Eventos climáticos como o vendaval da última quarta-feira, que pegou a população de surpresa devido a alertas tardios das autoridades, evidenciaram que um sistema de nowcasting — de previsão a curtíssimo prazo — poderia ter evitado situações de perigo e mortes.
O modelo foi usado na Copa do Mundo deste ano, nos Estados Unidos, no México e no Canadá, para evacuar estádios diante da chegada de tempestades e raios.
Especialistas afirmam que, para implantá-lo, o Rio precisa consolidar uma mesorrede meteorológica, um conjunto de estações, radares e sensores distribuídos a distâncias menores, capazes de captar mudanças rápidas na atmosfera.
No que se refere a um dos pilares dessa rede, o estado está aquém do esperado, segundo especialistas.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) tem apenas 26 estações meteorológicas automáticas implantadas no Rio.
Elas medem temperatura, umidade do ar, pressão atmosférica e chuva, além de direção e velocidade dos ventos.
De acordo com parâmetros da Organização Meteorológica Mundial (OMM), porém, o território fluminense deveria ter quase o dobro: 49 estações.
Seria a quantidade necessária para alcançar uma rede de observação com, em média, 15 a 30 quilômetros separando uma unidade da outra.
Para piorar, a estação do Forte de Copacabana, na Zona Sul do Rio, está com defeito.
A previsão de conserto é para a próxima semana.
Compra de sensores
Já o número das também necessárias estações convencionais — operadas por profissionais que verificam temperatura, pressão e velocidade do vento, transmitindo esses dados a órgãos centrais — caiu de 11 para sete nos últimos seis anos.
Ontem, o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, anunciou a compra de dois “sensores de vento” para as estações meteorológicas da capital.
— O orçamento já está autorizado para comprarmos.
É hora de, realmente, olharmos para frente, aprimorando esses controles.
Vamos investir mais nas estações, para que elas sejam mais sensíveis ao vento e consigam emitir alertas no menor espaço de tempo, para que tenhamos mais condições de tomar decisões e informar a população — disse Cavaliere, sem detalhar quanto vão custar nem as datas de instalação.
Ernani de Lima Nascimento, meteorologista da Divisão de Satélites e Sensores Meteorológicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pondera que o número de estações automáticas não é a única condição para a consolidação de uma mesorrede.
Ele lembra, por exemplo, que é preciso ter profissionais capacitados para decodificar as máquinas.
— É sempre importante investir em sistema de acompanhamento 24 horas com meteorologistas capacitados para extrair o máximo da informação, especialmente dos radares meteorológicos.
O tipo de dado que eles fornecem requer treinamento específico — explica Nascimento.
Quanto aos super-radares, a capital do Rio está bem servida: dois pertencem à prefeitura.
O mais recente, o do Mendanha, custou R$ 6,8 milhões.
O outro está no Morro do Sumaré, no Alto da Boa Vista.
Há ainda o de Niterói, que atinge a capital; outros dois do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), em Pedra de Guaratiba e em Macaé; e o do Departamento de Controle do Espaço Aéreo, da Força Aérea Brasileira, em Petrópolis.
A conjunção única entre os morros e o mar — especificidade que conferiu ao Rio o título de Patrimônio Mundial da Unesco — exige um olhar ainda mais atento para os efeitos dessas mudanças climáticas.
Se superondas chegam ao asfalto, a população e os comerciantes amargam as consequências.
Ainda não existem protocolos para lidar com a incidência de ressacas, tão comuns na orla carioca.
O que o Centro de Operações e Resiliência (COR), da Prefeitura do Rio, faz atualmente é reproduzir avisos sobre o tamanho das ondas emitidos pela Marinha do Brasil.
Há avisos de ressaca, mas pouca informação sobre quais praias serão mais atingidas e sobre o que se pode esperar.
Falta ainda monitoramento, segundo Flavia Moraes Lins de Barros, geógrafa da UFRJ.
Ela ressalta que fenômenos intensos também chegam pelo mar.
— Se a ventania de quarta-feira tivesse sido acompanhada por ressacas, os estragos poderiam ser maiores.
Ainda não há sistemas de alerta específicos para ressacas como o protocolo de calor, por exemplo.
O atual sistema da Marinha não é um modelo de alerta de impactos — diz a especialista.
De olho no mar
A cidade também tem apenas um marégrafo (medidor de fluxos e refluxos das marés na costa) operando com dados públicos.
A especialista afirma, no entanto, que há maneiras criativas e eficazes que não dependem unicamente de equipamentos.
— Algumas pessoas acham que a gente só vai avançar quando tiver não sei quantos radares, não sei quantos marégrafos.
Era bom ter, mas isso não impede de fazer ciência e gestão com as ferramentas de agora.
O Rio tem universidades com diferentes estudos desenvolvidos, inovação, modelagem feita aqui e para cá.
Um exemplo: temos câmeras em várias partes da cidade: as de trânsito, as de praia...
Elas poderiam ser aproveitadas também para esse tipo de alerta.
Com inteligência artificial, é possível gerar um script em que determinado tipo de imagem seja associada a um sinal.
Um profissional analisaria esses sinais das praias e poderia alertar — avalia.
Em outros estados, como em Santa Catarina, onde há geadas, a estratégia para enfrentar os extremos climáticos vai além do uso de equipamentos.
— Na Universidade Federal de Santa Maria, é feito um treinamento de voluntários, para identificar a aproximação de tempestade ou fenômenos que possam produzir impactos.
Também precisamos abrir espaços nas escolas, ensinar o que fazer ao ouvir alerta — afirma Ernani Nascimento.
