Com data de estreia marcada para o dia 19 de setembro, o espetáculo "Feliz ano velho", baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva, vai chegar ao Teatro Frei Caneca, em São Paulo, com uma primeira polêmica: a escalação do elenco.
Artistas PCDs usaram as redes sociais para fazerem diversos manifestos por terem Bruno Garcia e Hugo Bonemer dividindo o papel principal, de um personagem que é cadeirante.
"Realmente, estou muito cansado.
De um lado, temos produções internacionais em que vemos artistas com deficiência em filmes, novelas, séries, ganhando notoriedade, oportunidades, e no meu país a gente se depara com um retrocesso desses.
Qual a justificativa? Eu posso listar vários artistas com deficiência, pessoas que estão lutando pela visibilidade e os convites não aparecem.
A chance não acontece.
E quando teria uma oportunidade, vem dessa maneira", disse o ator Tato Amorim, em um vídeo no Instagram com mais de 100 mil visualizações.
Veja o vídeo:
Nos comentários, mais pessoas fizeram coro ao desabafo.
"Está feio.
Isso é cripface.
É inaceitável", reclamou o influenciador Ivan Baron.
"Os testes não chegam, as coisas não acontecem, porque as produções não querem se adaptar.
Para eles, é mais fácil ficar na cripface, ofendendo uma comunidade, do que fazer o básico: acessibilidade e inclusão.
Infelizmente, o capacitismo ser estrutural e velado reflete nisso, em detalhes muito pequenos, mas no final, são imensos", refletiu a consultora Violeta.
Ator Tato Amorim desabafa sobre a escalação de elenco de "Feliz ano velho"
Reprodução/Instagram
O que é cripface?
Termo constantemente repetido nos desabafos do post, o "cripface" é usado para definir as escalações de pessoas sem deficiência para interpretar um papel com deficiência.
A lógica é a mesma quando se popularizou o termo "blackface", em que foi usado para criticar pessoas brancas que pintam o próprio rosto com tinta escuta para imitar pessoas negras.
A discussão tem sido cada vez mais frequente, porque existe pouco espaço para artistas com deficiência em grandes produções.
E quando poderia ser óbvia a escalação deles, em casos em que a deficiência faz parte da narrativa, eles acabam afastados e substituídos por atores que não são PCDs.
Heloísa Périssé, Hugo Bonemer, Bruno Garcia, Ingrid Gaigher e João Cortes estão no elenco de "Feliz ano velho"
Priscila Prade/Reprodução/Instagram
Diretor e protagonista se pronunciam
"Feliz ano velho" é um livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva.
Ele narra como um acidente, aos 20 anos de idade, fez com que ele ficasse tetraplégico.
Diretor do espetáculo, Gustavo Barchilon comentou na publicação de Tato Amorim, que criticava a escalação do elenco.
Ele alegou que a história vai contar não só a vida que o protagonista passar a ter com a deficiência, como usará recursos de flashback.
Marcelo Rubens Paiva no 'Roda viva'
Nadja Kouchi
"Oi, Tato, concordo com o seu posicionamento e entendo a importância da questão que você levanta.
Só acho importante esclarecer que, especificamente em 'Feliz ano velho' a construção dramatúrgica parte de uma proposta diferente.
Para quem conhece o livro, a história parte da vida do Marcelo até o acidente e vai sendo construída por meio de flashbacks, nos quais ele volta no tempo e revive suas próprias histórias.
Foi assim também na montagem teatral dos anos 80, protagonizada pelo Marcos Frota.
Por isso, pela própria estrutura da dramaturgia, não seria possível ter o papel interpretado por uma pessoa cadeirante, já que acompanhamos o Marcelo em diferentes momentos da vida, inclusive antes do acidente", disse Gustavo.
O diretor explicou ainda a justificativa para a escalação de Bruno Garcia.
"O Bruno interpreta tanto o Marcelo mais velho quanto o pai dele, justamente dentro desse jogo de memória e de tempos que o espetáculo propõe", escreveu.
Heloísa Perisse com o diretor Gustavo Barchilon, Daniela Stirbulov e Bruno Garcia
Priscila Prade/Reprodução/Instagram
E falou ainda sobre ter escalado outro ator com deficiência, Luciano Mallmann, para interpretar um papel secundário na história.
"Também acho importante dizer que temos, sim, uma pessoa com deficiência no elenco.
O Luciano, um ator maravilhoso, que está ali justamente sem que sua deficiência defina o personagem.
Ele interpreta um médico, desconstruindo esse tipo de estereótipo e ocupando o palco simplesmente como o grande ator que é.
Como diretor e idealizador do projeto, fiz questão de vir aqui pessoalmente esclarecer isso para você, porque entendo a sua colocação e não gostaria que ficasse uma impressão equivocada sobre uma questão que tratamos com muito cuidado.
Talvez algumas dessas informações não tenham chegado até você, mas fico feliz de poder explicar melhor e contextualizar a escolha".
Intérprete do protagonista da história, Hugo Bonemer diz que discussões internas sobre o assunto foram feitas desde o início do processo
"Querido Tato, a crítica é séria e eu não vou tratar como bobagem.
O Marcelo, no espetáculo, é vivido antes e depois do acidente que o deixou tetraplégico, e essa construção também é parte do que estamos discutindo internamente", escreveu o ator, que se colocou à disposição para conversar com o autor do desabafo.
