Na mineração e na siderurgia, descarbonizar e reduzir custos deixaram de ser agendas paralelas.
A pressão por competitividade transformou eficiência energética, reaproveitamento de resíduos, redução do uso de insumos e digitalização em instrumentos para cortar, ao mesmo tempo, despesas e emissões.
O movimento une as cinco líderes da categoria mineração, metalurgia e siderurgia do ranking Valor Inovação Brasil 2026: Vale, CBMM, ArcelorMittal, Belgo Arames e Gerdau.
Em todas, a inovação passou a ser medida pela capacidade de elevar a produtividade com menos matéria-prima, energia e carbono.
A convergência tem explicação econômica.
As importações de aço somaram 6,4 milhões de toneladas em 2025, e os produtos importados chegaram a 21% do mercado brasileiro, ante um patamar histórico de 9,7%, segundo o Instituto Aço Brasil.
A produção nacional caiu 1,6%.
Na mineração, ampliar a oferta também ficou mais demorado e caro.
Uma jazida leva de oito a dez anos entre a descoberta e a primeira produção, enquanto a queda do teor das minas antigas exige movimentar mais rocha para extrair a mesma quantidade de metal.
A inovação tornou-se decisiva para recuperar recursos, elevar a produtividade e reduzir o custo de cada tonelada produzida.
A Vale lidera a categoria em 2026, como faz desde 2020.
Em vez de concentrar a inovação em uma diretoria, mantém 16 hubs em seus negócios para identificar desafios.
Em 2025, pequenas melhorias sugeridas por colaboradores — de um ajuste que torna a tarefa mais segura a uma mudança que reduz o consumo de insumos — passaram de 300 mil, cerca de seis ideias por trabalhador.
Para Rafael Bittar, vice-presidente executivo técnico da Vale, essa capilaridade dá vantagem competitiva à empresa.
Ele também aponta a reputação como um desafio do setor.
"A sociedade tem uma imagem ruim da mineração, de ser um grande buraco, com grandes montanhas de resíduos, e que gera dano ambiental", diz.
Uma das respostas da companhia é o programa de mineração circular, lançado há três anos.
Atualmente, 70% da produção da Vale não gera rejeitos.
De barragens e pilhas antigas, a empresa extraiu 26,5 milhões de toneladas de minério em 2025, cerca de 7% da produção, sem abrir novas frentes de lavra e evitando 54 mil toneladas de CO2.
As barragens erguidas pelo método a montante, o mesmo usado na estrutura que se rompeu em Brumadinho em 2019, vêm sendo eliminadas desde então, em parte por máquinas operadas remotamente a quilômetros da frente de trabalho.
A inovação também dá retorno: um sistema de inteligência artificial que otimiza a frota marítima economizou US$ 66 milhões em um ano.
Na CBMM, a inovação gira há mais de setenta anos em torno do nióbio, do qual a empresa é a maior produtora mundial.
Criado em 1977, o Programa de Tecnologia reúne mais de 200 projetos de cooperação com clientes, universidades e centros de pesquisa, com investimentos anuais entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões.
O portfólio de inovação da CBMM tem três frentes: a siderurgia, principal mercado da companhia; tecnologias com uso comercial mapeado, como baterias; e apostas de prazo mais longo em agronegócio, tintas e cosméticos.
"Desenvolver tecnologia só faz sentido quando ela contribui para solucionar desafios reais da indústria e gerar valor para clientes, sociedade e mercado", diz Leonardo Silvestre, gerente executivo de inovação.
Leonardo Silvestre, da CBMM: em busca de novas aplicações para o nióbio
Divulgação
Em 2026, a CBMM enviou mais de 500 amostras de nióbio para pesquisas com parceiros no Brasil e no exterior e espera chegar a 1.000 até dezembro.
A estratégia mudou o perfil da receita: a siderurgia, antes responsável por cerca de 90% do faturamento, responde hoje por 75%.
"Entendemos que, para expandir o mercado do nióbio no longo prazo, era necessário também desenvolver novas aplicações e reduzir a dependência de um único segmento", afirma Silvestre.
Uma das apostas é o ônibus elétrico desenvolvido com a japonesa Toshiba e a Volkswagen Caminhões e Ônibus.
Suas baterias de íons de lítio com nióbio prometem recarga completa em dez minutos e durabilidade que pode ser até três vezes maior que a das convencionais.
A ArcelorMittal opera em Tubarão (ES) um dos 14 centros de pesquisa do grupo, parte de uma rede de cerca de 1.650 pesquisadores, e exporta automação de processos, coprodutos e tecnologia ambiental às outras unidades.
Em 2025, 23 produtos e soluções para montadoras e outros 15 para construção sustentável, infraestrutura e energia saíram dessa estrutura.
Contudo, o tempo é um desafio.
"O ritmo das transformações tecnológicas mundiais ultrapassa a capacidade de qualquer estrutura corporativa isolada", afirma Paulo Wanick Mattos, diretor de Finanças, Tecnologia da Informação e Riscos da ArcelorMittal Aços Planos América Latina.
"Desenvolver soluções digitais dentro de casa é mais lento e custoso do que testar e plugar uma startup que já validou a tecnologia no mercado." Esse raciocínio deu origem ao Açolab, aberto em Belo Horizonte em 2018 e apresentado como o primeiro laboratório de inovação aberta do aço no mundo.
A companhia divulga seus desafios, e as startups selecionadas ganham acesso às fábricas, aos dados e aos especialistas para desenvolver projetos-piloto.
Na operação, um dos resultados da inovação foi a digitalização dos altos-fornos.
Réplicas digitais alimentadas por dados em tempo real simulam o comportamento interno dos equipamentos e antecipam reações.
Câmeras inteligentes inspecionam placas, pontes rolantes são comandadas de salas remotas e sensores acústicos antecipam falhas.
O programa XCarb reúne iniciativas de baixa emissão, com aço feito em forno elétrico a partir de sucata e energia renovável.
Montadoras, fabricantes de eletrodomésticos de luxo e obras que buscam certificação ambiental aceitam pagar mais.
"O mercado brasileiro está deixando de ser guiado apenas pela boa vontade ecológica e passando a ser impulsionado por uma necessidade de sobrevivência regulatória e financeira", diz Mattos.
Na Belgo Arames, a inovação contribuiu para uma redução de 4,85% na estrutura de custos da companhia em 2025, com aumento da produtividade, otimização de processos e melhoria da eficiência operacional.
Cerca de 14% da receita líquida vem de produtos lançados nos últimos anos, sustentados por um investimento anual de cerca de R$ 37 milhões.
"A inovação é um dos pilares estratégicos e um importante vetor de competitividade", diz o presidente da empresa, Rodrigo Archer.
Lançada em 2025, a fibra de aço Dramix 4D tem até quatro vezes mais resistência à tração que as soluções convencionais e pode reduzir em até 25% o consumo de materiais.
Segundo Archer, o produto mostra como a inovação gera valor em diferentes frentes: o desempenho do produto, o custo do cliente e a sustentabilidade.
A Belgo mantém ainda um acordo com o FIEMG Lab para ampliar o acesso a startups e a tecnologias emergentes.
A Gerdau criou a Value Factory para acelerar as transformações do negócio que dependem de tecnologia.
"Seu papel é conectar estratégia, negócio, tecnologia e pessoas", diz Gustavo França, diretor global de tecnologia.
Em 2026, a área reúne sob um mesmo comando os projetos digitais do grupo no mundo, define ritos de decisão e incorpora inteligência artificial como critério de decisão e execução.
Ideias captadas dentro e fora da empresa são testadas em ambiente controlado e só recebem recursos se funcionarem.
Em Ouro Branco (MG), maior unidade do grupo, uma rede 4G/5G conecta cerca de 500 aparelhos, e câmeras inteligentes monitoram equipamentos em tempo real.
Réplicas digitais dos processos industriais simulam cenários de fabricação e sequenciamento, com ganhos no consumo de matérias-primas.
Em março, a companhia lançou a linha NewEco, de aços de menor pegada de carbono, feitos de sucata reciclada e energia renovável.
"O principal desafio da indústria do aço é a descarbonização", afirma França.
A Gerdau faz cerca de 70% de seu aço a partir de sucata, e cada tonelada reciclada evita 1,5 tonelada de CO2.
A média da empresa é de 0,85 tonelada de CO2 equivalente por tonelada de aço, contra 1,92 da média global.
Os recursos minerais ajudaram a construir a sociedade contemporânea e serão indispensáveis para as transformações que virão.
"A mineração nunca foi tão necessária quanto agora e para o futuro.
Quando olhamos para a transição energética, por exemplo, não há transição sem mineração", afirma Bittar, da Vale.
Inteligência artificial, operações remotas, reaproveitamento de rejeitos, reciclagem e materiais de menor emissão fazem parte de uma indústria historicamente associada a grandes impactos ambientais.
Dos metais presentes em computadores e smartphones ao aço usado em carros, edifícios e equipamentos, a vida cotidiana depende dessa produção.
Com resultados e transparência, a inovação não apenas eleva a eficiência, mas também torna a atividade mais compatível com as exigências ambientais e sociais dos novos tempos.
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