Precisamos de tanta proteína? - QTU Questões do Universo

Precisamos de tanta proteína?

Fonte: Bandeira da fonte

A proteína virou o novo ingrediente milagroso.
Está nas barrinhas, no iogurte, no pão, na água e, pasme, até na cerveja.
Basta uma volta rápida pelo supermercado para perceber que, de repente, parece haver uma regra silenciosa: quanto mais proteína, melhor.
Mas será mesmo?
Enquanto as prateleiras ganham uma infinidade de produtos “proteinados”, especialistas questionam se essa corrida faz sentido para quem não é atleta nem tem uma necessidade específica.
A impressão é que criamos um problema que, na maioria das vezes, não existia: o medo de consumir pouca proteína.
— A proteína sempre foi hipervalorizada, mas hoje essa tendência saiu do universo dos suplementos esportivos e invadiu os alimentos industrializados.
Ela aparece mascarada em produtos que parecem saudáveis, como águas proteicas — afirma a nutricionista Natália Marques, autora de nove livros e coordenadora científica da pós-graduação da VP Centro de Nutrição Funcional.
Segundo ela, a maioria das pessoas já consome proteína suficiente na alimentação cotidiana.
O problema é que a ideia de aumentar indiscriminadamente a ingestão ganhou força ao lado das dietas de emagrecimento e da promessa de envelhecer melhor ou ganhar músculos mais rapidamente.
É verdade que a proteína desempenha papel fundamental na manutenção da massa muscular.
Também é consenso que idosos, gestantes, crianças em fase de crescimento e pessoas em recuperação de cirurgias podem precisar de um consumo maior, sempre com orientação profissional.
O equívoco está em transformar essa necessidade específica numa recomendação universal.
— O brasileiro parou de comer o básico, como arroz e feijão, que juntos oferecem uma combinação proteica completa, e passou a acreditar que precisa beber proteína.
Isso é desinformação— diz Natália.
A observação faz pensar.
Durante décadas, o arroz com feijão foi a base da dieta do brasileiro.
Nas últimas décadas, a dupla foi substituída em grande parte por ultraprocessados: a comida de verdade dando lugar a produtos de pacote.
E agora a proteína surge como salvadora.
Outro fenômeno ajuda a explicar essa febre: o crescimento do uso dos medicamentos para perda de peso, os análogos de GLP-1.
Muitas pessoas usam as canetas para perder pouco peso sem mudar hábitos (se exercitar e ter uma alimentação equilibrada) e acabam perdendo muito músculo no processo.
— A partir de uma perda de 5 kg no mês, já ocorre perda muscular.
O problema é que essas canetas interferem no funcionamento do estômago, dificultando a digestão.
Tomar whey protein durante o uso desses medicamentos não ajuda na manutenção do músculo; pelo contrário, aumenta o risco de desenvolver sensibilidade alimentar por conta da má digestão.
A nutricionista chama atenção para a questão da digestibilidade das proteínas.
—Pessoas que utilizam continuamente medicamentos para refluxo ou gastrite podem apresentar menor capacidade de digerir proteínas.
Quando a proteína não é adequadamente digerida, ela pode alterar o equilíbrio intestinal.
Nos últimos 10 anos, houve um aumento de cerca de 5% nos casos de sensibilidades alimentares, como alergias tardias e intolerâncias.
A questão não é a proteína em si, mas a forma como ela passou a ser vendida e consumida.
A palavra “proteico” virou selo de saúde, mesmo quando estampada em produtos ultraprocessados.
— É uma jogada de marketing perigosa.
O consumidor passa a acreditar que qualquer produto é saudável porque contém proteína.
A propaganda vende praticidade.
O organismo, porém, continua funcionando como sempre: prefere comida de verdade.
A proteína continua importante.
Só não precisa ser transformada em obsessão.