A dois meses da eleição, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência acredita que a abertura de uma nova investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, servirá de munição para ampliar a ofensiva que já vinha sendo preparada contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estratégia prevê levar as suspeitas envolvendo o filho do petista para as redes sociais e para os discursos do presidenciável nas convenções partidárias deste fim de semana, numa tentativa de transformar o caso em um flanco permanente de desgaste do adversário durante a corrida ao Planalto.
A orientação é buscar vincular diretamente Lula às suspeitas que recaem sobre o filho.
Entre as fórmulas que serão exploradas está a referência ao presidente como “pai do Lulinha”, expressão que a campanha já vinha testando para substituir o nome do petista em peças e manifestações políticas.
Outra frente será repetir questionamentos sobre “onde está” Lulinha e cobrar publicamente explicações sobre sua atuação.
Fabio Luis atualmente mora na Espanha.
A ideia é fazer com que o assunto deixe de aparecer apenas como reação a novos capítulos das investigações e passe a integrar de maneira recorrente a comunicação eleitoral de Flávio.
O plano antecede a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a abertura do novo inquérito.
Antes de deixarem o comando da comunicação de Flávio, os publicitários Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer já trabalhavam na produção de conteúdos sobre Lulinha.
O marqueteiro Duda Lima, anunciado nesta semana para assumir o marketing da candidatura, chega à equipe com a missão de dar continuidade ao material e ampliar sua exploração nas redes.
A troca no comando da comunicação, portanto, não deve provocar uma mudança nessa linha da campanha.
A avaliação entre aliados de Flávio é que a nova investigação deu mais elementos para uma estratégia que já estava desenhada e permite renovar a ofensiva justamente no início do período eleitoral.
Além da comunicação digital, o senador pretende incorporar o assunto às agendas públicas.
A primeira vitrine serão as convenções deste fim de semana, quando deverá citar as suspeitas envolvendo Lulinha em seus discursos.
Flávio participa neste sábado da convenção de Tarcísio de Freitas em São Paulo e do PL, em Santa Catarina.
No domingo, vai à Paraíba e ao Distrito Federal.
Na quinta-feira, Flávio já antecipou o tom que pretende adotar.
Em uma transmissão ao vivo, o senador criticou a atuação da Polícia Federal e afirmou que as suspeitas envolvendo Lulinha não recebem o mesmo tratamento dispensado às investigações que atingem a família Bolsonaro.
— Está faltando braço, faltando gente para esse pequeno grupo da Polícia Federal do Lula investigar o filho do presidente da República.
Vocês já imaginavam se o filho do presidente Jair Bolsonaro fosse suspeito de receber dinheiro desviado de aposentados? — afirmou.
A comparação deverá ser um dos pilares da ofensiva.
A campanha pretende explorar a tese de que há dois pesos e duas medidas nas apurações que atingem as famílias Lula e Bolsonaro e usar o avanço das investigações sobre Lulinha para reforçar cobranças que Flávio já vinha fazendo à PF.
Ao mesmo tempo, porém, auxiliares do senador acompanham com preocupação uma investigação que atinge o próprio candidato.
O principal receio em relação à atuação do STF durante a campanha está concentrado nos possíveis novos desdobramentos do caso “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro para o qual Flávio buscou financiamento junto ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Integrantes da campanha temem que novos capítulos da investigação venham à tona durante o período eleitoral e voltem a associar Flávio a Vorcaro.
A preocupação aumentou após uma sucessão de revelações sobre a relação entre os dois, que já obrigou a candidatura a administrar crises desde antes do início oficial da disputa.
O caso veio à tona a partir de mensagens que mostraram Flávio negociando com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões para financiar o “Dark Horse”.
O projeto previa contar a trajetória política de Jair Bolsonaro e tinha como objetivo alcançar o mercado internacional.
Posteriormente, novos elementos sobre as tratativas e outras relações envolvendo o senador e pessoas ligadas ao banqueiro mantiveram o episódio no radar da campanha.
Apesar do temor de novos desdobramentos no STF em pleno período eleitoral, Flávio pretende manter a mesma linha de defesa adotada desde o início do caso.
O senador sustenta que não cometeu irregularidades, afirma que as negociações foram feitas de forma transparente e seguirá repetindo que não tem nada a esconder.
A avaliação de seus auxiliares é que a campanha não pode assumir uma postura defensiva diante do caso enquanto tenta cobrar explicações de Lula sobre as investigações envolvendo seu filho.
Nova investigação
Lulinha já era investigado em um dos inquéritos relacionados à Operação Sem Desconto, que apura as fraudes nos descontos de aposentados do INSS.
A nova frente, no entanto, segue uma trilha diferente e busca esclarecer sua possível atuação em negócios relacionados à comercialização de cannabis medicinal, com ligações com servidores do Ministério da Saúde e do gabinete presidencial.
A investigação apura a suspeita de que o filho do presidente tenha atuado junto ao governo federal em benefício próprio.
Entre os personagens do caso estão a empresária Roberta Luchsinger e Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
Segundo depoimento prestado à PF, Luchsinger teria sido responsável por apresentar Lulinha ao lobista.
A empresária recebeu R$ 1,5 milhão de Antunes por serviços de consultoria.
O trabalho previa tentar viabilizar no Ministério da Saúde um contrato para disponibilizar medicamentos à base de cannabis no Sistema Único de Saúde (SUS), iniciativa que não avançou.
Em sua representação, a PF também faz referência a contatos de um dos envolvidos com uma pessoa descrita como de “grande influência” no gabinete presidencial.
Para avançar nessa nova linha, a PF pediu ao STF autorização para compartilhar provas produzidas na Operação Sem Desconto.
A corporação também solicitou a redistribuição do caso, que estava sob a relatoria de Mendonça.
A Procuradoria-Geral da República concordou, mas, após a redistribuição, o inquérito acabou novamente nas mãos do ministro, que autorizou a nova investigação.
A defesa de Lulinha afirma que ele nunca teve relação com as fraudes no INSS e questiona a justificativa para a abertura de um novo inquérito.
Os advogados sustentam ainda que a existência de uma nova frente de investigação demonstra que a Operação Sem Desconto não encontrou elementos que vinculassem o filho do presidente ao esquema de descontos ilegais de aposentados.
