O comércio ilegal de bens vem mudando de perfil, de atuação e de geografia. Ganhou robustez, organização e articulação, deixando em segundo plano o mercado dos chamados sacoleiros, que contrabandeavam roupas, perfumes e bebidas do Paraguai para o Brasil em ônibus de turismo. O desafio atual não é mais o de conter práticas individuais de pirataria, mas o de combater sistemas consolidados em redes que atuam em cadeias logísticas globais, expandiram fronteiras, estão presentes em instituições e que administram economias ilícitas interligando negócios entre países. Artigos de vestuário, bebidas alcoólicas e combustíveis lideraram o comércio ilegal de produtos em 2025, que vem crescendo, apesar do aumento da fiscalização. Levantamentos realizados por especialistas chegaram a valores ligeiramente distintos, variando de acordo com os setores avaliados e com a amplitude da pesquisa, mas o montante não deixa dúvidas: a pirataria atingiu a casa de meio trilhão de reais em 2025. O Fórum Nacional contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNPC) calculou em R$ 473,2 bilhões os prejuízos de 15 setores em 2025. Em 2014 as perdas foram de R$ 100 bilhões. “É uma progressão geométrica. Há uma sensação de impunidade que permeia a atividade no mercado ilegal. A pena prevista para quem falsifica uma marca é de três meses a um ano. Uma equação econômica de altíssimo lucro, porque as organizações criminosas não pagam impostos, e baixo risco”, diz Edson Vismona, presidente do FNPC. Leia mais: Logística do tráfico de drogas impulsiona o contrabando Pirataria movimenta US$ 467 bi no mundo e expõe falhas na fiscalização Ausência do Estado alimenta a indústria dos ‘gatos’ Fraudes migram rapidamente no setor de combustíveis Projetos no Congresso buscam fechar cerco e ir além das apreensões de mercadorias ilegais Não faltam leis, falta atuação coordenada para combater mercado ilegal A entidade identifica mais 35 setores econômicos que sofrem diretamente com a ilegalidade, mas não dispõem de dados computados. “Portanto, podemos falar em mais de R$ 500 bilhões, se tivéssemos as estimativas desses 35 [setores]”, acrescenta. Nos cálculos da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), os crimes de falsificação, contrabando e sonegação fiscal provocaram um total de R$ 514 bilhões em prejuízos no ano passado, alta de 8% ante 2024. “O aumento se deve a vários fatores. Nossas fronteiras continuam porosas e nossos portos estão desguarnecidos. Os agentes da Receita atuam, mas falta estrutura. Não apreendem nem 6% do volume de mercadoria ilegal que entra no Brasil, apesar do grande trabalho que fazem”, diz Rodolpho Heck Ramazzini, diretor da ABCF. Há uma sensação de impunidade que permeia a atividade no mercado ilegal” O crescimento do sistema criminal, conforme os dois especialistas, ganhou escala com abertura de fábricas clandestinas no país para produção de cigarros, bebidas e, mais recentemente, defensivos agrícolas e medicamentos. No caso de cigarros, fábricas com CNPJ produzem, no Brasil, marcas paraguaias, vendidas em territórios dominados por milícias onde o comércio de produtos legais é proibido pelo grupo que controla o local. Estudo da USP em parceria com o Instituto Ipsos, realizado pela Escola de Segurança Multidimensional (Esem), revelou que cerca de 10 milhões de brasileiros usam cigarros eletrônicos (vapes) e sachês, o que demonstra as proporções atingidas na venda ilegal de produtos de nicotina sem regulamentação da Anvisa. Segundo o professor Leandro Piquet, coordenador da Esem e responsável pela pesquisa, em seis meses, 15,4 milhões de pessoas declararam ter feito uso desses produtos ilícitos. O mesmo ocorre com itens como tênis, bonés e roupas esportivas, fabricados em hubs industriais no mercado brasileiro voltados para a falsificação. Os impactos econômicos da pirataria sobre a economia brasileira são relevantes. De acordo com dados do FNPC, só ano passado R$ 146 bilhões deixaram de ser arrecadados com o comércio ilegal. O problema ganha proporções maiores quando se fala da venda ilegal de camisas esportivas, que já representavam 34% dessa categoria de comércio, no ano passado. No setor têxtil, o número de peças falsificadas vendidas, em 2025, chegou a 225 milhões. A informalidade, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, representa entre 12% e 15% do PIB do país. O comércio ilegal no varejo brasileiro é um dos principais desafios para a fiscalização. No ano passado, conforme a Confederação Nacional do Comércio (CNC), as perdas atingiram R$ 179,3 bilhões nos setores de combustíveis, vestuário, eletroeletrônicos e farmácias. Isso equivale a 1,5% do PIB nacional e a 13,8% das vendas legais nesses mesmos setores - ou seja, para cada R$ 100 vendidos formalmente, o mercado ilegal movimenta mais R$ 13,80 à margem da lei. A perda de arrecadação atingiu R$ 74,8 bilhões, equivalente a 12% de toda a arrecadação federal no ano.
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Perdas com mercado ilegal chegam a meio trilhão de reais
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