A saúde da boca pode ter efeitos que vão muito além dos dentes e das gengivas.
Pesquisadores investigam como bactérias relacionadas a doenças periodontais, e a resposta imunológica provocada por elas, podem contribuir para inflamações em outras partes do organismo e estar associadas a problemas cardíacos, diabetes, declínio cognitivo, artrite e doenças respiratórias e hepáticas.
O centro dos estudos é o microbioma oral, formado por centenas de espécies de bactérias, fungos e outros microrganismos.
A maioria integra um ecossistema saudável, mas alguns deles podem se multiplicar abaixo da linha da gengiva e provocar gengivite ou periodontite.
Em quadros graves, a inflamação danifica os tecidos e os ossos responsáveis pela sustentação dos dentes.
A placa bacteriana agrava esse processo ao formar uma espécie de película que ajuda os microrganismos a aderirem aos dentes e aumenta sua resistência à saliva, aos enxaguantes bucais e a algumas substâncias antimicrobianas.
Quando não é removida, a placa pode endurecer e se transformar em tártaro, alimentando uma inflamação crônica.
Em pessoas com periodontite, as gengivas inflamadas também podem perder parte de sua função de barreira.
Com isso, pequenas quantidades de bactérias ou de componentes bacterianos podem entrar repetidamente na corrente sanguínea durante atividades comuns, como mastigar, escovar os dentes ou usar fio dental.
Na maioria das vezes, o sistema imunológico elimina esses agentes rapidamente, mas pesquisadores avaliam se a exposição contínua pode aumentar a inflamação em outras regiões do corpo.
A doença periodontal atinge quase metade dos adultos com 30 anos ou mais, segundo o The Wall Street Journal.
Entre pessoas a partir dos 65 anos, a proporção se aproxima de 60%.
Uma revisão científica de 2023 apontou que a saúde bucal pode exercer papel importante na longevidade, enquanto pesquisas com idosos associam problemas como periodontite, cáries e perda de dentes a mais anos vividos com limitações.
Pesquisas em andamento
A relação entre a boca e o restante do organismo, no entanto, ainda é objeto de investigação.
Os estudos citados mostram associações e possíveis mecanismos biológicos, mas não significam que as doenças gengivais sejam, isoladamente, a causa de problemas como cardiopatias ou declínio cognitivo.
As descobertas estão estimulando o desenvolvimento de novos tratamentos.
A Amyndas Pharmaceuticals, nos EUA, testa um medicamento aplicado no tecido gengival para controlar a resposta inflamatória.
Em um ensaio inicial, a substância reduziu a inflamação durante vários meses.
Já a Denteric, com sede na Austrália, desenvolve uma vacina terapêutica para pacientes com doenças gengivais e recebeu autorização da FDA para iniciar a segunda fase de testes clínicos nos Estados Unidos.
Inteligência artificial, exames de saliva e sensores instalados na boca também poderão ajudar a identificar problemas mais cedo e personalizar tratamentos.
Os sensores poderiam acompanhar alterações no ambiente bucal e procurar indicadores de inflamação em tempo real, enquanto sistemas de IA já são estudados para analisar radiografias e outras imagens em busca de sinais de cáries, gengivite e periodontite.
O avanço das pesquisas pressiona médicos e dentistas a trabalharem de maneira mais integrada.
Hoje, as duas áreas ainda utilizam formações, seguros e prontuários distintos.
Especialistas defendem que o compartilhamento de informações permita, por exemplo, encaminhar pacientes com diabetes ou risco cardíaco para avaliações periodontais e, no caminho inverso, ajudar dentistas a identificar sinais de doenças não controladas.
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