma agenda cheia não significa que ela esteja bem.
Precisamos olhar para a qualidade dessa experiência.
Ela ainda sente prazer? Existe motivação genuína? Como estão o sono, a concentração, os relacionamentos e a percepção que ela tem de si mesma?", observa.
Um dos sinais que merece atenção é justamente a perda de interesse por atividades que antes faziam sentido.
A pessoa pode continuar encontrando amigos, trabalhando ou mantendo hobbies, mas perceber que essas experiências já não despertam a mesma satisfação.
Essa mudança, conhecida como anedonia, é um dos sintomas associados a quadros depressivos e vai além de uma falta momentânea de vontade.
É uma alteração na forma como a pessoa se conecta emocionalmente com aquilo que antes lhe trazia prazer.
Nem toda depressão é visível: o que o relato de Cauã Reymond ajuda a compreender
Divulgação TV Globo
Depressão também pode aparecer em momentos de conquista
O relato de Cauã também toca em uma questão que desafia uma ideia bastante difundida: a de que uma vida aparentemente bem-sucedida seria uma proteção contra problemas emocionais.
Reconhecimento profissional, estabilidade financeira ou realizações pessoais não impedem que alguém enfrente dificuldades relacionadas à saúde mental.
O sofrimento psicológico não depende apenas das circunstâncias externas.
"A saúde mental não obedece a uma lógica de gratidão.
Uma pessoa pode reconhecer que tem uma vida privilegiada, amar a família e gostar do próprio trabalho e, ainda assim, apresentar sintomas depressivos.
Ter motivos externos para estar feliz não impede que exista sofrimento interno", acrescenta a médica psiquiatra e pesquisadora Camilla Nicolucci.
Segundo ela, até mesmo acontecimentos positivos podem exigir adaptação emocional.
Mudanças importantes na vida, mesmo desejadas, podem trazer novas responsabilidades e cobranças.
"Mesmo acontecimentos positivos podem exigir uma reorganização interna.
Uma promoção, uma mudança na vida pessoal, o nascimento de um filho ou uma grande exposição profissional modificam a rotina e as responsabilidades.
Nem sempre conseguimos elaborar essas mudanças no mesmo ritmo em que elas acontecem", pontua.
Cauã Reymond revela depressão após o sucesso de 'Avenida Brasil'
Divulgação TV Globo
Os sinais que passam despercebidos
Embora a tristeza seja frequentemente associada à depressão, ela não é o único sinal possível.
Alterações no sono, na alimentação, na concentração, na memória, na energia e no humor também podem aparecer.
"A depressão funcional conhecida como depressão atípica ou até popularmente conhecida como depressão sorridente é o tipo de depressão na qual a pessoa ela trabalha, ela performa, ela consegue fazer as coisas da vida dela e de fora ninguém percebe que essa pessoa ela tá sem sentido na vida, parece que as coisas já não tem o mesmo prazer de antes, é uma dificuldade de encontrar cor na vida, então esses são os sintomas principais, então é uma pessoa que ela performa bem, ela trabalha, ela consegue fazer as coisas dela, porém ela não tem energia, ela não tem a sensação de felicidade, ela tem a perda de prazer nas coisas quais ela gostava, além disso podem ter alterações de foco, de atenção, de memória, de sono, pode haver também alterações.
Alteração de alimentar, ou seja, mais fome ou menos fome, são alguns sintomas.
Pode também ter alterações em relação à irritabilidade, tudo isso faz parte de um quadro de depressão atípica", reforça Jessica.
A atenção deve estar nas mudanças persistentes em relação ao comportamento habitual da pessoa.
Um período de cansaço ou desânimo não significa, necessariamente, um quadro depressivo, mas a combinação e a duração dos sintomas podem indicar a necessidade de buscar ajuda.
O peso de parecer sempre bem
Em uma sociedade que valoriza produtividade e desempenho, admitir que algo não vai bem pode ser ainda mais difícil.
Muitas pessoas seguem entregando resultados enquanto gastam uma grande quantidade de energia apenas para manter a rotina funcionando.
"O funcionamento não deve ser confundido com bem-estar.
Uma pessoa pode estar produzindo muito e vivendo pouco.
Pode cumprir todas as tarefas e, ao mesmo tempo, sentir que perdeu o sentido das coisas.
Por isso, precisamos olhar para além do desempenho", diz Rafael.
O acompanhamento profissional pode ajudar a entender o que está acontecendo e indicar os caminhos adequados para cada caso.
A psicoterapia pode fazer parte do tratamento e, quando necessário, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser indicado.
"Buscar ajuda não significa que a pessoa perdeu o controle da própria vida.
Muitas vezes, significa justamente reconhecer que existe um sofrimento que merece ser cuidado antes que ele se torne ainda mais intenso", conclui Camilla.