Mesmo em meio ao elenco estelar e numeroso reunido por Christopher Nolan para “A Odisseia”, John Leguizamo se destaca.
No papel de Eumeu — o servo cego que aguarda o retorno de Odisseu (Matt Damon) enquanto zela pela esposa (Anne Hathaway), pelo filho (Tom Holland) e pelo cachorro idoso de seu senhor —, Leguizamo entrega uma atuação que alterna entre a perspicácia e a comoção profunda.
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A carreira do ator, hoje com 66 anos, é repleta de grandes produções, incluindo “Moulin Rouge - Amor em vermelho” e as animações de sucesso “A era do gelo” e “Encanto”.
Ainda assim, “A Odisseia” se diferenciou desde o início.
“Isso é muito maior do que qualquer coisa que já fiz”, disse Leguizamo, cuja transformação para o papel incluiu lentes de contato especiais que o deixavam praticamente sem visão.
“A Odisseia” parece pronto para uma trajetória de sucesso na temporada de premiações, o que pode incluir o nome de Leguizamo; por enquanto, porém, ele celebra o enorme desempenho do filme nas bilheterias mundiais, sucesso que atribui, em parte, à diversidade do elenco.
“O fato do filme ser tão belamente inclusivo significa que, agora, essa história pertence a todos nós”, afirmou ele durante uma chamada de vídeo na semana passada.
John Leguizamo em cena como Eumeu em "A Odisseia"
Divulgação / Universal Pictures
É impressionante como você consegue fazer com que nos afeiçoemos a Eumeu, logo depois de ele ser apresentado jogando um filhote de cachorro de um penhasco.
Acredita? Eu pensei: "Vou ser a pessoa mais odiada da história do cinema!" Era o que faziam com os filhotes mais fracos da ninhada naquela época; só os fortes sobreviviam.
Mas o filhote estava seguro; havia alguém com um cobertor macio pronto para pegá-lo, logo fora do enquadramento da câmera.
Ajuda, é claro, o fato de seu personagem criar um vínculo tão forte com o cachorro que sobreviveu.
Argos! É uma raça antiga chamada Podengo Português.
Eu o chamo de "Portuguese pendejo".
Isso é espanhol para...
Eu sei o que isso significa em espanhol.
Não é a raça mais inteligente do mundo.
Restam apenas 75 desses cães — é uma raça extremamente antiga.
Mas ele não era nada agressivo; é um doce.
Eu uso o Método, então passei muito tempo com o cachorro, abraçando-o, beijando-o, tentando fazer dele meu melhor amigo.
Você sabe por que essa raça foi escolhida?
Porque é a raça mais antiga, a que mais se aproxima daquelas que os gregos teriam.
O Nolan é muito rigoroso com os detalhes, e eu o respeito muito por isso.
Ele fica atrás da câmera; você sente que ele está ali com você.
Isso me fez sentir ouvido, visto e protegido, porque, neste filme, fui a lugares aonde normalmente não vou — como chegar perto de um colapso emocional.
Isso cobra um preço de você?
Eu uso o Método e acredito que você realmente precisa vivenciar algo; não dá para fingir.
E eu estudei co Lee Strasberg — clássico ator e professor de arte dramática ucraniano conhecido por popularizar método em que atores mergulham completamente em seus personagens.
Eu matei o Lee Strasberg.
Ele morreu depois que você fez a aula dele?
Eu estava na aula dele e fiz um exercício de memória sensorial tão ruim que ele não sobreviveu.
Ele faleceu naquela noite; que descanse em paz.
Então, é...
acredito que a gente precisa passar por isso, mas senti que estava em boas mãos com o Chris; por isso, consegui acessar lugares realmente assustadores dentro de mim e trazer à tona muita dor.
No fim das contas, é algo que cura, porque você põe tudo para fora.
É melhor deixar sair do que guardar tudo dentro de si.
Ator John Leguizamo, de "A Odisseia"
Sam Hellmann/The New York Times
Você está quase irreconhecível neste filme.
Eu vivia dizendo ao Chris: "Olha, nunca mais vou conseguir trabalho.
Todo mundo treina 24 horas por dia, fica com pinta de galã, e eu pareço um testículo".
Mas, quando eu era mais jovem, eu vivia em função de transformações.
Achava que atuar de verdade era justamente isso: distanciar-se o máximo possível de quem você realmente é.
Como você se sentiu antes do seu primeiro dia?
Foi uma mistura de sentimentos.
Eu me sentia incrivelmente preparado e estava nervoso pra caramba.
Você costuma ficar nervoso antes de uma filmagem?
Nunca, eu não sou o tipo de cara que fica nervoso.
Mas Chris Nolan mexe com sua cabeça.
Eu nunca tinha trabalhado com ele antes, então não sabia o que ia acontecer.
Eu tinha que interpretar um velho cego, com todas aquelas nuances emocionais, e ainda por cima a 275 metros acima do nível do mar.
Tiveram que me levar de helicóptero até lá.
Eu estava no topo de um penhasco de onde você pode cair e morrer.
Todas as plantas eram venenosas naquele penhasco.
Eles nos disseram: "Se você quebrar a seiva e encostar nos olhos, vai ficar cego."
Como foi gravar aquelas cenas de alta pressão em IMAX?
Eu nunca tinha trabalhado com uma câmera IMAX.
Pesa 135, 180 quilos, parece um cortador de grama.
No primeiro dia, comecei a gravar minha cena e ele disse: "Você não precisa gritar".
Eu respondi: "Mas eu não consigo me ouvir".
E eles não me avisaram que eram três minutos por tomada.
Quer dizer, eles tiveram que recarregar os rolos de filme durante uma tomada longa?
Eu tinha um discurso de 10 minutos e, de repente, era "Corta!".
Eu pensei: "Meu Deus, será que fiz algo errado? Será que estou estragando tudo?".
E eles me disseram: "Não, precisamos recarregar".
Aí levava uns cinco minutos para recarregar, porque o filme era muito grosso e difícil de manusear, e só uma pessoa no mundo conseguia fazer isso.
Depois, eu tinha que me recompor.
E aí, dois minutos depois, já era "Corta!".
Além da câmera IMAX, imagino que as locações reais e a ausência de tela verde tenham contribuído para isso.
O fato de tudo ser tão prático facilita a atuação dos atores, e os resultados ficam muito mais reais e orgânicos.
É palpável que o que você está vendo na câmera está realmente acontecendo.
Quer dizer, naquela cena incrível com os fantasmas dos soldados mortos, os dublês foram enterrados na areia com snorkels.
É como se cem pessoas tivessem sido enterradas e, de repente, elas reaparecessem.
Meu Deus, é tão fascinante de assistir!
Receio que tenhamos chegado a um ponto crítico em que as pessoas já não acreditam no que veem.
Por isso, um filme como "A Odisseia" ressoa com o público: ele transmite uma sensação de maior realidade e tangibilidade.
Hollywood está começando a adotar a IA, acreditando que ela resolverá as coisas — será mesmo? "A Odisseia" mostra que não é isso que as pessoas realmente querem.
Imagino que você tenha visto Elon Musk dizer que vai criar sua própria versão de "A Odisseia" usando IA.
Pois é, vai ficar lindo.
Vai ser fenomenal.
Boa sorte com essa versão falsa, vazia e sem alma.
Eu simplesmente não entendo as pessoas que se dão ao trabalho de espalhar ódio.
José Martí, o grande poeta e revolucionário cubano, dizia que existem dois tipos de homens: os que criam e os que destroem.
Para mim, esse elenco diverso simboliza o mundo real em que vivemos.
Nós, latinos, representamos 20% da população, mas continuamos praticamente invisíveis, especialmente nos cargos de chefia e nas salas de diretoria das empresas.
Você tem se manifestado bastante, ao longo dos últimos anos, sobre a falta de oportunidades para latinos em Hollywood.
Eu era um jovem muito idealista; acreditava na meritocracia, apesar de vir de uma origem humilde.
Mas, quando estudei na NYU, eu era o único latino nas minhas turmas — o que foi um choque para mim, numa cidade onde a nossa população é equivalente à dos brancos.
O D.B.
Sweeney e o Andrew McCarthy, meus colegas de turma, iam a cinco testes por dia, enquanto eu ia a um a cada cinco meses para fazer papel de traficante ou assassino.
Comecei a perceber que, não importava o que eu fizesse ou quão talentoso eu fosse, jamais teria as mesmas oportunidades que eles.
Era racismo sistêmico o que eu enfrentava há quatro décadas, mas isso acaba afetando você, porque começa a internalizar a ideia de que não é bom o suficiente — caso contrário, teria avançado mais na carreira.
Agora, aos 66 anos, sei que o problema não sou eu; é o sistema.
Em um artigo de 2022 para o Los Angeles Times, você criticou Hollywood por escalar espanhóis como Javier Bardem e Antonio Banderas para papéis de latinos.
Sinto-me um pouco mal, porque não quero expor ninguém negativamente — os artistas são meus colegas.
Mas fico incomodado porque o colorismo em relação aos latinos ainda é uma realidade em Hollywood.
Espanhóis não são latinos; simplesmente não são.
Precisamos de representação de toda a diáspora latina, não apenas de latinos brancos ou daqueles que são lidos como brancos, pois isso equivale, basicamente, a escalar pessoas brancas.
No que diz respeito à representatividade, há jovens artistas que lhe disseram que a sua presença os ajudou?
O Lin-Manuel (Miranda) me disse isso.
O Kris Diaz, que acabou de escrever o roteiro de "Hell’s Kitchen" para a Alicia Keys, e o ator Jorge Lendeborg.
Mas até o Matt Damon veio falar comigo e disse que, quando ele e o Ben Affleck assistiram aos meus espetáculos solo, perceberam: "Meu Deus, se esse cara consegue, nós podemos escrever a nossa própria história" — e eles escreveram "Gênio indomável".
Isso é incrível para mim, porque, quando eu contava as minhas histórias, meu único objetivo era inspirar jovens que se sentiam como eu e que se pareciam comigo.
'Pensei que seria a pessoa mais odiada da história do cinema', diz John Leguizamo após cena jogando filhote de penhasco em 'A Odisseia'
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