À frente da Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros, sediada no Museu do Amanhã em parceria com a UFRJ, o primeiro núcleo acadêmico do país destinado a planejar o futuro, Fábio Scarano leva cotidianamente outras pessoas ao exercício de imaginar e ampliar novas possibilidades.
Curador do museu e professor titular de ecologia da universidade, ele também desenvolve essa perspectiva de futuro como tema da primeira edição do Brasil Futures Forum (BFF), realizada no último fim de semana.
Foi a primeira reunião de pesquisadores, lideranças empresariais e agentes culturais do gênero no país, que entra no circuito internacional de debates de futuros.
São eventos para discutir desafios e oportunidades das próximas décadas para alcançar objetivos que assegurariam um futuro melhor que o presente, como os apontados por Scarano: desmatamento zero, economia de baixo carbono, justiça climática e tecnologias produtivas sustentáveis.
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O primeiro passo para isso, ele diz, é se desprender das amarras do hoje e abrir os olhos para novos horizontes.
“Para que futuros melhores aconteçam, a gente precisa imaginá-los.
Se não imaginarmos, não vão acontecer”, afirma o professor, que admite ser frequentemente chamado de “utópico”.
Mas ele diz preferir se ver como um “realista esperançoso”, definição popularizada pelo escritor Ariano Suassuna.
Fabio Scarano, ecólogo, é curador do Museu do Amanhã
Ana Branco
Em entrevista ao GLOBO, Scarano avalia que a sociedade falha sistematicamente em se antecipar a problemas sociais, sanitários e ambientais, principalmente por um déficit de memória e de atenção.
Por isso, os alertas — como para o surgimento de pandemias e da emergência climática — demoraram a ser enfrentados com soluções.
Para ajudar a romper essa “inércia humana”, ele defende o conceito de antecipação regenerativa, reconectando os campos da ciência, da arte e da espiritualidade, fragmentados pela ciência moderna.
Por que é importante imaginar diferentes futuros?
Para criar um campo de possibilidade novo para o amanhã.
Hoje são mais de 30 cátedras no mundo que tratam de futuros, criadas pela Unesco.
Temos muita dificuldade de imaginar futuros diferentes.
Para que futuros melhores aconteçam, precisamos imaginá-los.
Se não imaginarmos, não vão acontecer.
Parte do nosso esforço é discutir como expandimos nossa imaginação.
No fundo, o futuro não existe.
Existe na nossa imaginação como um campo de possibilidades.
E se restringimos esse campo dizendo “não, nunca vai acabar o petróleo”, não saímos do presente.
Nossa capacidade de criar imagens acerca do futuro depende de uma relação com a memória e a atenção, que é justamente a nossa relação com o passado e o presente.
Antecipar bem te garante avançar em direção ao futuro, enquanto antecipar mal gera o risco de ter problemas mais sérios, inclusive de se extinguir enquanto espécie.
É preciso imaginar um futuro diferente sobre energia?
Sim.
Temos muita dificuldade de imaginar um mundo sem petróleo e com energias renováveis.
Para fazer essa transição, vai precisar de minério.
Onde estão esses minérios? Debaixo da floresta.
E como extrair sem impactar esses ambientes? O cobertor é curto, temos de imaginar outras formas de energias renováveis e uma mineração mais sustentável.
E temos que imaginar o uso do combustível fóssil, enquanto for necessário, de maneira mais parcimoniosa.
O Brasil tem uma matriz energética renovável avançada, como isso pode nos dar vantagem no futuro?
A grande oportunidade é zerar o desmatamento.
E aí vem uma matriz predominantemente renovável, e uma série de coisas favoráveis.
Metade das emissões de gás estufa do Brasil se dão por desmatamento.
Se zerarmos o desmatamento, a emissão do Brasil já cai pela metade.
Isso faria com que a nossa indústria ganhasse tempo para fazer uma transição para práticas menos intensas em carbono.
“A utopia não é um ponto de chegada, é um caminho.
E essa direção é uma prática cotidiana.
A gente se preocupa muito com o ponto de partida e chegada, mas a vida está na travessia”, diz Fábio Scarano
Divulgação
Hoje, no discurso político e eleitoral, há uma dualidade entre política ambiental e produtividade no agronegócio, que a ciência vem mostrando que não faz sentido.
Essa rivalidade existe no campo?
Quem lida com a agricultura, quem põe a mão na terra, sabe que ela depende de um ambiente saudável.
Se você está num escritório na grande cidade administrando hectares remotamente, talvez você não tenha essa percepção.
Mas não é separável, não são duas coisas distintas.
É uma discussão completamente equivocada.
Se você desmata a Amazônia, a sua agricultura no centro-sul fica toda prejudicada.
O futuro é um campo aberto de possibilidades, mas existir um horizonte real de risco de colapso ambiental ajuda a delimitar soluções e a imaginar esse futuro?
Essa pergunta é o centro da nossa pesquisa, e se divide em duas frentes.
Tem uma forma de antecipação de futuros específicos, como planejar o jantar, em que você mirou num ponto de chegada.
Mas quando você imagina um futuro mais longo, recorre a uma outra forma de antecipação, para o surgimento do novo.
E aí entra a antecipação regenerativa.
Se criarmos um diálogo entre ciência, espiritualidades e artes, alguma coisa boa vai surgir.
Você não tem exatamente um foco de chegada, mas uma direção.
O que é o conceito de antecipação regenerativa?
A ciência moderna separa o todo em partes para entendê-las e depois volta para o todo.
Mas, de certa forma, a ciência tem tido dificuldade de voltar a esse todo, e a gente vai se especializando cada vez mais nas partes.
Separamos passado, presente e futuro.
Ciência, arte e espiritualidade.
Social, econômico e ambiental.
Separamos o humano do restante da natureza.
Essas frações precisam se regenerar, se reconectar.
A ciência precisa de um diálogo com a arte, com as religiões, com as ancestralidades.
O que chamamos de antecipação regenerativa é cicatrizar essas fraturas que a modernidade causou, sentir que estamos interconectados.
Regenerar territórios também é necessário?
Sim, isso envolve a possibilidade de ter vida, árvore, bicho, água, solo bom.
Na maneira como as megacidades cresceram, isso é muito setorizado.
No Rio, a Zona Sul é muito arborizada, mas quando se sai dela há um déficit imenso de arborização.
Requer outro desenho de ocupação de espaço, sem esquecer que cidades ocupam 2% da superfície terrestre, mas consomem cerca de 75% dos recursos naturais do planeta.
A cidade é uma draga de recursos e precisa de sustentabilidade muito maior.
Mas não tem como ser sustentável se seu vizinho não for.
Se tem seca na Amazônia, vai faltar energia aqui.
Perceber essas interconexões nos leva “Grande Sertão: Veredas” a um olhar de um mundo sem fronteiras.
Você diz que é chamado de utópico.
Onde entra a utopia nesse processo?
A utopia não é um ponto de chegada, é um caminho.
E essa direção é uma prática cotidiana.
Eu me lembro de uma passagem do (romance célebre de Guimarães Rosa), em que Riobaldo olha para o outro lado do rio e fala: “Eu miro no outro ponto do rio, mas eu nunca chego exatamente nele.
Você mergulha, a corrente te leva para lá, te leva para cá.
Você chega numa parte distinta daquela em que você mirou, mas de qualquer forma você chegou do outro lado do rio”.
A gente se preocupa muito com o ponto de partida e com o ponto de chegada, mas a vida mesmo está na travessia.
Mas essa travessia vai acontecer a tempo, em meio à emergência climática?
As pessoas se perguntam se estamos perto do fim.
Até na mesa do bar aparece a palavra apocalipse.
Na origem grega da palavra, apocalipse não significa fim, significa revelação.
Então, quando nos é revelado que o nosso modo de vida está cheio de problemas, o que nos cabe é mudar.
E essa mudança não significa o fim do mundo, mas talvez signifique o fim de um mundo.
O mundo muito intenso em carbono, sobre o qual a ciência já fala há pelo menos 100 anos, eu acho que talvez esteja acabando.
E aí precisamos preparar um novo.
Se a ciência já alerta há muito tempo sobre o problema climático, por que demoramos a agir?
Além da ciência, algumas tradições antigas também falam.
O povo ianomâmi fala sobre a queda do céu.
Você corta as árvores, que sustentam o céu.
Mexe com o subsolo.
Está na mitologia milenar deles, igual ao que a ciência fala, mas com outras palavras.
É um problema antecipatório.
Sabemos da mudança climática, assim como soubemos sobre a grande chance de termos a Covid dez anos antes.
Nossa capacidade preventiva é baixa, temos uma inércia enorme dentro dos nossos modos de viver.
A COP30 incorporou, pela primeira vez, saberes tradicionais e ancestrais.
É importante para nos anteciparmos melhor, como nesse exemplo ianomâmi?
É fundamental.
Diferentes campos do conhecimento ao longo da História têm dado contribuições importantes para a forma de viver.
A impressão é que o ser humano vem falando a mesma coisa há muito tempo, de diferentes formas.
Mas muitas dessas coisas não foram ouvidas.
Somos uma sociedade que tem muito pouca memória, que mal se lembra do que nossos avós ensinaram.
Esses conhecimentos foram apagados, esquecidos, deixados de lado em nome do progresso ou de qualquer outra coisa.
Somos uma sociedade de baixíssima atenção.
Pela velocidade do tempo, estamos toda hora distraídos, e os eletrônicos contribuem.
Quem tem pouca memória e nenhuma atenção se antecipa mal.
Quem se antecipa mal está fadado ao colapso, a um declínio.
Relembrar conhecimentos do passado só contribui para o nosso repertório.
Para anteciparmos futuros melhores, precisamos de repertório, e o passado dá isso.
Na sua imaginação do futuro, como estaremos em 30 anos?
Imagino que, em 30 anos, vamos ter zerado o nosso desmatamento, avançado em tecnologias muito pouco intensas em carbono e revisto nossa forma de uso da terra e de produzir alimento.
Biocombustível sem cortar uma árvore sequer.
Vamos despertar para esse campo de possibilidades.
E, para acreditar nelas, temos de falar sobre elas.
