O produtor gaúcho deverá diminuir a área de soja neste ano e aumentar a lavoura de milho.
Essa é a indicação da primeira estimativa da safra de verão 2026/27 da Emater-RS (empresa pública de extensão rural do Rio Grande do Sul), divulgada nesta terça-feira (1/7) durante a Expointer, em Esteio (RS).
De acordo com os dados, o milho será a única lavoura que deverá ter aumento de área no Rio Grande do Sul nesta safra de verão.
A Emater-RS prevê o plantio de 896 mil hectares com o cereal, um aumento de 7,42% em relação aos 834 mil hectares semeados em 2025/26.
A produção estimada é de 6,9 milhões de toneladas, volume que, se confirmado, será 7,18% maior do que na última temporada.
Já a soja, principal cultura de verão no Estado, deverá ter uma redução de 0,92% na área plantada, somando 6,26 milhões de hectares.
A diminuição esperada é de 60 mil hectares - praticamente o mesmo tamanho do aumento da área de milho.
A previsão da Emater-RS é que a produção da oleaginosa cresça 15,32%, para 21,15 milhões de toneladas.
Segurança climática determina decisão do produtor
Segundo Mateus Soares da Rocha
, diretor técnico da Emater, o produtor gaúcho está buscando mais a cultura do milho neste ano por uma questão de segurança climática.
O cereal é plantado antes da soja, no início da primavera, justamente quando o fenômeno El Niño deve garantir chuvas em abundância - um fator importante para os agricultores gaúchos, que vêm sofrendo várias safras seguidas com secas no verão.
Já a redução da soja é atribuída à dificuldade de acesso ao crédito rural devido ao endividamento - outra consequência da série de estiagens que afetaram as lavouras gaúchas desde 2020.
“Mesmo com as medidas provisórias apresentadas pelo governo, as condições não estão ainda tão favoráveis para o acesso ao crédito, e isso faz com que deva ocorrer essa redução de área e de tecnologia implantada nas lavouras de soja”, explica Rocha.
Essas também foram as motivações que levaram Michel Rodrigues, de Tupanciretã (RS), a investir no plantio de milho nesta safra, após sofrer várias perdas na soja com estiagens nos últimos anos.
Em sua área de 1,5 mil hectares, o produtor costumava dedicar dois terços como campo nativo para pecuária de corte, e o restante para o plantio de soja no verão.
Neste ano, ele pensa em reduzir a oleaginosa, e pela primeira vez, está apostando no cereal.
“Devo iniciar o plantio de milho nesta semana, quando o tempo permitir.
Está sendo uma lavoura mais rentável, com bons preços, e com o El Niño deve ter chuva garantida durante o desenvolvimento”, afirma.
Já a soja, segundo o produtor, tem sido uma cultura com uma rentabilidade menor.
“Tivemos um gasto de 38 a 40 sacos por hectare na lavoura nos últimos anos.
E, nesta safra, além dos insumos estarem mais caros, vamos ter que investir mais em controle de doenças e pragas justamente pela previsão de excesso de chuva”, comenta.
No município vizinho de Júlio de Castilhos (RS), o produtor Fernando Camargo Júnior planeja aumentar em 20% a sua lavoura de milho neste ano.
“Eu vou plantar mais milho.
Apostamos em condições climáticas melhores, porém, esse aumento é devido à rentabilidade ser mais atrativa”, diz.
Ele também pretende reduzir a área de soja, mas ainda não tomou decisão de quanto será o corte no plantio.
Incluindo todas as lavouras de verão (soja, milho, arroz, feijão e sorgo), o Rio Grande de Sul deverá ter uma área de grãos 0,37% menor nesta temporada, segundo a Emater-RS.
A estimativa é de área de 8,428 milhões de hectares, contra 8,459 milhões de hectares em 2025/26.
A produção total esperada é de 35,64 milhões de toneladas de grãos, aumento de 8,64% em relação às 7,97 milhões de toneladas da última temporada.
Arroz também deve ter redução de área no RS
Além da soja, o arroz também sofrerá redução de área plantada.
De acordo com dados do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), divulgados nesta segunda-feira (31/8) e repetidos pela Emater, a cultura ocupará 861 mil hectares, uma queda de 3,4% em relação aos 891 mil hectares de 2025/26.
Com essa diminuição, o arroz ficará em terceiro lugar no ranking das maiores lavouras de verão do Rio Grande do Sul, cedendo a segunda colocação para o milho.
A produção orizícola também é a única que tem estimativa de redução nesta safra gaúcha.
A previsão é de uma colheita de 7,5 milhões de toneladas, queda de 5,49% em relação à última temporada.
El Niño deve trazer chuva ao RS
Durante a apresentação da estimativa para a safra gaúcha, o agrometeorologista da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Flávio Varone, destacou que a previsão de um fenômeno El Niño muito forte se manifestando nos próximos seis meses deve fazer com que o período de primavera e verão sejam mais chuvosos, além de aumentar a probabilidade de eventos climáticos extremos, como enchentes.
No entanto, segundo o especialista, ainda é cedo para fazer uma projeção de que esses fenômenos ocorram.
“Tudo depende de condições locais, regionais, que só podem ser medidas em curto prazo”, explica.
Varone lembra que, apesar de a previsão de meses mais chuvosos durante a safra garantir maior umidade para o desenvolvimento das lavouras, essas condições também geram desafios para os produtores, especialmente no período de semeadura da safra.
“As chuvas podem atrapalhar os trabalhos de campos, o produtor vai ter que investir um pouco mais em insumos devido à maior chance de ocorrências de doenças ligadas à umidade”, afirma.
