'Pertencimento e valorização': Gaby Mendes é a primeira rainha de bateria da Mocidade oriunda da ala de passistas

Fonte: Bandeira da fonte

Foi na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel que Gaby Mendes deu os seus primeiros passos no samba, ainda na infância.
Também foi lá que a jovem mostrou que "transformar o sonho em realidade e sonhar com a Mocidade" — como diz o famoso samba-enredo da verde e branca — realmente é algo a ser feito com o pé no chão e sambando bastante.
No último sábado, um desejo antigo dela com a escola ganhou vida: Gaby assumiu o trono de rainha de bateria, sendo a primeira mulher oriunda da ala de passistas a estar à frente do posto na Mocidade.

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Gaby foi musa da verde e branca no carnaval passado e já era cotada como favorita da comunidade para ficar com a coroa, que estava em posse de Fabíola Andrade, esposa de Rogério de Andrade.
O anúncio da passagem de bastão aconteceu durante a semifinal da disputa de samba da Mocidade, na quadra principal da escola, localizada em Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio.

— Foi uma surpresa porque eu não sabia.
Saíram especulações, mas, como não foi a escola que postou, não era nada oficial, e, na noite da semifinal, fui pega de surpresa — contou Gaby, que teve a coroação anunciada por Fabíola, a antiga rainha, com quem afirma ter uma boa proximidade e nenhuma rixa: — Minha relação com a Fabíola é maravilhosa.
Temos um carinho imenso uma pela outra.
Admiro muito a Fabíola.
Ela costuma dizer que sou filha dela.
Eu acho que esse carinho é muito importante, porque foi uma passagem de coroa muito respeitosa, sem rivalidade, que mostrou o respeito que temos pela comunidade.

Passagem de bastão
A noite que anunciou a posse de Gaby também foi repleta de homenagens à Fabíola, que agora ocupará o cargo de rainha da Mocidade.
A loira, casada com o patrono e bicheiro Rogério Andrade, preso desde 2024 no Mato Grosso do Sul, passa o antigo posto para Mendes após sambar à frente dos ritmistas da Mocidade nos últimos três anos.

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— Não foi uma decisão tomada de forma impulsiva.
Preciso dar atenção aos meus filhos.
Amo a bateria, tenho uma história muito bonita ali e vou continuar sempre muito ligada a ela.
Senti muito no começo, porque é uma função que exerci com muito amor, mas, com a graça de Deus, fui entendendo que esse novo lugar também poderia ser muito especial.
Ser rainha da escola me permite estar presente de uma maneira diferente, não apenas em um segmento, mas representando a Mocidade como um todo — Fabíola explica a transição para o novo cargo.

Andrade nega especulações de que a decisão de deixar o posto de rainha de bateria seja motivada por desentendimentos entre componentes ou familiares.
Segundo ela, a escolha foi motivada pela sua necessidade de conciliar a vida profissional com a maternidade de seus dois filhos.
Fabíola reforça também que guarda uma boa relação com a nova rainha da bateria.

— Fico muito feliz pela Gaby.
Me vejo nela quando comecei.
Ela é cria da Mocidade, tem uma história com a escola e merece viver esse momento.
Acho que uma escola forte é aquela que sabe valorizar quem vem de dentro e também entende que cada pessoa tem o seu momento.
Torço muito por ela e quero vê-la brilhando à frente da nossa bateria — diz Fabíola.
A 'Estrelinha' que conquistou o carnaval
Coroação de Gaby Mendes na quadra da Mocidade
Divulgação/Mocidade
Gaby é moradora de Bangu, mas passou grande parte dos seus 23 anos nas instalações da Mocidade, no bairro vizinho, onde aprendeu a sambar e a sonhar com uma vida no carnaval.
Aos 5, ela entrou no Passos da Zona Oeste, projeto da verde e branca voltado ao ensino do samba.
Três anos depois, aos 8, Mendes passou a integrar a escola de samba mirim Estrelinha, coordenada pela Independente de Padre Miguel.

Sob a orientação do coreógrafo George Louzada, instrutor de samba da verde e branca, a jovem passou a compor a ala de passistas na adolescência e começou a desfilar na escola principal.
Ela permaneceu no segmento até 2024, quando venceu o concurso de Rainha do Carnaval do Rio de Janeiro e esteve na Corte do Rei Momo durante os eventos carnavalescos.
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Naquele ano, Gaby também passou a coordenar a ala de passistas mirins da Estrelinha, função que assumiu até 2025 e a levou a um reencontro com os seus primeiros passos no samba:
— Assim que saí da corte, eu fui chamada para ser coordenadora da aula de passistas da Estrelinha, a qual eu já passei.
Lá o George me moldou, e tudo que ele me ensinou passei para as meninas.
Foi muito importante para mim, porque olhar para as meninas era como se eu me visse nelas.
Eu sentia aquele carinho, aquele amor, aquela dedicação que o George passava para a gente quando eu fazia aula com ele.

Ainda em 2024, Mendes foi convidada para ser musa da Mocidade nos preparativos para o carnaval de 2025.
o trouxe destaque para a jovem e a aproximou ainda mais da comunidade, que passou a pedir que Gaby fosse a sucessora de Fabíola, desejo concedido e celebrado.

— A Mocidade é a minha maior paixão, é a minha família, meu coração.
A minha relação com a comunidade sempre foi muito carinhosa, e aumentou desde que eles acompanharam a minha jornada no concurso como rainha do carnaval.
A gente tem essa troca de amor e carinho, nos entendemos bem porque é tudo muito recíproco.
Assumir o cargo de rainha, sendo cria da comunidade, me traz uma sensação de pertencimento e valorização — afirma a sambista.
Rainha multifacetada
Além da dedicação à verde e branca de Padre Miguel, Gaby concilia tempo com a família com outros planos profissionais.
A rainha de bateria, que mantém um relacionamento discreto, é mãe de um menino de 1 ano, administra uma loja de essências perfumadas e sonha em ser biomédica.

— Estou voltando para minha faculdade, vou fazer biomedicina.
Eu acho que o estudo é muito importante para a vida e eu quero continuar os meus.
Além disso, eu estou nesse ramo artístico de trabalhar com carnaval.
Ganho o meu dinheiro e vou para outros países dando workshops de samba.
E também me descobri empreendendo: tenho a minha loja de aromas — diz Gaby.
Mendes acredita que dedicação é o segredo para levar essa rotina cheia de forma bem-sucedida.
Agora, com o posto de rainha de bateria, a jovem encarará um desafio a mais, porém o clima é só de animação:
— Agora o foco vai ser bem mais centrado em preparação física, preparação mental e em preparar o meu samba para evoluir mais e poder entregar um trabalho à altura da bateria Não Existe Mais Quente (nome da bateria da Mocidade) merece.
E, com certeza, vou estar presente em todos os ensaios e apresentações.
As expectativas para o desfile são as melhores, porque estamos falando de um enredo que enaltece o nosso povo e a nossa cultura — completa.

Em 2027, a Mocidade levará para a Avenida o enredo “Latinamente Independente — Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”.
A verde e branca promete abordar uma discussão sobre identidade latino-americana, hegemonia cultural e reparação histórica.
E a música que embalará o desfile da agremiação será definida no próximo sábado, na final de samba, que acontecerá na quadra da Vila Vintém.