“Existe indígena gay?” foi uma das primeiras perguntas que Yacunã Tuxá, de 32 anos, precisou responder ao se identificar como mulher bissexual em uma cidade grande, Salvador.
A artista indígena saiu de Rodelas, cidade no sertão da Bahia onde hoje seu povo está instalado, para estudar na capital baiana — e ali passou a conviver com conflitos da urbanidade e com questões sobre o próprio corpo, inclusive sua sexualidade.
Na relação com sua aldeia, porém, essa discussão já estava superada havia muito tempo.
A sexualidade é bem representada na obra de Yacunã.
A artista, que começou a desenvolver seus trabalhos em 2019, produziu naquele mesmo ano “Mulher indígena e sapatão”, que pertence à coleção do Masp.
É um desenho digital com uma jovem segurando a bandeira LGBTQIA+ sobre o corpo.
A peça está na exposição “Toda árvore tem raiz”, em cartaz na Caixa Cultural, no Centro do Rio, reunindo outras 35 obras.
— Eu me assumi quando tinha 15 anos, e foi difícil.
Fui a primeira mulher a se assumir dentro da minha comunidade.
Cresci vendo pessoas LGBTs, mas demorei para me assumir — diz a artista.
— Fui encontrar o entendimento de quem eu era dentro da minha própria cultura.
Não foi fora dela.
'Mulher indígena e sapatão' (2019), de Yacunã Tuxá
Divulgação
Incompreensão LGBT
O processo de adaptação de Yacunã em Salvador aconteceu ao mesmo tempo que ela começou a ter vivência como mulher bissexual.
Foi nesse momento que chegou à conclusão de que “o movimento LGBT não conseguia entender as dissidências de sexo e gênero que há dentro das comunidades indígenas”.
— Nosso povo tinha uma liberdade sexual muito grande.
A própria ideia binária de gênero que se faz, para muitas comunidades, nunca existiu.
Não cabe falar dessas caixinhas que existem na cultura ocidental — aponta.
— A minha avó (Bezinha) foi a primeira pessoa a dizer que isso pode acontecer com qualquer pessoa.
História inundada
A avó Bezinha, que morreu em 2015, é uma das muitas mulheres que aparecem na obra de Yacunã.
A resposta para isso, segundo a artista, encontra-se também na história recente do próprio povo tuxá.
Na década de 1980, esta comunidade foi deslocada por conta da construção da Barragem de Itaparica, no Rio São Francisco.
A antiga aldeia foi completamente inundada.
Assim, todo o povo se reuniu nos arredores de Rodelas.
Por ali, foram instaladas cerca de 60 casas num território não demarcado.
— Foram as mulheres do meu povo que articularam novas maneiras de seguirmos vivos, de manter a nossa tradição.
Elas criaram ferramentas de resistência para que a gente conseguisse continuar sendo quem éramos com sabedoria.
Entenderam que a educação precisava ser o nosso foco — afirma a artista, que atribui às mulheres de seu povo a sua vontade de seguir para Salvador estudar: hoje cursa Letras na UFBA.
Detalhe de 'Era o rio, sempre foi o rio' (2026), de Yacunã Tuxá
Marina Calderon
Nos trabalhos de Yacunã ali reunidos, é quase imperceptível uma menção direta ao evento da construção da barragem.
Porém, há um olhar para o que a água não conseguiu submergir: se as habitações, o pátio e o roçado foram levados pela barragem, a memória deles resiste, comenta Vera Nunes, curadora da mostra ao lado de Naine Terena.
— Ela não faz uma crítica ao problema que aconteceu, mas um resgate porque quer manter viva a memória de seu povo.
A gente não vê a dor; Yacunã não conta da inundação — diz a curadora.
— O que foi inundado não vai voltar.
Então, o que pode voltar é a memória, a reza, o canto, a imagem que ela tem na cabeça dela e que nos é transportada.
A exposição na Caixa Cultural conta ainda com peças utilitárias ou decorativas produzidas pelas mãos das mulheres da aldeia da artista: cuias, cachimbos, maracas, moringas e pequenas estátuas femininas.
Vera Nunes afirma que essas produções de barro são envoltas por uma “narrativa de afeto”.
Essas esculturas proporcionaram a Yacunã seu primeiro contato com a arte, mesmo sem terem sido concebidas como tal:
— Os primeiros museus que visitei foram na aldeia mesmo.
Essas peças são obras de arte que fazem parte do nosso cotidiano.
A ideia é de que arte e vida não se separam.
Detalhe de obra de Yacunã Tuxá
Marina Calderon
É com o uso de sua presença nas redes sociais (onde tem cerca de 30 mil seguidores) e de parte de seu trabalho feito digitalmente que Yacunã procura verbalizar anseios e a tradição de seu povo.
A curadora Naine Terena reforça que o uso das tecnologias é uma ferramenta para contar a história dos tuxá.
— Embora ela tenha muitas produções que esteticamente transitam no digital, que parece algo descolado dos indígenas, vai aí usando as materialidades possíveis e que domina para contar a sua história e a das pessoas que fazem parte de sua vida — diz.
Povos indígenas tinham liberdade sexual que a cultura ocidental não reconhece, diz Yacunã Tuxá
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