'Paixão é um negócio que pega', diz Luisa Arraes, que estrela nova comédia de Jorge Furtado, 'Muito prazer'

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“Precisamos nos divertir mesmo com as coisas mais sérias”, pensa Jorge Furtado, que já fez rir sobre estelionato, em “O homem que copiava”, assassinato, em “Meu tio matou um cara”, e até sobre um problema que afeta 90 milhões de brasileiros em "Saneamento básico", clássico com com Fernanda Torres, Wagner Moura e Camila Pitanga.
Agora, quase 20 anos depois, o diretor volta à comédia com “Muito prazer”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (29).
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Na trama, Rubem (Daniel de Oliveira) herda do tio o antigo Motel Pérola, acreditando que a propriedade está abandonada.
Ao chegar ao local, porém, encontra Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que passou a viver ali.
Com dívidas para pagar, os dois decidem reabrir o estabelecimento e contam com a ajuda de Nalva (Samantha Jones) para colocar em prática um plano pouco convencional: gravar os clientes nos quartos e vender os vídeos para sites eróticos, com as identidades alteradas.
Mas o plano começa a sair dos trilhos quando Mariana (Drica Moraes), mãe de Grace, entra em cena e atrapalha os negócios do trio.
— Eu queria falar sobre algoritmos e essa tentativa de se catalogar o sentimento, o afeto, a paixão, a sexualidade.
Tentam catalogar tudo: o que a gente gosta de comer, de ler, de ver, de se divertir e também de se apaixonar – enquanto a paixão é uma coisa tão humana e imponderável que escapa ao poder dos algoritmos — conta Jorge, em entrevista ao GLOBO.
E a paixão, para Luisa, é assunto sério.
Parceiro de longa data do pai da atriz, o também diretor Guel Arraes, Jorge conhece Luisa “desde o nascimento” e já trabalhou com ela em outros projetos, incluindo o drama “Rasga coração” e “Grande Sertão”, dirigido por Guel e escrito por Jorge.
— Trabalhar com o Jorge é o maior privilégio do mundo.
A gente diz que, quando o Jorge nos chama para fazer um filme, alguma coisa certa fizemos na vida — brinca a atriz, que viveu uma relação intensa de ensaios e preparação com a equipe do filme, gravado em Porto Alegre.
— Rapidamente viramos uma família de cinema, como uma trupe de teatro.
Há um entrosamento muito interessante, feito por apaixonados.
O Jorge pensa o tempo inteiro na melhor maneira de fazer uma cena, uma fala, uma história.
Isso é contagiante.
Paixão é um negócio que pega.
Já Drica Moraes, que, para Jorge, é “uma gênia da comédia”, teve uma participação “pá-pum”.
Depois de um encontro e uma leitura em um dia, foram três dias de filmagem.
Mas não precisava de muito tempo.
— E a gente tem muita intimidade.
É uma relação de família mesmo com o Jorge, a Nora [Goulart, produtora do filme] e com a Luísa, com quem já tenho uma amizade de muitos anos.
Então, é uma troca rápida, a gente não precisa falar muito para se entender.
Há sempre espaço para um improviso, com muita confiança, é uma delícia trabalhar com eles.
É um jogo muito aberto e de muita confiança.
Para Drica, a comédia pode estar presente em qualquer situação:
— Acho que o humor está em tudo.
Se você vive 24 horas, você vai ter situações tensas, de concentração, engraçadas, vai viver coisas hilárias, vai ter papos sérios.
Um dia dá para muita coisa, uma vida dá para muita coisa.
E eu acho que qualquer personagem pode ter traços cômicos ou de comicidade.
Nesse filme, a gente deitou e rolou, foi com tudo na graça.
Eu gosto muito desse jogo da palhaçada.
Luisa também vê na comédia uma maneira de abordar temas que, em princípio, poderiam ser tratados de forma mais pesada.

— Embora fale sobre pornografia, desejo, dinheiro e tecnologia, [o filme] faz isso sem constrangimento.
É muito legal poder falar desses temas espinhosos, porque começamos a conversar sobre eles.
O grande drama é nunca falar dessas coisas, deixá-las debaixo do tapete, todo mundo quieto e escondido.
A comédia dá essa possibilidade de falar sobre esses temas com distanciamento e, depois, quem sabe, aprofundá-los, para quem quiser, de um jeito ou de outro — diz.
Para a atriz, os protagonistas de “Muito prazer” representam bem o “espírito da época”: jovens que tentam transformar criatividade em renda usando a internet.
E, daí, dá para aprofundar o tema.
— Há uma tentativa do algoritmo de ditar o nosso desejo.
Voltamos àquela questão: a tarefa mais difícil da nossa vida é descobrir o que realmente desejamos e se não estamos desejando algo que alguém já desejou por nós.
A gente chega à vida cheio de pré-requisitos: você tem que querer isso, você tem que querer aquilo, até que pensa: “Espera aí, o que eu realmente quero?”.
Esse é um trabalho muito difícil, de uma vida inteira.
E o algoritmo quer facilitar isso no mau sentido: se você gosta disso, vai gostar daquilo; você é assim.
Não há nada mais raso do que dizer “eu sou assim” ou “você é assim”.
Depende de com quem, de onde, do que se faz da vida.

As redes sociais estão nos tornando mais reclusos? Para Jorge, ter um celular na mão a todo momento muda as relações humanas.
O diretor lembra da juventude, em Santa Catarina, quando ia acampar e ficava “15 dias incomunicável”.
– Agora, a pessoa vai ali na esquina e te liga, fica todo o tempo online, é muito diferente.
E isso certamente vai mudar todos os hábitos, inclusive do afeto, do namoro.
Eu saí na minha rua aqui no Rio, caminhando esses dias, e vi muitos jovens sentados na calçada, num bar, cada um com seu celular.
Eles não estavam conversando.
A relação pessoal, humana, física, talvez tenha ficado mais difícil mesmo porque as pessoas não estão se olhando nem no rosto, estão com a tela na mão.
Mas, na opinião de Luisa, nem tudo está perdido.
Mesmo com redes sociais, aplicativos e algoritmos, o desejo humano do encontro sempre prevalece.
— A internet também tem esse lugar do ódio, por exemplo: você pode dizer o que quiser de sua casa, em segurança.
Mas acho que a insegurança também é onde descobrimos muita coisa na vida.
Ao nos expormos e nos abrirmos ao outro, descobrimos as maiores belezas.
Acho que todo mundo está sujeito a isso, não apenas os mais jovens.
Mas também vejo, entre os jovens com quem convivo, que há sempre uma tendência de querer se encontrar.
Existe um desejo humano de contato, independentemente de tudo.