O sistema penitenciário do Rio pode estar diante do nascimento de uma nova facção criminosa.
Uma dissidência do Povo de Israel (PVI) começou a se organizar dentro dos presídios fluminenses após a morte do chefe do PVI, Avelino Gonçalves Lima, de 54 anos, no ano passado.
A movimentação, que pode dar origem à quinta organização criminosa do estado, já provocou conflitos nas prisões, com relatos de incêndio em galeria, espancamentos e ameaças de morte.
Para tentar impedir o avanço do novo grupo, batizado de Primeiro Comando do Golpe, a Secretaria estadual de Polícia Penal (Seppen) mobilizou o setor de inteligência da pasta para identificar os detentos envolvidos e aplicar medidas disciplinares e de segurança, como o isolamento.
Vídeo: Moradores atravessam carros e motos para bloquear avanço da PM durante operação no Fubá
Saídas diárias para São Paulo: Viação 1001 inaugura primeiro ponto na Zona Norte em shopping
A facção Povo de Israel nasceu dentro dos presídios e não possui territórios do lado de fora.
O grupo é formado pelos chamados “neutros”, que não pertencem ao Comando Vermelho (CV), ao Terceiro Comando Puro (TCP) ou aos Amigos dos Amigos (ADA), e, em geral, também não são aceitos por essas facções por serem acusados de crimes como estupro e estelionato.
Conflitos nas unidades
Embora a principal fonte de renda do grupo venha de golpes aplicados por telefone, o PVI também comercializa drogas dentro das unidades penitenciárias.
No início deste mês, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) prendeu um policial penal suspeito de facilitar a entrada de celulares e entorpecentes para integrantes do grupo.
Primeiro comando do golpe: grupo formado nos presídios pode virar quinta facção
reprodução/Cperj
O relato sobre os conflitos gerados pela dissidência do PVI apareceu em documentos oficiais do governo do estado a partir de uma vistoria realizada pelo Conselho Penitenciário do Estado do Rio (Cperj) no Presídio Evaristo de Moraes, conhecido como Galpão da Quinta, em São Cristóvão.
Uma equipe da entidade esteve na unidade em julho deste ano, para avaliar as condições do presídio, incluindo estrutura, lotação, convivência entre os presos e condições de trabalho dos servidores.
Durante a visita, os conselheiros ouviram dos próprios detentos relatos sobre a dissidência do PVI e os conflitos provocados pela formação do novo grupo.
Um dos internos afirmou à equipe ter sofrido fraturas em três costelas durante uma briga entre integrantes das duas organizações.
“Ouvimos relatos de espancamentos, ameaças e medo de morte.
Alguns presos disseram temer ser mortos dentro da unidade.
Outros afirmaram que matariam na primeira oportunidade.
Um dos presos no seguro — área em que fica separado dos demais — relatou estar com medo de morrer em razão da disputa interna.
Afirmou que a unidade estaria ‘a um passo de um banho de sangue’”, diz um trecho do relatório elaborado pelo órgão.
Pelo menos 60 presos
A situação foi classificada como “crítica” pelo conselho em ofício enviado à Seppen no dia 9 de julho.
No documento, o conselheiro Enzo Luchione afirma que os relatos sobre a dissidência, associados à superlotação da unidade e à falta de servidores no presídio, criavam um ambiente de “grave instabilidade, com iminência de episódios de violência”.
De acordo com o relatório, a unidade, que tem capacidade para 1.497 pessoas, abrigava 3.244 internos — uma ocupação equivalente a 217% da prevista.
A Seppen negou os relatos de agressão, mas informou que está “adotando medidas cabíveis” para resolver o problema da superlotação.
Sobre a formação da nova facção, a secretaria diz que elaborou um relatório e o enviou aos setores de inteligência de órgãos da Segurança Pública.
Um servidor da Seppen contou que pelo menos 60 presos já foram identificados no novo grupo e que a disputa com o PVI acontece em várias unidades.
No Presídio Lemos de Brito, no Complexo de Gericinó, presos que seriam do Primeiro Comando do Golpe chegaram a atear fogo em uma galeria na tentativa de assumir o controle do espaço no último dia 23 de julho.
No IFCS: Estudantes da UFRJ se envolvem em confusão após jovem aparecer para aula usando camiseta que supostamente fazia apologia ao nazismo
Segundo esse funcionário, a ação teria sido comandada por Thiago Faustino Apolinário dos Santos, conhecido como TH.
Ele seria um dos dissidentes do PVI e, de acordo com o relato, estaria tentando incitar outros presos a simular uma emergência médica para assumir o controle da galeria onde estavam.
Diante do fracasso da estratégia, contou a fonte, os presos atearam fogo no local, provocando uma situação de caos e enviando um recado aos demais detentos.
— Eles brigam quase diariamente.
São completamente sem escrúpulos e sem regramento de conduta — explicou o servidor, que pediu para não ser identificado.
Barbárie em Copacabana: Chefe de seguranças diz que já havia recebido reclamações sobre 'conduta agressiva' de Davi
Na Zona Norte do Rio: Suspeito de tráfico tem infarto e morre durante fuga em operação da PM
Após o episódio, TH e outros cinco presos foram isolados e passaram a cumprir pena em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
Primeiro Comando do Golpe: grupo formado nos presídios pode virar quinta facção
Fonte:
