Um tipo raro de célula de defesa do organismo se torna consideravelmente mais comum no sangue de pessoas que ultrapassam os 100 anos de idade, segundo um estudo publicado revista científica Cell Reports.
A descoberta, conduzida por pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, ajuda a explicar por que centenários e supercentenários costumam apresentar menos casos de câncer e outras doenças associadas ao envelhecimento do que idosos mais jovens.
A célula é conhecida como linfócito T citotóxico CD4, ou CD4 CTL na sigla em inglês.
Ela é incomum e normalmente representa menos de 5% do total de linfócitos T circulando no sangue de uma pessoa em qualquer fase da vida.
Mas os pesquisadores descobriram que essa proporção dispara à medida que a idade avança para além dos 100 anos.
Célula com dupla função
Os linfócitos T fazem parte do sistema imunológico adaptativo, aquele que aprende a reconhecer ameaças específicas ao longo da vida de uma pessoa, em vez de reagir de forma genérica como o sistema imune inato.
Eles circulam pelo sangue e por órgãos linfáticos, prontos para identificar células infectadas por vírus ou alteradas por mutações que podem levar a tumores.
O sistema imunológico humano organiza os linfócitos T em duas categorias: as células auxiliares, que coordenam a resposta imune identificando ameaças, e as células citotóxicas, que eliminam diretamente células infectadas, danificadas ou cancerosas.
O CD4 CTL foge dessa divisão.
Ele nasce como célula auxiliar, mas, ao longo do tempo perde duas proteínas de superfície chamadas CD27 e CD28 e passa a se comportar como uma célula "matadora", mantendo ao mesmo tempo parte de sua função original de reconhecimento de ameaças.
Para chegar a essa conclusão, a equipe analisou amostras de sangue de 28 pessoas divididas em três grupos etários: oito indivíduos entre 70 e 90 anos, dez centenários e dez supercentenários, ou seja, pessoas com mais de 110 anos.
A proporção mediana de CD4 CTLs entre os mais jovens do estudo foi de 4%.
Entre os centenários, subiu para 9,6%.
Já entre os supercentenários, chegou a 17,6%, mais de quatro vezes o nível observado no grupo mais jovem.
Um dos achados mais relevantes do estudo é que essas células permanecem ativas mesmo em idade avançada.
Em geral, células de defesa tendem a perder eficácia com o tempo, um fenômeno chamado exaustão imunológica.
Os CD4 CTLs encontrados nos participantes mais velhos, porém, não mostraram esse padrão de desgaste.
A equipe também observou um processo de expansão baseado em clonagem.
Cerca de 33% dos CD4 CTLs analisados eram cópias de uma única célula original, sinal de que o organismo os multiplicou em resposta a uma ameaça persistente.
Em um dos centenários estudados, quase metade dessas células vinha do mesmo clone.
"O envelhecimento imunológico não é simplesmente um processo de declínio", afirmou o bioinformata Kosuke Hashimoto, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade de Osaka, em comunicado divulgado pela instituição.
Segundo ele, a expansão seletiva desse tipo de célula sugere que o sistema imune continua se adaptando a desafios relacionados à idade mesmo em pessoas muito idosas.
Uma pista sobre o câncer, não uma cura
O estudo atual dá continuidade a uma pesquisa anterior, publicada em 2019 na revista PNAS pela mesma equipe, que já havia identificado a presença desses linfócitos em supercentenários japoneses.
Na nova etapa, os cientistas também compararam o material genético dos receptores dessas células com sequências encontradas em células T de tumores e notaram semelhanças que sugerem que os CD4 CTLs podem ser capazes de reconhecer células cancerosas antes mesmo de um tumor se tornar detectável clinicamente.
Os autores fazem uma ressalva importante: o estudo analisou apenas células circulando no sangue, não o comportamento delas dentro de tecidos específicos do corpo, e não prova que a presença dessas células proteja contra câncer ou seja responsável pela longevidade dos participantes.
Os próximos passos da pesquisa, segundo os cientistas, envolvem identificar exatamente quais alvos essas células reconhecem nos tecidos humanos e testar se elas são de fato capazes de eliminá-los.
Supercentenários são raros: estima-se que existam cerca de 150 pessoas nessa faixa etária espalhadas pelo Japão, país com uma das maiores concentrações desse grupo no mundo, o que torna estudos como esse difíceis de reproduzir em larga escala.
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