No restaurante Ponte de Ferro, a moçada escutava um pagodinho e sorvia geladas cervejas.
Para comer, peixes fritos com batatas fritas.
O domingão de sol em Magé não dava sossego — ao menos pra mim, que estava gravando o que sobrou da primeira estrada de ferro do país.
Enquanto alguns arriscavam uns passos de dança na areia fofa, eu andava rumo ao que sobrou do píer.
De longe, eles me olhavam.
De longe, eu observava aquela felicidade tão nossa.
Para chegar às ruínas do que foi um dia uma ponte de escoamento do café, é preciso ou pular pedras em uma beira da praia extremamente poluída ou esgueirar-se por um estreito caminho de terra e mato.
De tanto ver gente caindo no programa do Faustão, nos anos 90, decidi não arriscar ficar saltando de um canto para o outro.
Irajá teve fortim militar: é reduto de fé e quase foi cidade
O Rio é enorme: mas qual cidade queremos divulgar?
Tapumes estão tampando as estrelas do espaço, a réplica da primeira locomotiva do país, a estação ferroviária de Pacobaíba e aqueles que seriam os primeiros trilhos do Brasil.
A promessa da gestão municipal é que tudo isso seja revitalizado.
Merece, incluindo uma reforma completa na não menos importante ponte.
Não é preciso nem um exercício de imaginação para entender que, em 1854, o cenário era completamente distinto.
Estávamos na inauguração de uma obra faraônica capitaneada por Barão de Mauá.
Pai do empreendedorismo brasileiro, o gaúcho sonhava cruzar de trem do Oiapoque ao Chuí.
Era um motor para carregar grãos.
Se nos Estados Unidos, através de homens como Cornelius Vanderbilt, isso já era possível, por que não seria por aqui também?
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Gastando tudo e mais um pouco, Mauá trouxe equipamentos da Europa e mão de obra especializada de diferentes países.
Para os dias de hoje, os 14 quilômetros de estrada representam uma distância pequena.
Da mesma forma que assistimos ao homem na Lua, aquele era um grande passo para o nosso avanço.
Foi daquela semente que depois floresceram companhias férreas, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e o próprio Rio de Janeiro.
Enfrentando invejosos e bajuladores do imperador, a abertura das obras contou com a presença do próprio Dom Pedro II.
Cordovil e Brás de Pina: o subúrbio está abandonado
Tão esquecida, Magé, na Baixada Fluminense, não é só essencial para a história do transporte, mas também a cidade onde o ouro reinou, um quilombo inspirador foi criado e um craque da seleção deu os primeiros passos.
A heroína Maria Conga
Maria Conga foi escravizada, vendida três vezes, fundou um quilombo e nenhum escravizado que chegou até ela foi recapturado.
Segundo diversas histórias, ela nasceu no Congo, em 1792.
Aos 12 anos, foi sequestrada e embarcada num navio negreiro.
Desembarcou na Bahia e, ali mesmo, no porto, foi separada da família.
Vendida a um fazendeiro, ganhou um novo nome: Maria da Conceição.
Aos 18, foi vendida de novo e assim chegou a Magé.
Aos 24, mudou de dono mais uma vez.
Viveu 11 anos sob esse último senhor, até que, aos 35, conquistou a alforria.
Podia ter ido embora.
Não foi.
Fundou um quilombo.
Abriu rotas de fuga pelas matas, esconderijos em grutas, trilhas pelo Rio dos Cabritos.
Quem escapava das fazendas da região chegava até ela.
Ali encontrava abrigo, remédio feito de ervas, uma parteira.
O reconhecimento oficial veio tarde, como costuma vir.
Em 1988, a Prefeitura de Magé a declarou heroína da cidade.
Em 2007, o Quilombo Maria Conga foi reconhecido pela Fundação Cultural Palmares — o primeiro de toda a Baixada Fluminense.
Viva Garrincha
Ele nasceu com uma perna seis centímetros mais curta que a outra, as duas tortas e virou o maior driblador que o futebol já viu.
A casa onde tudo começou fica em Pau Grande, distrito de Magé, e foi para lá que Garrincha voltou no fim da vida.
Filho de um operário da fábrica têxtil de Pau Grande, Garrincha, aos 15 anos, já trabalhava lá dentro.
A irmã o achava pequenininho, parecido com um passarinho, e o batizou de Garrincha.
O apelido pegou.
Fez teste no Botafogo e, no primeiro treino, driblou Nilton Santos, um dos melhores zagueiros do Brasil, feito bobo.
Em 58, o técnico nem queria escalá-lo: achava que ele driblava demais.
O Brasil foi campeão do mundo.
Em 62, com Pelé machucado, Garrincha carregou o time inteiro nas costas, foi bicampeão e eleito o melhor jogador da Copa.
Em 61 jogos pela Seleção, o Brasil perdeu uma única vez, contra a Hungria, em 66.
Fora de campo, porém, a vida desandava.
O alcoolismo tomou conta.
Morreu em 1983, sozinho, de cirrose.
O cortejo saiu do Maracanã e passou por Pau Grande antes de seguir para o cemitério em Raiz da Serra.
No túmulo, escreveram: “Aqui jaz em paz o que foi a alegria do povo”.
Onde o ouro reinou e o craque Garrincha deu os primeiros passos: Magé é mais do que você pensa
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