Parte de um foguete Falcon 9, da SpaceX, colidiu com a Lua na madrugada desta quarta-feira (5).
O objeto, com cerca de quatro toneladas, viajava a aproximadamente 8.700 km/h, velocidade suficiente para abrir uma nova cicatriz na superfície do satélite.
O astronauta canadense Chris Hadfield estimou a formação de uma cratera de cerca de 27 metros de largura e 5 metros de profundidade.
O impacto não teve brilho suficiente para ser visto a olho nu, embora haja alguma expectativa de observação por telescópios.
Bill Gray, desenvolvedor do Project Pluto e um dos primeiros a identificar a possibilidade de colisão, disse ao New York Times que o ponto de impacto oferece ao menos alguma chance de observação, ainda que a visibilidade seja incerta.
A Lua já está acostumada
Mas o episódio não é inédito na história da exploração espacial.
Há décadas, partes de naves, foguetes e sondas humanas atingem a Lua — algumas de forma planejada, outras por acidente.
Segundo Hadfield, mais de 800 objetos fabricados por humanos já se chocaram contra o satélite.
O número, porém, é pequeno diante dos impactos naturais: meteoritos produzem dezenas de milhares de crateras semelhantes todos os anos.
A própria Nasa usou colisões lunares como ferramenta científica durante o programa Apollo.
Nos anos 1970, a agência direcionou deliberadamente estágios dos foguetes Saturno V contra a Lua para gerar vibrações detectáveis por sismógrafos deixados na superfície.
Cratera formada pelo impacto do propulsor Saturn IVB, da Apollo 14
NASA/GSFC/Arizona State University
Compreender a física desses impactos pode ser crucial para as pessoas que viverão na Lua no futuro.
Se um impacto ocorresse nas proximidades de uma base lunar, os detritos da colusão poderiam causar danos em máquinas e habitats essenciais para a sobrevivência dos astronautas.
As partículas, que estariam viajando a centenas de quilômetros por hora pelo espaço, também poderiam perfurar os trajes espaciais desses astronautas — fazendo com que todo o ar dentro deles saísse rapidamente, não deixando nada para respirar.
Nova onda de colisões
Nos últimos anos, esse histórico ganhou novos capítulos com a retomada da corrida lunar por governos e empresas privadas.
Em 2022, por exemplo, uma parte do foguete chinês Chang Zheng 3C atingiu o lado oculto da Lua.
Cratera dupla formada quando parte do foguete chinês Chang Zheng 3C se chocou contra a Lua
NASA/GSFC/Arizona State University
Já o estágio do Falcon 9 agora em rota de colisão foi lançado em 15 de janeiro de 2025 para enviar dois módulos lunares, o Blue Ghost, da Firefly Aerospace, e o Resilience, da japonesa Ispace.
O Blue Ghost conseguiu pousar na face visível da Lua; o Resilience acabou colidindo com a superfície.
Depois de liberar os dois módulos em direção à Lua, o estágio superior do Falcon 9 continuou em uma órbita ampla ao redor da Terra.
Astrônomos amadores passaram a rastreá-lo, e Gray acompanhou sua trajetória.
Segundo ele, já era claro que a órbita cruzaria a da Lua, tornando provável uma passagem próxima ou um impacto.
No fim do verão do ano passado, os cálculos indicavam que a colisão era bastante provável, mas Gray só tornou a previsão pública em abril, quando conseguiu estimar com mais segurança a região do choque.
Aumento preocupa comunidade científica
O caso também reforça uma pauta levantada pela Open Lunar Foundation, mencionada no post de Hadfield: a falta de um registro confiável e compartilhado sobre objetos e atividades na Lua.
A organização desenvolve o Lunar Ledger, uma base global e aberta voltada a rastrear missões, artefatos e operações lunares.
Segundo a Open Lunar, o projeto busca aumentar a transparência, melhorar a coordenação entre governos, empresas e instituições de pesquisa e reduzir riscos operacionais em um ambiente que deve ficar cada vez mais movimentado até 2030.
De acordo com Hadfield, a Lua não tem vida nem um ecossistema a ser perturbado, mas a intensificação das missões torna necessário saber com mais precisão o que a humanidade está deixando para trás.
*Com supervisão de Daniel Pinheiro
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