Pequenos hábitos incorporados à rotina profissional podem ter consequências maiores do que parecem.
Atrasos frequentes, falta de organização, dificuldade de comunicação, resistência a feedback e pouca iniciativa podem comprometer a avaliação de desempenho e até reduzir as chances de promoção dentro de uma empresa.
Ao mesmo tempo, habilidades comportamentais, como inteligência emocional, colaboração e capacidade de assumir responsabilidades, ganham cada vez mais importância no ambiente corporativo.
Para especialistas em gestão de pessoas, o desenvolvimento profissional não depende apenas da capacidade técnica.
A maneira como o trabalhador se relaciona com colegas e gestores, reage a situações de pressão e demonstra responsabilidade também pode influenciar decisões sobre crescimento na carreira.
Para Raquel Conde, empresária e mentora de líderes, um dos principais diferenciais de quem busca uma promoção é a capacidade de assumir responsabilidades e demonstrar iniciativa para resolver problemas cotidianos sem depender constantemente de orientações da liderança.
“Para um profissional que busca por promoção, é muito importante que ele assuma suas responsabilidades e tenha iniciativa para resolver problemas comuns do dia a dia, sem esperar que a liderança peça”, afirma.
Ela diz que a organização também é uma competência fundamental para o crescimento pessoal e profissional.
A falta dela pode provocar desperdício de tempo, perda de produtividade e retrabalho, além de aumentar o estresse.
Raquel destaca ainda que alguns profissionais têm dificuldade de perceber que determinados problemas podem estar relacionados ao próprio comportamento.
Em vez de avaliar sua participação nas situações, acabam responsabilizando colegas, sistemas ou outros setores e se fecham para críticas.
“Quem consegue organizar seu trabalho para entregar no prazo, mostra uma boa autoimagem com uma comunicação assertiva e disponibilidade para aprender e melhorar, consegue promoção”, afirma.
Outro ponto destacado pela especialista é a capacidade de demonstrar os resultados alcançados.
Segundo Raquel, profissionais tecnicamente muito competentes podem perder espaço para colegas que conseguem comunicar melhor as contribuições que fizeram para a equipe ou para a empresa.
Ela ressalta também que a participação em reuniões e a disposição para apresentar opiniões são importantes.
Para a especialista, ter coragem para se posicionar, inclusive quando a opinião é diferente da maioria, pode ser uma característica valorizada no ambiente corporativo.
Atenção aos sinais
Mesmo quando não existe um feedback formal, o trabalhador pode observar sinais de que determinados comportamentos estão afetando sua imagem.
Raquel recomenda atenção aos comentários feitos por colegas e gestores, inclusive quando aparecem em tom de brincadeira.
Frases como “você sempre se atrasa”, “ninguém entende seus e-mails” ou questionamentos sobre a possibilidade de uma entrega ser feita dentro do prazo podem indicar percepções reais sobre o profissional.
Outro sinal, segundo ela, é observar o nível de confiança dos colegas.
Quando as pessoas procuram determinado trabalhador para pedir ajuda, isso pode indicar que ele é visto como alguém confiável e influente dentro da equipe.
Raquel também recomenda que o profissional avalie a própria responsabilidade diante dos problemas.
Antes de culpar outros setores ou pessoas, é importante verificar se suas próprias tarefas estão sendo realizadas corretamente, dentro dos processos e prazos estabelecidos.
Credibilidade
Na avaliação de Graciete Corrêa, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Pará (ABRH-PA), comportamentos aparentemente pequenos podem comprometer a credibilidade construída pelo profissional.
Ela cita atrasos frequentes, ausências prolongadas sem justificativa, conversas paralelas em momentos inadequados, desorganização e entregas fora do prazo como exemplos de atitudes que podem sinalizar problemas de gestão do tempo e das prioridades.
“Pequenos desvios de conduta no cotidiano corporativo costumam funcionar como micro-vazamentos de credibilidade”, afirma.
Segundo Graciete, a resistência ao feedback e os problemas de comunicação também podem demonstrar baixa maturidade emocional e dificuldade de adaptação.
Esses fatores podem pesar nas avaliações porque uma característica negativa pode influenciar a percepção geral sobre o trabalhador.
Ela explica que esse fenômeno é conhecido como “Efeito Halo Invertido”, quando uma percepção negativa acaba contaminando a avaliação de outras características do profissional.
Dessa forma, uma falha comportamental pode acabar ofuscando até mesmo uma boa capacidade técnica.
Habilidades comportamentais
Para Graciete, as soft skills - habilidades comportamentais e competências interpessoais ligadas à forma como você interage com os outros e lida com os desafios do dia a dia - deixaram de ser apenas um diferencial e passaram a ocupar posição central nas decisões de contratação, permanência e promoção.
As competências técnicas continuam sendo importantes, mas habilidades como inteligência emocional, colaboração, comunicação e capacidade de lidar com conflitos podem determinar quem está preparado para assumir responsabilidades maiores.
“Profissionais com excelência técnica, mas incapazes de colaborar, gerenciar conflitos ou demonstrar autorresponsabilidade, raramente avançam”, afirma.
Ela diz que para as empresas, é mais viável desenvolver determinadas competências técnicas do que modificar comportamentos profundamente desalinhados com a cultura organizacional.
