Pastores, sacerdotes e padres: número de candidatos com identidade religiosa recua e volta a patamar de 2018 - QTU Questões do Universo

Pastores, sacerdotes e padres: número de candidatos com identidade religiosa recua e volta a patamar de 2018

Fonte: Bandeira da fonte

Entre os mais de 20 mil candidatos que estarão nas urnas em outubro, 2,7% têm uma identidade religiosa, mostra levantamento do GLOBO feito com base nos dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O número representa um recuo em relação aos 3,09% registrados em 2022, o recorde neste século, e se aproxima dos 2,5% observados em 2018, quando a fé virou pauta central nos discursos políticos, impulsionada pela ligação entre Jair Bolsonaro e líderes evangélicos.

Ao todo, neste ano, foram mapeados 559 postulantes que relataram como ocupação "sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa," ou cujo nome carrega um termo que faz referência a alguma religião, como "padre", "irmão" ou "bispo", principalmente entre legendas de direita.
Em relação aos 903 nomes identificados em 2022, houve uma diminuição de 38% em números absolutos.

A queda é superior à constatada em relação a todas as candidaturas dessas eleições, de quase 30% em meio a mudanças nas regras eleitorais que incluem o fim das coligações em pleitos proporcionais e a formação de federações para evitar a chamada cláusula de barreira.
— Temos essa movimentação própria do campo político.
Mas, em 2022, um limite parece ter sido ultrapassado de campanhas dentro de templos religiosos, o que impacta o pleito deste ano.
Houve muitos conflitos, sobretudo em igrejas evangélicas.
Esses espaços ainda serão usados para mobilização eleitoral, mas parece que esticaram demais a corda, vimos afastamento de fiéis — diz Lívia Reis, coordenadora de Religião e Política do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Entre os títulos religiosos utilizados, por exemplo, a principal diminuição ocorreu entre os que adotam “pastor” ou “pastora”, que caiu 48,7%, quase pela metade, de 476 para 244 candidatos.
Antes de 2026, o último ano em que o país havia registrado uma queda foi em 2014, quando 1,31% dos candidatos na disputa tinham alguma ligação religiosa, segundo levantamentos do economista Bruno Carazza, autor do livro “Dinheiro, eleições e poder: as engrenagens do sistema político brasileiro”.
Os dados compilados pelo especialista incluem também candidatos que já exibiram ocupação ou identidade religiosa em pleitos anteriores, embora não apresentassem ocupação ou referências religiosas no ano analisado.
O método é também o adotado pelo GLOBO.
Por meio dele, foram identificados 87 postulantes como o pastor evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do Partido Liberal (PL) na Câmara dos Deputados, que relatava como ocupação "sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa" em 2014, quando foi eleito pela primeira vez.
Desde então, passou a utilizar a profissão “deputado”.
— Vemos esse movimento de candidatos que utilizaram um termo religioso, que cumpriu seu papel ideológico de mostrar para o eleitor os valores que ele defende, mas que depois isso deixou de ser necessário.
Isso especialmente no cristianismo, em que há um foco maior na identidade cristã de um modo amplo, que te possibilita transitar entre movimentos mais ou menos conservadores.
O fenômeno da identidade religiosa nas eleições hoje é muito maior que o nome de urna — avalia Lívia.
Outros 70 candidatos relataram a ocupação "sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa"; 47 adotaram “irmão” ou “irmã”; 38 usaram “missionário” ou “missionária”; 32 utilizaram “bispo” ou “bispa”; 15 optaram por “cantor” e são artistas gospel; 12 usaram “apóstolo” ou “apóstola” e 11 adotaram “padre”.
Entre todos, houve diminuição em relação a 2022.

Ainda assim, termos ligados ao cristianismo continuam a representar a grande maioria dos candidatos religiosos.
Por outro lado, houve um aumento de 26 para 27 postulantes que fazem menção a termos de religiões de matriz africana, caso de Mãe Su de Nanã e Pai Adriano Neres, que disputam, respectivamente, o cargo de deputada federal e deputado estadual por São Paulo.
Para o levantamento, foram analisados os seguintes termos e suas variações: pai, mãe, pastor, pastora, missionário, missionária, bispo, bispa, apóstolo, apóstola, reverendo, irmão, irmã, padre, cantor, profeta, evangelista, ministro, ministra, obreiro, capelão, de terreiros, diácono, frei, reverendo, babalorixá, ialorixá, ogum, exú, iansã, iemanjá, obaluaê, oxalá, omulu, oxóssi, oxum, oxumaré, xangô e oyá.

PL lidera em candidatos religiosos
Pelo país, o PL, do presidenciável e senador Flávio Bolsonaro, cresceu de 58 para 61 candidaturas e lidera a lista de partidos com mais nomes religiosos.
Em seguida, aparecem Republicanos, com 51, e MDB, com 43.
Na outra ponta, PRTB, com um candidato, Cidadania, com 2, e PV e Missão, ambos com 3 cada, são os com menos.
O PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tem 17 candidatos, um leve aumento em relação aos 14 de 2022.
Nos estados, Rio de Janeiro e São Paulo lideram com 61 nomes cada, seguidos por Bahia, com 50, Pernambuco, com 45, e Minas Gerais, com 42.
Já Mato Grosso e Amazonas, com 4 cada, e Rio Grande do Sul e Acre, com 6 cada, são os com menos candidatos religiosos.

Entre todos os 559 postulantes, 68,16% são homens e 68,16% são negros ( 47,41% pardos e 20,75% pretos).
A maioria busca uma vaga na assembleia legislativa do seu estado (51,34%) ou na Câmara dos Deputados (41,50%).
Sete nomes disputam um assento no Senado Federal, e três são candidatos a vice-governador.