Profissionais de Hollywood treinam IA para fazer seu trabalho: "me deram a pá e pediram que eu cavasse a cova da minha profissão" - QTU Questões do Universo

Profissionais de Hollywood treinam IA para fazer seu trabalho: "me deram a pá e pediram que eu cavasse a cova da minha profissão"

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Hollywood
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Profissionais de Hollywood estão recorrendo a trabalhos temporários para treinar modelos de inteligência artificial para reproduzir suas habilidades, em uma tentativa de compensar a queda de salário nos últimos anos.
A situação chegou a ser comparada, por um deles, a “receber uma pá e pedirem para cavar a cova da minha profissão”.
Segundo o The Guardian, roteiristas, diretores e produtores experientes e premiados estão recebendo entre US$ 12 e US$ 200 por hora (cerca de R$ 62 a R$ 1.030) para ensinar modelos de IA sobre as particularidades de seus trabalhos, que vão desde escrever um roteiro até elaborar um cronograma de filmagem.
Esses profissionais, que lidam com sentimentos que vão do fatalismo à culpa, se inscreveram em algumas das empresas de treinamento que estão em expansão e que têm contratos com as maiores companhias de IA, incluindo Anthropic e OpenAI.
O fenômeno acontece em meio a uma queda no número de empregos nos setores de produção cinematográfica e gravação de áudio, nos quais a IA começa a assumir funções.
A Netflix, por exemplo, revelou neste mês que utilizou IA em 300 de seus 1.000 títulos em 2026.
“É algo muito específico da produção”, disse Ruth Fowler, roteirista e produtora em Los Angeles.

“Você está ensinando a tecnologia a tomar nossos empregos.”
Fowler escreveu e criou Rules of the Game, da BBC One estrelado por Maxine Peake, e foi coautora do roteiro de Little Disasters, série da Paramount+ estrelada por Diane Kruger.
Mas começou a treinar IAs porque percebeu que estava sempre sem dinheiro.
Ao The Guardian, ela contou que teve de treinar uma IA para elaborar um cronograma detalhado para uma filmagem hipotética de dois dias, incluindo a identificação das autorizações necessárias, possíveis riscos nas locações, condições de luz para as filmagens, listas de profissionais por cena e necessidades do elenco, como proteção de crianças.
Ela ensinava a IA a montar o plano com base em documentos como e-mails, um roteiro de filmagem e outros materiais de produção.

Em outro caso, treinou uma IA para montar uma apresentação de ideias para filmes e séries de TV — o tipo de trabalho que seria feito por um executivo de produção.
Outro profissional, diretor de documentários em Los Angeles, aceitou um trabalho para ensinar uma IA a transcrever vídeos com precisão.
Ele analisou gravações de uma partida de beisebol infantil em que as vozes eram prejudicadas pela música e pelo barulho da torcida, para ensinar o sistema a separar sons sobrepostos.
Também precisou criar um guia visual de cada pessoa que falava e caracterizar sotaques.
“Eu não teria começado esse trabalho se não tivesse uma compreensão realista e talvez um pouco fatalista de como o mundo está funcionando”, disse ele, pedindo para não ser identificado.
“Isso simplesmente é algo que fará parte das nossas vidas no futuro, e nenhuma quantidade de abstinência vai impedir isso.”
“Eu descrevo aos amigos que, essencialmente, me deram uma pá e pediram que eu cavasse a cova da minha profissão.”
As oportunidades de trabalho para profissionais de Hollywood diminuíram.
O número de dias de filmagem em Los Angeles caiu 48% entre 2021 e 2025, segundo a FilmLA Research.
Em todo os EUA, o número de empregos nos setores de produção cinematográfica e gravação de áudio teve uma queda de 28%, de 450 mil em julho de 2022 — o pico da recuperação pós-pandemia — para 326 mil em maio de 2026, segundo o Bureau of Labor Statistics.

Jody Wheeler, roteirista de 56 anos que já lecionou na University of Southern California e realizou trabalhos de treinamento de IA, demonstrou tranquilidade, depois de observar o que considera serem as limitações da tecnologia.
Embora os modelos de IA sejam bons em gerar ideias, afirmou: “as máquinas não vão produzir roteiros vencedores do Oscar tão cedo”.
“Você pode enxergar isso como uma forma de dar às pessoas uma pá para cavarem a própria cova”, disse.
“Mas também pode ser o caso de você estar dando às pessoas uma pá para ajudá-las a desenterrar coisas que antes não conseguiriam fazer sozinhas.”
Cineastas mais jovens têm recorrido à IA para produzir filmes e séries que, de outra forma, não conseguiriam financiamento.
É o caso de Zack London, conhecido como Gossip Goblin, que deve lançar um longa-metragem nos cinemas ainda este ano, depois de acumular centenas de milhões de visualizações na internet com seus curtas de ficção científica produzidos com IA.
Outra roteirista, que tem créditos em séries de TV da Amazon, HBO, NBC e Lionsgate e pediu para não ser identificada, disse que começou a treinar IAs para escrever roteiros depois que os trabalhos encomendados não se recuperaram da greve dos roteiristas de 2023.
Ela percebeu que a IA melhorou significativamente, mas “não está nem perto de reproduzir a emoção humana”.
Segundo ela, a IA poderia escrever um episódio de CSI, mas não de Ruptura ou Succession.
“Há alguns meses, eu estava começando a pensar: ‘Meu Deus, talvez eu não devesse estar fazendo isso.
Talvez estejamos caminhando para um lugar em que isso acabará deixando pessoas sem trabalho’.
Mas, no fim das contas, ter dinheiro na conta bancária venceu.”
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