Marcos Penido passou boa parte da vida olhando futebol de muito perto.
Em nove Copas do Mundo, em décadas de treinos, concentrações, vestiários, viagens e jogos, era justamente para isso que estava ali.
Houve uma noite, porém, em que não conseguiu olhar.
Nos minutos finais da decisão do Brasileiro de 1995, no Pacaembu, o Santos pressionava o Botafogo e Penido, setorista do clube e botafoguense desde muito antes de ser jornalista, virou de costas para o campo.
Não suportava mais assistir.
Quando voltou a olhar, o Botafogo era campeão brasileiro.
Penidão, como era chamado pelos amigos, acompanhou a festa no vestiário, voltou ao Rio com a delegação e viveu, agora muito mais como torcedor, uma das noites que havia esperado durante anos.
Depois, como fizera tantas outras vezes, foi escrever.
Marcos Parreiras Horta Penido morreu na madrugada desta sexta-feira, aos 74 anos, no Hospital Silvestre, no Cosme Velho.
Sofria havia alguns anos de insuficiência cardíaca, e seu quadro se agravara nos últimos dez dias, comprometendo também o funcionamento dos rins.
Deixa a mulher, Rita, e dois enteados.
Será enterrado neste sábado, no Cemitério São João Batista.
A carreira que termina agora caberia com facilidade naquela lista de experiências que jornalistas esportivos costumam sonhar em acumular.
Foram quase quatro décadas de profissão, oito Copas consecutivas por O GLOBO, de 1986 a 2014, além da primeira, ainda pelo Jornal do Brasil, na Espanha, em 1982.
Viu de perto Sarriá, o tetra nos Estados Unidos, o penta na Ásia e atravessou uma transformação completa na maneira de se cobrir futebol.
Ganhou dois prêmios Esso em trabalhos de equipe.
Mas reduzir Penidão à quantidade de Copas ou às grandes viagens deixaria escapar justamente aquilo que os colegas mais lembravam nele.
Era um homem avesso à ostentação, de uma humildade que sobrevivia ao tamanho do currículo e de um companheirismo que marcou gerações de repórteres que trabalharam a seu lado.
Formado inicialmente em História, começou no jornalismo como estagiário no fim dos anos 1970 e foi conquistado pela reportagem a ponto de voltar à faculdade.
Graduou-se em Jornalismo pela PUC-Rio em 1984, mesmo ano em que foi contratado por O GLOBO.
Ficaria no jornal por quase 32 anos, descontada uma breve passagem pela Folha de S.Paulo, percorrendo setores dos grandes clubes cariocas e algumas das principais coberturas esportivas do período.
Seu maior furo não aconteceu numa Copa nem numa final.
No fim de 1993, Penido recebeu a informação de que cerca de 70 árbitros haviam participado de uma reunião na Federação de Futebol do Rio em que receberam orientação para seguir uma espécie de “Regra 18”.
Oficialmente, o futebol tinha apenas 17.
A regra extra significava, segundo a denúncia, adequar decisões de arbitragem aos interesses políticos da federação.
Penido entrou nervoso na redação com a história, procurou outros árbitros, confirmou a informação e deu início a uma investigação que mobilizaria uma equipe de O GLOBO por meses.
A série revelou o esquema antes do Campeonato Carioca de 1994, provocou uma CPI na Assembleia Legislativa e recebeu o Prêmio Esso Especial de Informação Esportiva.
Era o tipo de reportagem que explicava melhor Penidão do que qualquer fotografia de uma tribuna de imprensa numa Copa: fonte, desconfiança, checagem e insistência.
O outro Esso viera ainda no Jornal do Brasil, em 1983, numa série conduzida por Oldemário Touguinhó.
Um ano antes, Penido havia feito sua primeira Copa.
De 1986 em diante, esteve em todas as edições do Mundial até o torneio de 2014, no Brasil.
Ao longo desse caminho, acompanhou também o futebol carioca num tempo em que ser setorista significava passar os dias dentro dos clubes, conversar sem intermediários com jogadores e dirigentes e conhecer as histórias que raramente chegavam às entrevistas coletivas.
Depois de deixar O GLOBO, continuou ligado ao jornalismo esportivo e presidiu a Associação de Cronistas Esportivos do Rio entre 2014 e 2017.
Era também uma maneira de permanecer perto dos colegas e de uma profissão à qual dedicara praticamente toda a vida adulta.
Talvez por isso a imagem de 1995 seja tão boa para guardá-lo.
Durante décadas, Penido acreditou que um jornalista precisava saber onde terminava o torcedor e começava o repórter.
Naquela noite no Pacaembu, por alguns minutos, Penidão não conseguiu.
Virou de costas, esperou e só tornou a olhar quando o Botafogo já era campeão.
Depois da festa, voltou ao trabalho.
Havia uma história para contar.
Obituário: Penidão, uma vida de reportagem
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