Presidenciáveis têm propostas para infância, mas não priorizam prevenção de violência, avalia Unicef - QTU Questões do Universo

Presidenciáveis têm propostas para infância, mas não priorizam prevenção de violência, avalia Unicef

Fonte: Bandeira da fonte

Os candidatos à Presidência trazem em seus planos de governo propostas contra violências que atingem crianças e adolescentes.
No entanto, nenhum dos postulantes prioriza a prevenção.
É o que afirma o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que analisou os programas dos cinco principais concorrentes ao próximo mandato no Palácio do Planalto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Renan Santos (Missão).

A agência da ONU analisou as propostas apresentadas pelos candidatos e mediu quantas vezes a infância é mencionada nos planos de governo e quais temas eles abordam.
O Unicef também avaliou o que propõe cada postulante e, a partir do resultado da pesquisa, fez uma série de recomendações aos presidenciáveis.

Ao todo, nos cinco programas analisados, há 178 menções a crianças e adolescentes, sendo 42 relacionadas à educação; 39 à violência ou à segurança pública; 30 à saúde; 28 à proteção social; 8 ao esporte; e 31 a outros direitos.
Os candidatos, porém, têm prioridades diferentes.
Enquanto Lula e Caiado focam no enfrentamento da violência, Flávio, Zema e Renan falam mais sobre educação.

Segurança pública
De acordo com o Unicef, a segurança pública é o tema que permeia as plataformas eleitorais dos cinco candidatos, mas cada um trata o assunto de uma forma.
As referências à violência contra crianças e adolescentes são abordadas de forma diferente pelos candidatos — com exceção de Renan Santos, que não a menciona de forma explícita entre suas propostas.

Segundo dados do Anuário de Segurança Pública de 2026, só no ano passado, 2.079 crianças e adolescentes foram mortos de forma violenta no Brasil.
O número equivale a quase 6 assassinatos a cada dia, sendo a maioria adolescentes do sexo masculino e negros.

Em casa, entre 2024 e 2025, houve um aumento de 106% nos maus-tratos com mais de 38 mil casos no último ano.
Também foram registrados 61 mil estupros ou estupros de vulnerável no país, a maioria ocorrida em casa por autor conhecido.

A agência da ONU aponta que a maioria dos programas dos presidenciáveis foca apenas na criminalidade, como o aumento de penas, ampliação de policiamento e fortalecimento da investigação criminal.
Já as menções às medidas de prevenção, ao fortalecimento do sistema de garantia de direitos e às respostas intersetoriais envolvendo outras áreas além da segurança são menos frequentes nas propostas dos candidatos.

“Há mais ênfase em abordagens de resposta à violência do que em propostas voltadas a uma proteção integral de crianças e adolescentes por meio de políticas sociais”, diz o Unicef.

Medidas punitivas
A organização cita como exemplo os programas de Flávio e Zema, que focam principalmente em medidas punitivas, sejam respostas às violências cometidas contra crianças e adolescentes ou por elas.
Caiado, por sua vez, também dá ênfase na investigação e na penalização dos autores da violência, mas traz propostas intersetoriais de prevenção.
Segundo o Unicef, Lula é o candidato que mais aborda formas de prevenir esses episódios violentos.

“Não se trata de escolher entre prevenção ou repressão.
É preciso, sim, investigar e responsabilizar os autores da violência.
Mas, para proteger crianças e adolescentes, é fundamental também agir antes que a violência aconteça, por meio de políticas de educação e oportunidades para jovens, da assistência social, da saúde, do fortalecimento das famílias e de sistemas que identifiquem e referenciem situações de violência”, diz o representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman.

De acordo com o levantamento do Unicef, a violência sexual é a mais abordada nos planos dos candidatos.
Ela é citada por três postulantes: Lula, Flávio e Caiado.
Já os riscos no ambiente digital são citados apenas pelo petista e pelo ex-governador de Goiás.

A agência pontua que homicídios de crianças e adolescentes, especialmente em contexto urbanos, são citados apenas no plano de Caiado.
E não foram identificadas, em nenhum dos programas, propostas em relação às mortes em decorrência de intervenção policial nesta faixa etária.

Violência armada
O Unicef aponta ainda que a forma com que a violência armada atravessa a vida na infância também é pouco abordada pelos candidatos.
As únicas propostas dedicadas a esse tema são referentes à redução da maioridade penal e a mudanças no sistema socioeducativo.
A redução da maioridade penal é defendida nos programas de Caiado, Zema e Flávio.

Após a análise dos cinco programas de governo, o Unicef fez um manifesto com diretrizes para tratar da violência na infância.
Para combatê-la dentro de casa, a agência da ONU recomenda que “os futuros governantes incluam a ‘parentalidade protetiva’ nas políticas já existentes de primeira infância, cuidados, assistência social e enfrentamento às violências”.

Segundo a organização, isso inclui formar agentes públicos — como equipes de assistência social, saúde, educação, conselhos tutelares, entre outros — para orientar pais, mães e cuidadores a prevenir a violência e adotar práticas parentais não violentas.

Já para enfrentar a violência fora de casa, o Unicef defende a criação de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes, com uma abordagem intersetorial que vá além da segurança pública e conte com áreas como educação, saúde, trabalho e emprego e assistência social.
A ideia é reduzir os fatores de risco associados à violência, como o abandono escolar, a pobreza, o racismo e a falta de acesso a oportunidades, além de responder aos casos em que essa violência já aconteceu.