Entidades ligadas ao setor agropecuário dos Estados Unidos criticaram a medida anunciada pelo governo Trump de importar 300 mil toneladas de carne bovina nos próximos 90 dias, numa tentativa de amenizar os preços recordes da carne moída.
A medida foi anunciada na última sexta-feira (21) pelo próprio presidente Donald Trump, em postagem na rede social Truth Social.
A American Farm Bureau Federation, uma das principais entidades do setor, encaminhou nesta quarta-feira (26/8) uma carta ao presidente Donald Trump pedindo que reconsidere a sua estratégia.
A entidade afirma que o momento escolhido pode prejudicar os pecuaristas que estão decidindo se expandem ou não os seus rebanhos, num momento em que os EUA enfrentam uma retração na produção de carne bovina.
"Estima-se que 70% dos bezerros nascidos na primavera sejam vendidos entre setembro e novembro, período que coincide com a janela de aumento das importações", diz a entidade, em comunicado.
"Um excesso de oferta de carne bovina estrangeira poderia derrubar os preços pagos aos pecuaristas justamente quando decisões cruciais para o negócio agropecuário estão sendo tomadas."
Na carta a Trump, o presidente do Farm Bureau, Zippy Duvall, diz que reduzir o preço do gado não fará cair o preço da carne bovina para as famílias americanas, como afirma Trump.
"Pelo contrário, isso desestimulará os agricultores e pecuaristas americanos a realizar investimentos de longo prazo na recomposição dos rebanhos, prolongando o ciclo de oferta restrita de gado, altos custos de produção e preços elevados da carne para o consumidor", resume.
A opinião é compartilhada por outras entidades do segmento.
O presidente da Nacional Cattlemen's Beef Association (Associação Nacional dos Pecuaristas de Gado de Corte), Colin Woodall, disse que a entidade está "decepcionada com a declaração do presidente".
"Embora os pecuaristas americanos compartilhem o objetivo de manter os preços dos alimentos acessíveis aos consumidores, inundar o mercado com carne bovina subsidiada pelo governo e vendida abaixo do preço de mercado não é a maneira de reconstruir o rebanho bovino americano", afirmou.
Na avaliação da National Milk Producers Federation (Federação Nacional dos Produtores de Leite), a medida terá consequências tanto para os produtores de gado de corte quanto de leite dos EUA.
"A decisão traz o risco de reduzir o preço que os produtores de leite recebem por suas vacas de descarte e de aumentar os lucros dos exportadores estrangeiros de carne bovina, tudo isso em troca de uma redução potencialmente insignificante no preço do hambúrguer moído no varejo", protestou o presidente da entidade, Gregg Doud.
A entrada das 300 mil toneladas de carne bovina nos EUA será permitida sem aplicação de tarifas sobre volumes que excedam as cotas dos países fornecedores.
Analistas ouvidos pelo Valor acreditam que o Brasil tem condições de atender de 30% a 40% desse volume.
