As eleições de 2026 terão pelo menos 36 candidatos nascidos em outros países, entre eles um palestino bolsonarista, um prefeito costarriquenho, um ator argentino e um professor togolês.
O GLOBO chegou aos nomes a partir da análise dos registros de candidatura divulgados até esta quarta-feira (19), quatro dias após o fim do prazo da Justiça Eleitoral.
Para concorrer, eles precisam ser naturalizados ou possuir status diplomático equivalente.
Ao todo, considerando as eleições nacionais desde 2014, 156 homens e mulheres nascidos em outros países já tentaram vagas para o Executivo e o Legislativo nacionais e estaduais.
Portugal foi o berço de 21 candidatos no período, liderando o ranking, seguido de Uruguai (13), Chile (11), China (8), e Estados Unidos (8).
A maioria tenta uma vaga de deputado estadual ou distrital, cargos considerados mais acessíveis, por diversos partidos, do PL ao PSOL.
O palestino é Mahmoud Amer (PL), de 52 anos, que vive há 26 no Brasil e concorre a deputado estadual pelo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro no Rio Grande do Sul.
Nascido em Ramallah, na Cisjordânia, ele é dono de um comércio em São Lourenço do Sul.
Até este ano, era o presidente da Associação Comercial e Industrial do município, motivo pelo qual teve a candidatura questionada na Justiça por supostamente avançar sobre o prazo de desincompatibilização do cargo.
Mahmoud escolheu o PL, segundo ele, por se identificar com pautas conservadoras e o viés liberal na economia, depois de cursar graduação na FGV.
Ele aparece nas redes sociais pedindo votos para Flávio Bolsonaro e os deputados federais Zucco e Giovani Cherini, que o convidou para o pleito neste ano.
Ao GLOBO, ele afirmou que se classifica como um “bolsonarista”, apesar de não concordar com a proximidade da família do ex-presidente Jair Bolsonaro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
— Eu defendo a Palestina livre, defendo o povo palestino livre e independente.
Considero essa uma opinião deles, mas não reflete a minha.
No PL, todo mundo sabe o meu posicionamento, e não vou proibir ninguém de ter outro.
Netanyahu está matando crianças e mulheres, está matando o meu povo, e eu sou contra a matança dos dois lados.
Sei que o povo palestino sofre — disse ele, que apresentou recurso para ser habilitado nas urnas após a Justiça Eleitoral decidir pelo indeferimento.
O palestino Mahmoud Amer, o segundo da esquerda para a direita, com a chapa gaúcha do PL
Reprodução/Redes Sociais
Rodrigo Dorado (PSB) nasceu em Buenos Aires, mas se mudou ainda criança para o Brasil.
Ator, dublador e professor de teatro, ele tem no currículo as novelas “Rebelde Brasil” (TV Record) e “Cúmplices de um resgate” (SBT), além de um papel secundário no filme “Bruna Surfistinha”, de 2011.
Dono de uma cafeteria vegana no bairro de Pinheiros, na capital paulista, o argentino lidera uma candidatura coletiva denominada “Mandato Animal” para a Assembleia Legislativa do Estado (Alesp).
— Vejo a necessidade de uma representatividade sincera, verdadeira, da causa animal.
Nós trabalhamos através de uma construção coletiva.
Revitalizamos um casarão no bairro da Bela Vista, onde fazemos encontros com as pessoas para saber quais as demandas mais urgentes.
Não comecei nisso hoje, sou voluntário há mais de 10 anos, participei de resgates e sou vegano — comenta.
Dorado conta que tem parentes vivendo na Argentina e visita o país todos os anos, mas se considera “mais brasileiro”, por isso está tentando se eleger por aqui.
Ele não tem sotaque castelhano.
Afirma ter escolhido o PSB, um partido de centro-esquerda, porque recebeu o compromisso da direção de que o ativismo em defesa dos animais seria levado à frente mesmo se o coletivo não conquistar um mandato.
E faz críticas a outro argentino que andou esses dias por São Paulo, o presidente Javier Milei, um “falastrão radical” que estaria implodindo as relações com o Brasil.
O argentino Rodrigo Dorado, candidato do 'Mandato Animal' no PSB
Reprodução/Redes Sociais
Gnandi Moustafa (PSOL), natural do Togo, quer representar a comunidade africana como deputado no Distrito Federal.
Antes de vir ao Brasil, deu aulas em escolas infantis em Bamako, no Mali.
Chegou ao país em 2017 e, segundo ele, enfrentou dificuldades para validar diploma e obter documentos obrigatórios para estudar em instituições de ensino superior, como a UnB.
Decidiu entrar na política para melhorar o acesso dos imigrantes e valorizar a educação.
Ele calcula que em torno de 7 mil pessoas vindas da África moram hoje na capital federal e municípios do entorno.
— O fato de não ser naturalizado gera receio na maioria dos migrantes.
Quando não possuem cidadania, ao reclamar o direito deles, eles têm medo de ser presos, de perder o emprego.
Eu me tornei um porta voz dessa comunidade — diz Moustafa.
Caso eleito, ele pretende usar o cargo reivindicar melhorias nas escolas públicas e incentivar a criação de um programa de modernização do currículo com a participação estudantes que estejam concluindo do curso de Letras e receberão bolsas para dar aula na rede pública.
Entre os candidatos estrangeiros, também destacam-se figuras mais conhecidas, que já fazem carreira política, como Dr.
Furlan, ex-prefeito de Macapá, que deixou o cargo para concorrer ao governo do Amapá este ano.
Ele nasceu em San José, na Costa Rica, mas ficou apenas dez meses na ilha, antes de a família migrar para Belém, no Pará.
Já Zoe Martínez, vereadora de São Paulo, nascida em Havana, ganhou notoriedade por criticar o regime cubano e defender o ex-presidente Jair Bolsonaro em programas da Jovem Pan, como “Pânico”, “Morning show”.
*Estagiária sob supervisão de Maurício Xavier
