Pode chover granizo de novo no Recreio? Meteorologistas explicam fenômeno e esclarecem; vídeos mostram a força do gelo - QTU Questões do Universo

Pode chover granizo de novo no Recreio? Meteorologistas explicam fenômeno e esclarecem; vídeos mostram a força do gelo

Fonte: Bandeira da fonte

O temporal que atingiu o Rio na noite de sábado (29) levou chuva de granizo ao Recreio dos Bandeirantes e trechos da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste.
O fenômeno chamou a atenção de moradores e ganhou registros em vídeos nas redes sociais.
Segundo meteorologistas ouvidos pelo GLOBO, uma combinação de fatores favoreceu a formação das pedras de gelo, e podem haver novas ocorrências.
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Em um vídeo publicado nas redes sociais, moradores mostraram a intensidade do granizo que atingiu o bairro e reclamaram da ausência de alertas da Defesa Civil.
O órgão, no entanto, enviou alertas de pancadas de chuva e vento forte na noite de sábado, como atestaram alguns internautas ao comentar as imagens.

Segundo meteorologistas, o aquecimento registrado nos últimos dias ajudou a fornecer energia para a formação de tempestades, mas o calor, sozinho, não provoca granizo.
— Quando temos temperaturas muito elevadas próximas à superfície e, ao mesmo tempo, a entrada de umidade e alguma instabilidade em níveis mais altos da atmosfera, aumenta a diferença de temperatura entre as camadas e se favorece a formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical — explica a meteorologista Andrea Ramos.
A meteorologista explica que essas nuvens são do tipo cumulonimbus, associadas a temporais, raios, rajadas de vento e granizo.
Dentro delas, correntes de ar ascendentes podem ser fortes o suficiente para levar gotículas de água a regiões muito frias da atmosfera.
As gotas congelam e, enquanto permanecem suspensas, podem ganhar tamanho.
Quando ficam pesadas demais, caem como pedras de gelo.
— Quando uma nuvem de tempestade cresce muito rapidamente, as correntes de ar dentro dela conseguem levar gotículas para regiões muito frias, onde congelam e formam pedras de gelo.
Foi provavelmente um episódio bastante localizado, o que é típico do granizo: ele pode atingir um bairro e praticamente não ocorrer no bairro ao lado — diz Andrea.
O meteorologista Thiago Sousa, doutor pela Uerj e integrante da Defesa Civil de Nova Iguaçu, também relaciona o temporal de sábado à combinação entre o calor acumulado e áreas de instabilidade sobre o estado.
Segundo ele, as mesmas condições ajudaram a provocar as rajadas de vento registradas naquela noite.
No Aeroporto Santos Dumont, a velocidade chegou a 72 km/h às 21h.
A estação da Marambaia registrou 61,6 km/h, enquanto o Aeródromo de Santa Cruz marcou 57,4 km/h.
— O ar quente e úmido subiu rapidamente, formando nuvens de grande desenvolvimento vertical.
Dentro delas, as correntes ascendentes fortes carregam as gotas de água para camadas muito frias da atmosfera, onde congelam e crescem até ficarem pesadas demais para se sustentar — explica Sousa.

Pode acontecer de novo?
Os meteorologistas afirmam que novas ocorrências de chuva de granizo são possíveis, especialmente quando houver condições favoráveis à formação de tempestades.
O fato de o Recreio ter registrado o fenômeno novamente, depois de um episódio semelhante em 2024, como publicou o GLOBO, no entanto, não significa necessariamente que o bairro esteja passando por um aumento na frequência do fenômeno.
— Dois episódios em anos diferentes mostram que é possível ocorrer ali, mas não significam, por si só, aumento permanente da frequência — afirma Andrea.
Thiago Sousa destaca ainda que o Rio está entrando na transição entre o fim do inverno e o início da primavera, período em que o aquecimento durante o dia pode favorecer a formação de tempestades quando encontra umidade e instabilidade.
— É por isso que granizo nessa época do ano é um fenômeno esperado, não uma anomalia — diz.
Apesar de o episódio ter sido registrado no Recreio e haver relatos na Barra, não existe uma região do Rio que seja, por suas características, imune ou especialmente propensa à ocorrência de granizo, explica o especialista.
— Todas as zonas do Rio têm a mesma chance de ocorrência de granizo.
A chuva de granizo depende de onde a célula de tempestade se forma e se desloca — afirma.
El Niño
O granizo registrado no sábado também não deve ser atribuído diretamente ao El Niño, segundo os meteorologistas.
O fenômeno climático, que ocorre a partir do aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, atua em uma escala muito maior e pode alterar padrões atmosféricos e de chuva em diferentes regiões do planeta.
A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), agência científica do governo americano, lembra Andrea Ramos, prevê mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte nos próximos meses, com 69% de chance de que o episódio seja o mais intenso desde 1950, segundo o Inmet.
Mas, para explicar uma tempestade localizada no Recreio, os fatores imediatos são outros.
— O El Niño pode modificar o ambiente climático e favorecer determinadas configurações atmosféricas em escala sazonal, mas não explica sozinho uma tempestade de granizo em um bairro específico.
Para esse episódio, os fatores imediatos são calor intenso, umidade, instabilidade atmosférica e fortes movimentos verticais dentro da nuvem — explica Andrea.
Thiago reforça que o granizo pode ocorrer durante anos de El Niño, La Niña ou em períodos neutros.
Ou seja, o fenômeno climático de grande escala pode influenciar as condições gerais da atmosfera, mas não funciona como um gatilho direto para a formação das pedras de gelo.
O tempo ainda deve permanecer instável no começo desta semana.
A previsão para o Recreio dos Bandeirantes indica possibilidade de chuva nesta segunda-feira (31), com pancadas à tarde e à noite, e chuva mais frequente terça (1º) e quarta-feira (2).