Há vários projetos em curso para aumentar a produção nacional de fertilizantes.
Eles ajudarão a reduzir uma dependência externa, que chega a cerca de 85% na média — aproximadamente 95% para nitrogenados e potássicos e 70% para os fosfatados —, e são estratégicos para evitar situações críticas em função de crises geopolíticas, que afetam oferta e preços.
Um exemplo desse cenário foi a elevação inédita da cotação do enxofre (matéria-prima para fertilizantes fosfatados).
De US$ 100 a US$ 150 por tonelada foi para cerca de US$ 500 no início de 2026.
Em meados do ano, devido à guerra no Irã, do fechamento do Estreito de Ormuz e de restrições na oferta global, chegou a US$ 1.200 — e o estoque do produto deve durar apenas até setembro.
Entre os exemplos de empresas com iniciativas de expansão no setor estão Petrobras, Stratos, Potássio do Brasil, Águia, Massari e Morro Verde.
As duas últimas anunciaram, no início do ano, a fusão de seus negócios.
Esta união criou uma capacidade produtiva superior a 3 milhões de toneladas anuais e que oferecerá ao mercado principalmente fosfatados e fertilizantes mistos.
Aportes concluídos de R$ 20 milhões na unidade de fosfato de Pratápolis (MG) da Morro Verde possibilitam triplicar, para 1,2 milhão de toneladas anuais, a produção.
Outro empreendimento de fosfato é o da Águia Fertilizantes, empresa de capital australiano, que iniciou, em junho, a operação do Projeto Fosfato Três Estradas, em Lavras do Sul (RS).
Inclui uma mina a céu aberto e uma unidade para beneficiamento, com capacidade para até 300 mil toneladas de fertilizantes por ano.
Em 2026, a empresa espera produzir 70 mil toneladas, volume que irá crescer nos próximos anos.
Em potássio, há, por exemplo, as iniciativas da Potássio do Brasil — subsidiária da canadense Brazil Potash — e da Stratos.
A primeira toca o Projeto Autazes, no Amazonas, que terá capacidade para produzir 2,4 milhões de toneladas por ano, com potencial de atender entre 17% e 20% da demanda nacional.
Em fase de desenvolvimento, a empreitada tem uma estimativa total de US$ 2,5 bilhões em investimentos e, uma vez concluída sua estruturação financeira, as obras começarão.
A implantação completa se dará em quatro a cinco anos.
“O potássio da empresa chegará às regiões agrícolas por hidrovia, em cerca de dois dias e meio, reduzindo os custos logísticos em relação ao insumo importado”, diz Sérgio Leite, presidente da Potássio do Brasil.
Atualmente, o produto importado pode levar mais de cem dias para chegar ao Mato Grosso, maior polo do agronegócio nacional.
No entanto, o projeto enfrenta questionamentos ambientais na Justiça, até agora com decisões favoráveis à empresa.
Já a Stratos opera a única mina de cloreto de potássio em atividade no país, a de Taquari-Vassouras (SE).
O ativo foi comprado da multinacional Mosaic, no ano passado, e tem capacidade para produzir cerca de 500 mil toneladas de fertilizantes potássicos por ano.
Segundo a empresa, há estudos para expansão.
Avaliações geológicas e de sondagem já realizadas indicam uma vida útil estimada da mina até 2042.
A Petrobras voltou ao setor a partir do fim do ano passado, com a retomada de três fábricas de nitrogenados capazes de oferecer 20% da demanda interna.
Uma delas é a de Laranjeiras (SE), que tem capacidade para 1,8 mil toneladas diárias de ureia — ingrediente com alta concentração de nitrogênio.
A unidade também produz amônia.
Outra fica em Camaçari (BA), com capacidade de 1,3 mil toneladas por dia de ureia, produzindo também amônia e Arla 32 (reagente para motores a diesel).
Uma terceira unidade, a Araucária Nitrogenados S.A.
(Ansa), no Paraná, tem possibilidade de oferecer 720 mil toneladas por ano de ureia.
Em 2029, será a vez, segundo as previsões da estatal, de uma quarta unidade de nitrogenados entrar em operação.
Trata-se da fábrica de Três Lagoas (MS), que fará a petroleira ofertar, no total, 35% do consumo interno.
O Plano Nacional de Fertilizantes, do governo federal, prevê estímulos à produção interna visando abastecer 50% das necessidades domésticas até 2050.
Com metas intermediárias antes disso, tem como instrumento o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), com até R$ 10 bilhões em subsídios ao setor entre 2027 e 2031 e que será votado em agosto pelo Senado.
Há, segundo informações do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), 18 projetos para produção de fertilizantes.
Sete são para nitrogenados, outros sete para fosfatados e quatro de potássio.
Alguns deles já iniciaram atividades e todos devem estar em operação até 2032.
Lopes, da EY: autossuficiência em fertilizantes é um passo importante para o agronegócio
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“A ampliação da produção interna é importante para reduzirmos a vulnerabilidade do país relacionada às questões geopolíticas no mercado internacional”, observa Elias Lima, presidente do Sinprifert.
Para ele, os projetos em andamento são estratégicos para a segurança do abastecimento da produção agrícola no Brasil.
“E para a viabilidade produtiva em cadeias críticas para a soberania e o desenvolvimento nacional”, acrescenta.
Já o uso de fertilizantes especiais (que inclui os organominerais e os biológicos) tende a crescer, mas não substituirá os produtos tradicionais (minerais).
“Não existe solução única capaz de atender todas as necessidades da planta.
A agricultura moderna caminha para sistemas integrados, com diferentes tecnologias trabalhando de forma complementar”, diz Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal (Abisolo).
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que foram importados 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, por US$ 15,5 bilhões.
No ano anterior, esse volume foi de 44,28 milhões de toneladas.
Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY para América Latina, observa que o ideal é o Brasil chegar a ter autossuficiência em fertilizantes.
“Seria um passo importante, uma vez que fatores geopolíticos e custos elevados podem gerar redução de uso e, consequentemente, encolhimento da produção agropecuária”, aponta.
Fertilizers - Reducing vulnerabilities
Several projects are underway to boost Brazil’s domestic fertilizer output and curb imports, which currently account for about 85% of the country’s fertilizer supply.
The goal is to head off critical shortages triggered by geopolitical crises.
Petrobras, Stratos, Potássio do Brasil, Águia Fertilizantes, Massari, and Morro Verde are among the companies expanding production.
The latter two announced a merger earlier this year with combined production capacity of more than 3 million tonnes per year.
Águia Fertilizantes launched a phosphate project in June with capacity to produce up to 300,000 tonnes annually.
Potássio do Brasil is developing the Autazes Project in the state of Amazonas, expected to reach an annual production capacity of 2.4 million tonnes; the project is currently in the financial structuring phase.
“Potash will reach agricultural regions by waterway in about two and a half days,” says Sérgio Leite, president of Potássio do Brasil.
Today, delivery takes more than 100 days.
The project faces environmental challenges in the courts, though rulings so far have favored the company.
Stratos operates the country’s only active potassium chloride mine, in Taquari-Vassouras, Sergipe, with capacity to produce around 500,000 tonnes of potash fertilizers per year.
Studies are also underway to expand output.
Petrobras reentered the fertilizer sector late last year, restarting three plants capable of supplying 20% of Brazil’s urea demand.
According to the state-owned company, a fourth plant is expected to come online in 2029, raising its share of domestic supply to 35%.
The National Fertilizer Plan includes incentives to expand production, aiming to meet 50% of the country’s fertilizer needs by 2050.
A program offering up to R$10 billion in subsidies between 2027 and 2031 is scheduled for a Senate vote in August.
Otavio Lopes, EY’s agribusiness leader for Latin America, says the ideal scenario is for Brazil to achieve fertilizer self-sufficiency.
In 2025, the country imported 45.5 million tonnes of fertilizers, from 44.28 million tonnes the previous year.
Brazil currently has 18 new fertilizer production projects underway.
All are expected to be operational by 2032.
