A gente sabe que precisa comer melhor, fazer atividade física, dormir bem e controlar o estresse.
Informação, portanto, não parece ser o problema.
Mesmo assim, entre saber o que fazer e colocar em prática existe um abismo.
Por que pessoas informadas, inteligentes e motivadas começam mudanças importantes, mas tantas vezes não conseguem sustentá-las? A resposta mais comum é: falta disciplina, força de vontade, foco.
Quem abandona a academia não se esforçou o suficiente.
Quem voltou a comer como antes “não teve determinação”.
Mas essa explicação ignora uma parte importante da história: as condições em que aquela pessoa está tentando mudar.
É nesse ponto que Viviane Canziani Pagani, pesquisadora em mudança de comportamento e gestora de estilo de vida saudável concentra seu trabalho.
Fundadora do Miami Institute of Knowledge (EUA), ela desenvolveu a Teoria do Ponto Cego, uma proposta que busca explicar por que uma mudança pode funcionar em determinada fase da vida e fracassar em outra.
A ideia é: toda mudança exige recursos, e eles não são infinitos nem permanecem iguais.
Temos diferentes níveis de energia, disposição, equilíbrio emocional, tempo, organização e apoio.
Ao mesmo tempo, cada meta impõe uma demanda.
— Antes de perguntar o que uma pessoa deve fazer, precisamos entender se ela dispõe, naquele contexto, da capacidade necessária para sustentar a mudança — diz Viviane.
Pense em alguém que decide começar a se exercitar indo à academia cinco vezes por semana.
A meta pode ser adequada em teoria, mas talvez não seja para aquela pessoa naquele momento.
Se ela está dormindo mal, trabalhando demais e sob forte pressão, acrescentar cinco treinos à rotina pode ultrapassar sua capacidade disponível.
Isso não significa desistir.
Talvez seja preciso começar de outro lugar.
Na Teoria do Ponto Cego, Viviane considera quatro dimensões que interferem nessa capacidade.
A primeira é o corpo: energia, sono, dores e recuperação.
A segunda é a mente: como lidamos com estresse, emoções e frustrações.
A terceira é o propósito: a mudança faz sentido ou é apenas uma obrigação? E a quarta é o ambiente: há tempo, organização, apoio e condições para realizá-la?
É uma forma de escapar do pensamento do tudo ou nada.
Em vez de sair de uma rotina sedentária para cinco dias de academia, talvez seja mais sustentável começar com dois.
Em vez de mudar toda a alimentação, escolher uma alteração possível.
Em vez de exigir mais esforço de alguém exausto, talvez seja necessário recuperar o sono primeiro.
— A sustentabilidade da mudança nasce do equilíbrio entre aquilo que a ação exige e aquilo que a pessoa consegue manter — diz.
A proposta tira a culpa, mas não a responsabilidade individual.
Troca o julgamento por uma pergunta mais útil: o que está dificultando essa mudança e o que pode ser ajustado?
O ponto cego estaria em planejar a vida a partir daquilo que gostaríamos de conseguir, sem olhar para aquilo que efetivamente conseguimos sustentar.
Quando a demanda da mudança fica muito acima da capacidade disponível, cresce o risco de abandono.
A proposta para uma estratégia mais realista é questionar: o que eu consigo sustentar neste momento? Às vezes será preciso fortalecer a capacidade: dormir melhor, reduzir sobrecargas, organizar a rotina.
Em outras, diminuir a exigência.
Ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo, aos poucos.
— A interrupção de um plano não deve ser interpretada como fracasso pessoal; muitas vezes ela reflete um descompasso entre a meta e os recursos do momento —afirma.
Isso vale para a academia, para a alimentação e para qualquer mudança de estilo de vida.
Também vale para o envelhecimento.
À medida que a vida muda, nosso corpo, nossa rotina e nossas responsabilidades mudam com ela.
Uma estratégia sustentável deve acompanhar essas transformações.
Por que é tão difícil mudar?
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